Entrevista com Forgotten Suns

Com um line-up quase todo renovado e numa nova editora, os lisboetas Forgotten Suns tiveram, finalmente, todo o tempo, capacidade, criatividade e envolvente técnica disponível para criarem e gravarem a sua sonoridade. Por isso, com o seu terceiro álbum prometem inergizar toda a gente. Via Nocturna conversou com o guitarrista Ricardo Falcão a respeito de Innergy.

Depois de Fiction Edge e Snooze, os Forgotten Suns são já um dos nomes mais importantes do panorama progressivo nacional. Agora que vem aí o vosso terceiro trabalho, que objectivos se propõe a atingir?
Basicamente temos dois objectivos: com este album pretendemos colocar o nível de qualidade da produção sonora ao mesmo nível da nossa capacidade criativa e de execução. Uma das grandes pechas do passado dos Forgotten prendeu-se com a fraca qualidade de produção sónica em estúdio devido às contingências do contexto adverso que atravessámos - essas dificuldades não nos deixaram transpor para os discos o nosso verdadeiro nível à epoca. Agora tudo é diferente porque criámos todas a condições para sermos independentes; desde o nosso novo estúdio, ao conhecimento técnico adquirido para gravar, editar, misturar, do nosso som individual que vai sofrendo upgrades constantes de forma a melhorar o colectivo, além de que musicalmente estamos sempre em permanente desafio e evolução (mental e técnica). O segundo objectivo é o de alcançar patamares mais elevados de reconhecimento artístico e isso é algo que já não controlamos de dentro para fora, mas estamos confiantes que este álbum será bastante apreciado, porque foi feito com uma forte intuição progressiva. Desta forma creio que muitas pessoas irão identificar-se com as sonoridades de Innergy.

O processo de gravação foi desusadamente longo. Algum motivo especial? Como decorreu todo esse processo?
O processo de gravação até foi extremamente rápido, o que nos tomou mais tempo foram as situações vividas com a dupla mudança de vocalistas no espaço de aproximadamente um ano...
Foi tudo muito curioso devido ao facto de que, já durante as gravações de baterias, baixo e guitarras ritmo (os primeiros instrumentos a serem gravados) termos tomado a decisão de trazer o Nio para o seio dos Forgotten. Foi muito importante a tomada de decisão firme que tivémos com os ex-membros, até nisso o nosso carácter foi de grande honra e de compromisso inabalável com os nossos objectivos – crescemos muito como grupo neste processo. Quanto à parte técnica de gravação foi muito interessante. Primeiro que tudo fizémos um trabalho de pré-produção muito bom, o que facilita imenso a fase seguinte- a gravação. Aqui aplicámos várias regras de layering, tratamento de frequências e panorâmicas em guitarras, teclados e vozes; o conhecimento e capacidade do Mike como engenheiro de som do album foi decisiva, dado que ele comandou a operação de produção, gravação, edição e mistura, tendo eu tomado mais conta das rédeas da produção, também nas misturas e conceitos líricos. Tivémos sempre em conta o triangulo (guitarra, bateria, baixo) como dominadores do som de Innergy intencionalmente porque queríamos destacar o pilar deste album que é o ritmo. Os solos em Innergy são todos on the spot quase tudo aos primeiros takes, o que quer dizer que ouve grande espontaneidade e libertação interior no processo de gravação. Trabalhámos com tecnologia bastante recente a nível de software e procurámos salientar o melhor de cada um de modo a obtermos o som que poderão escutar em Innergy.

Pelo meio, houve algumas mudanças de line up, certo? Os novos elementos trouxeram algum apport aos Forgotten Suns?
Sem dúvida. Se compararmos com o anterior album, Snooze, só eu (guitarras) e o Sam (bateria) é que permanecemos. O Mike (teclados) esteve 3 anos (2002-2005) ausente da banda por motivos pessoais tendo sido um convidado especial em Snooze gravando um solo e dois takes de piano na faixa Dream Killers e alguma produção. Mesmo não estando oficialmente no grupo ele esteve sempre próximo de nós. Com o Mike de volta, a excelencia nos acordes, o poder criativo dos sons de synth e os magnificos solos, são pérolas que embelezam grandemente o nosso som. O Nuno é um baixista de eleição. Muito experiente, muitíssimo bom gosto e um profundo estudioso do seu instrumento. Em Innergy fica provada toda a consistência do seu trabalho, se escutarem atentamente as músicas, toda a maturidade e todas as técnicas de baixo estão explanadas de forma a contribuirem para o todo musical. Os seus bass slaps em News e riffs em Mind Over Matter também foram on the spot. O Nio será sempre o alvo maior das atenções deste novo álbum... Enquanto que o ex-vocalista Linx era um songwriter e letrista com grandes influências do progressivo mais clássico (Genesis e Marillion) e também pop/rock, Nio é um autêntico camaleão vocal com um timbre muito rico, com sentido estético vocal mais inclinado para os anos 90 e vocalmente mais poderoso. Nio é um barítono com uma grande elasticidade vocal, excelente interpretação e teve uma grande capacidade de adaptação ao nosso grupo; vejo muitas vezes a nossa música como um conjunto de combinações de cores e a voz dele é como se tívessemos vários gradientes à disposição conforme sejam as imagens e conceitos que estamos a desenvolver nas musicas. A voz é algo com o qual a grande maioria das pessoas se identifica imediatamente, creio que a banda é ainda mais transcendente com a qualidade que ele colocou as vozes em Innergy, isso sem dúvida ajudou a elevar o potencial do álbum. De realçar que as personalidades de todos os membros são bastante diferentes, mas estamos em perfeita sintonia musical e pessoal uns com os outros, é esse estado de espirito e união que envolve de forma especial os temas e transparece eficazmente em Innergy.

Confessaram, há já algum tempo a Via Nocturna, que o vosso rumo estaria a cruzar caminhos mais metálicos. Isso vem a confirmar-se em Innergy?
Desde sempre quisémos que os Forgotten Suns fossem uma banda com mais peso do que transparece em Fiction Edge e Snooze mas, como disse anteriormente, os meios de produção não salientaram essa nuance entre outras coisas. Creio que maior parte das vezes há uma entendimento errado quando se fala em mais pesado. Na minha opinião isso não quer dizer que vamos ser uma banda de heavy metal puro, nós temos raízes musicais de bandas extremamente melódicas, com grandes produções, e sintetizadores e esse lado estará sempre presente no nosso som porque faz parte do nosso DNA musical. As minhas referências mais pesadas e as do Sam combinadas resultam nos riff que podemos ouvir em Racing the Hours ou Doppelgänger, mas no geral creio que todo o peso extra que hoje conseguimos alcançar é um trabalho conjunto de todos os elementos. Desde a chegada conjunta do Nuno e do Mike que pré-definimos novos parâmetros para a banda e o termos um som mais moderno e mais progressivo era uma componente essencial. Não nos identificamos muito com as bandas paradas no tempo, que repetem discos atrás de discos e que não se conseguem re-inventar. No entanto gostamos muito do uso de material analógico antigo a contrastar com sonoridades modernas como temos a exemplo o uso do Moog Modular na secção final do tema An Outer Body Experience. Se virmos os Forgotten desta perspectiva é como se com Innergy tivéssemos alargado a amplitude da nossa música...imaginemos um extremo zero nas calmas passagens de Routine ou Arrival em Fiction Edge e o outro extremo no final de Racing the Hours em Innergy. No fundo, o interessante no som de Forgotten Suns é que é muito vasto e nunca sabemos como irá ser a próxima música ou próximo álbum...

Já agora porque Innergy?
Innergy é a justaposição de inner (interior) e energy (energia). No fundo este álbum vem da nossa irreverência interior e todos os temas contém de algum modo a energia criativa especial que nós tão bem conhecemos. É também a forma textual sintetizada que melhor expressa a luta constante que temos tido para alcançarmos os nossos objectivos musicais ao longo dos anos...é preciso muita innergy para chegarmos até ao ponto que nos encontramos agora.

O álbum vai ser editado pela Prog Rock Records, que já conta na sua lista com os projectos de Hugo Flores. Como chegaram a esse acordo com essa editora?
A ProgRock Records era uma das editoras interessadas no lançamento de Innergy. Fez-nos uma proposta bastante interessante e gostámos da abordagem e do empenho do Shawn Gordon em assinarmos com a label. Creio que o importante foi ele acreditar na nossa capacidade musical actual e da que para a frente se irá ainda revelar. Para nós também importante foram os conselhos de pessoas como Eric Corbin (ex-Inside Out Music) que nos aconselharam vivamente a PR Records como uma excelente opção devido ao seu presidente empreendedor e à magnifica rede de distribuição e promoção.

Já tive oportunidade de espreitar o artwork que está sensacional. Parabéns. Quem foi o responsável e qual o seu significado?
O artwork foi criado pelo conhecido artista alemão Thomas Ewerhard, que já trabalhou com alguns nomes sonantes do nosso género musical em trabalhos que certamente reconhecerão – James Labrie (Elements of Persuasion), Threshold (Hypothetycal), Jorn (The Gathering), Masterplan (Aeronautics), Vanden Plas (Christ O), entre outros. Podem ficar a conhecer melhor o trabalho do Thomas em
http://www.ewerhard.de/. O significado do capa é a representação da nossa Innergy, o logo é um anel de grifos. Os grifos são considerados na mitologia como criaturas majestosas, que guardavam tesouros, e protegiam o poder divino (no nosso caso associamo-lo à força criativa).

Já não falta muito para termos a obra a circular no mercado. Suponho que a respectiva acção promocional em estrada já esteja delineada. O que nos podem adiantar?
Esse é um trabalho da editora, apenas esperamos que as pessoas gostem de Innergy com o mesmo nível de prazer que nós tivémos quando em estúdio, nada mais posso adiantar por agora...

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