Entrevista com X-Cons



Via Nocturna (VN): Em primeiro lugar gostaria que explicassem como nasceram e como evoluíram até hoje os X-Cons.

X-Cons (XCN): Os X-Cons nasceram no Porto, nos inícios de 2005. Tudo começou quando nos juntamos pela primeira vez para fazer aquilo que gostávamos, tocar Punk-Rock. Pegamos em algumas músicas que tínhamos na gaveta e juntamos as nossas ideias até conseguirmos atingir uma sonoridade que estivesse de acordo com aquilo que realmente gostássemos. Não começou logo como um projecto sério, mas as coisas foram seguindo o seu rumo e aos 6 meses de banda estávamos já a gravar a nossa primeira demo When Will They Fall? (2005, DIY), a partir daí foi um nunca mais parar de tocar ao vivo e como, sinceramente, nada nos dá mais prazer de fazer aquilo que gostamos, até hoje continuamos no mesmo e com cada vez mais e mais vontade de fazer melhor.

VN: Costumam apontar Strike Anywhere, Pennywise ou Anti-Flag como vossas influências. Todavia, na hora de compor tentam soar aos vossos ídolos ou procuram isolar-se dessas mesmas influências?
XCN: Mal pegamos numa guitarra ou nos juntamos para escrevermos as nossas músicas, tentamos que elas soem como X-Cons. Existe sempre um processo de separação entre aquilo que nos inspira e aquilo que nós somos enquanto banda. Porém, a nível sonoro essas são as bandas que realmente nos marcam, pois são aquelas que ouvimos em conjunto, que discutimos as suas músicas e que nos mostraram no decorrer do nosso crescimento pessoal e musical qual o caminho….e isso sem dúvida deixa uma marca que é impossível negar. No entanto, o processo de composição reflecte muito, em X-Cons, toda uma vivência social que é importante manter. Nenhuma música ou produção artística nasce isolada no tempo e no espaço e a nossa música tenta não fugir a isso.


VN: O vosso nome é um pouco estranho. O que significa exactamente?
XCN: O nosso nome surgiu quase por brincadeira entre nós sendo X-Cons um diminutivo de Exconvicts que significa ex-presidiários. Vivemos numa sociedade em que as paredes de cimento e os valores que nos tentam incutir a toda a hora, quer sejam as outras pessoas, media, etc. nos levam a ficarmos formatados de tal maneira que parece que vivemos em jaulas enormes, onde só existe espaço para as pessoas que se comportam e estão formatadas dessa forma….essa é uma prisão da qual nos queremos separar totalmente e chamar a atenção para a sua existência. Daí vem o nosso Pride Of The Free. Não somos uma banda anti-sociedade ou anti-valores, antes pelo contrário…se a música poderá ter alguma função será mostrar às pessoas algum caminho a seguir.



VN: Como estabeleceram contacto com Infected Records?
XCN: O João da Infected Records, mesmo antes do álbum sair, já nos tinha abordado para quando o álbum saísse pudéssemos fazer a edição em conjunto. O meio underground é relativamente pequeno e toda a gente se conhece e como já tínhamos dado alguns concertos juntos, ele conhecia-nos bem, quer como banda, quer como pessoas.
Como a vontade e paixão pelo Punk-Rock e aquilo que ele representa era algo que nos unia, não foi difícil assumirmos este casamento. Acima de tudo, a Infected pela pessoa do João e as pessoas que vão trabalhando directamente com ele, é uma editora que respeitamos mais que tudo, pois quem é que hoje em dia dá tudo pelo movimento Punk/Hardcore nacional?! Quem realmente vive o Punk por aquilo que ele é e representa?! Podemos contar muito poucas….mas a Infected Records, encontra-se ai.

VN: Para a França e Reino Unido também têm distribuição, certo? Como tem sido a reacção dos fãs e da imprensa por lá?
XCN: Apesar de a edição ter sido feita também nesses países, através das facilidades que a internet nos trouxe, vejo o álbum a circular por países que nunca pensei. O mais fascinante ainda é termos pessoas que nos deixam mensagens no myspace a dizer que adoram o som e que querem receber o álbum. Ouvirmos a nossa música a passar em rádios estrangeiras e permanecermos em destaque é muito bom….sem dúvida. É óptimo quando o trabalho que colocamos durante imenso tempo é reconhecido, tanto no nosso país como no estrangeiro.

VN: Tem previsto poder chegar a mais algum mercado?
XCN: Estamos neste momento em conversações para atingirmos o vasto mercado Japonês e Americano. Temos noção que são países em que existe uma maior disponibilidade para o tipo de som que praticamos e então não podemos desperdiçar….se um dia tivermos que sair de Portugal e percorrer esses países em concertos, não iremos rejeitar. Temos já alguns contactos nesses países a darem-nos um feedback positivo do nosso trabalho.

VN: E em Portugal, as reacções têm sido positivas?
XCN: Acho que até agora não podiam ser melhores. Desde que lançamos o álbum temos tocado por todo o país, têm-nos surgido cada vez mais propostas, já passamos e estivemos em destaque em algumas rádios, e-zines e blogs de música nacionais têm-nos acarinhado bastante e proporcionado que cada vez mais pessoas ouçam a nossa música. Até agora, sem dúvida este é o ponto alto da nossa curta carreira.
Esperamos ainda, no decorrer deste ano promover o Pride of the Free e levá-lo a cada vez mais pessoas, no final do ano faremos esse balanço, mas até agora é extremamente positivo.

VN: Sendo Pride Of The Free o vosso primeiro longa duração, estão plenamente satisfeitos com o resultado final?
XCN: Por muito que me custe não posso responder a essa questão afirmamente. Depois de um ano a trabalhar quase diariamente para um álbum o final acaba por não ser sempre o desejado, pois encontramos sempre coisas que poderíamos fazer diferente e que tornaria, talvez, o álbum melhor. No entanto, quando olhamos pela primeira vez para o álbum completo, só nos deu um orgulho imenso por vermos que, apesar de tudo, realmente ficou um óptimo trabalho quer a nível de produção e edição. Todos os pormenores que não nos deixaram 100% satisfeitos serão os pormenores que nos dão motivação para que no 2º álbum tudo saia ainda melhor.

VN: Actualmente há diversas bandas a praticar uma sonoridade próxima da vossa. Acham que se vive em Portugal um bom momento em termos de punk/hardcore?
XCN: Muita gente costuma apregoar que o Punk já morreu e em Portugal o rigor mortis já se instalou há muito tempo. Eu tenho uma opinião bastante diferente…é verdade que não vivemos momentos áureos como se viveu com o Rock Rendez Vous, nem a vermos o Rock Radioactivo de Mata-Ratos pelos top’s nacionais de vendas, mas reparamos que existem cada vez mais bandas com gravações de extrema qualidade, com bons músicos e que realmente gostam daquilo que fazem. O que se passa neste momento é uma renovação de gerações e como tal, isso leva a algum choque de ideias e mudança mesmo no tipo de música que se faz. O importante é que possamos reconhecer valor e empenho nesta nova geração que surge e que possam sentir o que realmente o Punk/Hardcore representa e isso fará toda a diferença.

VN: Consideram que a vossa exposição seria maior se fossem originários da zona de Setúbal, por exemplo?
XCN: Existem zonas em Portugal em que realmente existe uma maior visibilidade a nível musical, mas, para além das condições que uma banda possa ter, o importante é o valor desta, bem como o trabalho que é desenvolvido. Temos sorte que ao longo deste tempo fomos conseguindo contactos por todo o país e hoje podemos dizer que temos amigos, verdadeiros amigos, em cada canto de Portugal e que nos vão ajudando com a promoção do álbum, quer organizando um show ou fornecendo um local para dormir ou uma refeição. Se calhar somos pessoas do Porto, com um pouco de sorte.

VN: Dois pormenores que, quanto a mim, vos destacam da concorrência é abordagem mais melódica quer em termos vocais, quer instrumentais. É uma opção tomada conscientemente ou são situações que surgem de forma espontânea na hora de compor?
XCN: É importante que para além do aspecto da mensagem que as músicas passam e que fazem com que as pessoas se identifiquem com elas é que as pessoas gostem também daquilo que ouvem. Embora não fosse algo planeado no momento da concepção da banda, foi algo que surgiu naturalmente, pois muitas vezes demasiado ruído poderia fazer com que a letra fosse imperceptível e perdêssemos uma oportunidade de passar algo importante.

VN: Por falar em compor, como se processam as coisas neste âmbito dentro dos X-Cons?
XCN: Nem sempre as músicas surgem da mesma forma. Por vezes, temos um conceito e trabalhamos nele até atingirmos a música na sua totalidade. Outras vezes, alguém chega com um pseudo-riff à sala de ensaios e mostra ao resto da banda e depois todos andamos às voltas até concluirmos a música. O que se torna mais interessante ao longo deste processo, em que vamos evoluindo musicalmente, é que começamos a perceber a forma como cada um de nós vê a música e trabalha através dela e toda a composição se torna muito mais fácil.
A nível lírico experienciamos várias fórmulas, mas um facto curioso foi de na música Rockstars In The White House nos enviarem a letra pela internet e pedirem-nos para fazer a música…foi algo interessante e acho que fizemos os possíveis para corresponder às expectativas.

VN: E em termos líricos, para além da tradicional crítica social, há mais algum tópico que abordem?
XCN: Sem dúvida a crítica social e política são tópicos que abordamos nas nossas letras, através de diversos temas, pois achamos que acima de tudo a música deve ser uma chamada de atenção para o que acontece nos nossos dias. Claro que também temos algumas músicas mais auto-biográficas e também alguma de consciencialização ecológica. No entanto, não queremos que as nossas músicas sejam vistas como uma verdade absoluta, mas sim como um ponto de interrogação que faça as pessoas que as ouvem procurarem as respostas.

VN: Em termos de espectáculos as coisas estão a correr bem, certo?

XCN: Sem dúvida. Tanto a primeira parte da tour de promoção do álbum como a segunda que vamos iniciar agora em Setembro tem corrido bastante bem. Temos percorrido grande parte do país e recebido muito boa aceitação por parte de quem nos ouve e nos procura nos concertos. Claro que esperamos ainda muito mais, ter mais quilómetros de rodagem e podermos tocar sempre para cada vez mais gente, mas temos a percepção que uma banda tem o seu tempo para crescer e tudo se faz através de uma evolução lenta e sustentada e é sem dúvida esse o caminho que tentamos seguir.

VN: Para todos os interessados, onde se pode encontra o vosso CD à venda?
XCN: Nós aconselhamos, para quem pode, comprar o CD nos locais onde vamos actuar. É sempre melhor porque acaba por ser sempre mais barato e ainda tem a oportunidade de nos ver ao vivo, pois é aí que se conhece realmente o valor das bandas.
No entanto, podem encomendar tanto pelo nosso myspace (www.myspace.com/xconsmusic) ou da editora em Portugal (www.myspace.com/infectedrecordsdiy).

VN: Em termos futuro, já algo agendado ou previsto que possa, desde já, ser divulgado?
XCN: Agora em Setembro vamos entrar na segunda parte da tour e podemos já deixar alguns concertos:
Dia 12 de Setembro – Ponte de Sôr – Festival Arrão Rock
Dia 19 de Setembro – Lisboa (Music Box) – Com Strike Anywhere (EUA)
Dia 04 de Outubro – Sesimbra – Com Twisted Minds (França)
Dia 05 de Outubro – Lisboa – Com Twisted Minds (França)
Dia 11 de Outubro - ESPANHA
Dia 12 de Outubro – Coruña
Dia 18 de Outubro – Porto (Casa Viva)

Não podia deixar de terminar a entrevista sem agradecer a oportunidade que nos deram bem como felicitar todos os projectos que em Portugal, de uma ou de outra forma, apoiam a música nacional e investem na sua divulgação.

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