Entrevista com CineMuerte

Editado em finais de 2008, Aurora Core dos CineMuerte só no inicio de 2009 chegou à mesa de trabalho de Via Nocturna e, por via disso, não entrou na nossa contabilidade anual, mesmo tratando-se, claramente, de um dos melhores registos nacionais não só do último ano, como de sempre. A simpática vocalista Sophia Vieira respondeu às nossas questões e apresentou, de forma, muito poética, a sua família.

Que evolução sentiram de Born From Ashes para Aurora Core?
Aurora Core marcou uma certa viragem em termos de conceito ao redor do qual gira todo o disco. Tem uma magia muito peculiar. O Born From Ashes foi um disco mais on your face. E a escolha do produtor pinta este quadro de tons bens distintos.

Explica-nos como funciona a construção/interpretação dos temas nos Cinemuerte: intervêm vocês dois e só depois é que chamam alguém para a interpretação ou é de outra forma?
Os temas nascem de um trecho... algo que vai servir para desenvolver o tema até à sua conclusão e nossa realização pessoal. É uma semente que se planta e os músicos que somos nós, tratamos de proporcionar o melhor para que a semente dê fruto. Compomos os dois: tanto o João como eu, dedicamo-nos a todo e qualquer pormenor, instrumentalização no seu todo, processo criativo a nível da melodia e todos os arranjos.

Mas sendo apenas dois, não se sentem limitados? Nunca viram necessidade de aumentar o colectivo?
A família CineMuerte cresceu. Tal evolução não se deveu ao facto de nos sentirmos ou não limitados. Os CineMuerte são agora, para além do João e eu, o Sérgio Lopo na bateria, o Tiago Menaia e o Fred Gonçalves, nas guitarras. O Tiago Menaia acompanha-nos desde o princípio, desde o primeiro álbum. O Sérgio pertence à família Raging Planet uma vez que pertenceu aos FEVER. Já o conhecíamos há largos anos. E ele contactou-nos, após um período de interregno, e queria voltar a tocar, e tocar connosco. Foi tudo muito natural. O Tiago já nos falava do Fred há algum tempo. E deixámos que esta recriação de CineMuerte se pintasse nas nossas vidas de forma natural.

Em alguns momentos, sinto uma aproximação aos The Gathering. É uma das vossas influências?
A aproximação aos The Gathering poder-se-á colocar talvez ao nível vocal... não sei se estamos certos ou errados? Mas a questão que colocas nasceu há anos: muitos comparavam a minha voz com a da Anneke quando eu ainda pertencia ao nosso projecto anterior, os NUA.

Porque escolheram o Pedro Cardoso e o Ricardo Amorim para tocarem no vosso álbum?
O porquê dos porquês:) Bem se há coisa que estava decidida antes de arrancarmos com a gravação, era que a bateria seria gravada sem recorrer a programações. O Sérgio Lopo ainda não se tinha cruzado connosco. Acompanhávamos há já algum tempo o trabalho do Pedro nos FEVER e convidámo-lo. Ele é sem dúvida um dos melhores bateristas que conhecemos. Tanto a nível técnico como criativo. Foi a escolha certa para este disco. Estranhamente, acabámos por gravar este disco com o actual baterista de FEVER, enquanto que contamos actualmente na nossa formação, com o ex-baterista da mesma banda. Weirdow no mínimo. Quanto ao Ricardo , a ideia de o convidarmos, surgiu muito antes de concluirmos o disco em termos de composição. Uma vez que tenho acompanhado os Moonspell em alguns concertos ao vivo, o Ricardo tinha-se atravessado nas nossas vidas e por conseguinte nesta caminhada. Um disco não é mais do que uma busca, de que a descoberta de um novo mundo, uma encruzilhada de acontecimentos, situações. O Ricardo era sem dúvida o músico que este disco merecia ter. O Ricardo presenteou-nos com a sua dedicação e ímpar talento.

De que forma é que a vossa experiência acumulada ao vivo se reflecte em Aurora Core?
A experiência ao vivo que temos acumulado permite-nos ter a consciência que a nossa dedicação perante o público exige autenticidade e uma entrega total. Tocámos para públicos fantásticos tais os dos concertos de My Chemical Romance e HIM, e essas pessoas que tanto nos apoiaram incutiram em nós um novo sentido nas nossas vidas enquanto banda. Queremos fazer o melhor para quem nos ouve. Para quem nos dá a oportunidade de vivermos. Eles merecem o melhor. E confesso que saí do palco dos referidos concertos com esse pensamento pintado nos lábios da minha mente: o Melhor para os Melhores.

Como chegaram a Waldemar Sorychta para a mistura e masterização do álbum?
O Waldemar foi uma das hipóteses apontadas e acabou por ser a escolha mais natural dada a sonoridade e atmosfera que queríamos para o Aurora Core. Foi uma aposta completamente ganha já que ele conseguiu incutir toda aquela força e atmosfera que os temas exigiam, transportando-os para um patamar superior.

Falem-me das vossa experiências nos tributos. Já participaram em três: The Cure, The Misfits e Mão Morta.
Todas estas participações surgiram de convites. As versões são por nós encaradas sempre como desafios interessantes. As bandas em si pertencem ao nosso imaginário. Em breve, sairá outro tema, desta vez, saídinho da casa dos 80’s. E desta vez retratado pela nova formação cinemuertiana: trata-se de um tema da Kim Wilde- Kids in America a integrar uma compilação que é um tributo à era dos 80’s. Contamos que saia ainda este ano. Adorámos recriar este tema.

A Sophia está nas Crystal Mountain Singers. Como surgiu a ideia de formar esse coro e como está a sua actividade após a participação em Night Eternal?
As CMS surgem aquando da a gravação do álbum Night Eternal dos Moonspell. A ideia partiu da banda. Nós, as CMS, temos acompanhado a banda ao vivo. Tem sido uma experiência incrível até porque o disco completa-nos. O coro foi muito bem pensado, porque reúne vozes, timbres distintos que formam uma sinergia incrível.

Como está a ser a reacção dos fãs e da imprensa a este vosso novo trabalho?
Confesso que a palavra fãs não me agrada e penso que é uma opinião partilhada pela banda-cria um certo distanciamento que não se coaduna com a postura da banda nem com a dos seus elementos. Penso que a nossa família tem vivido este novo capítulo num sentido de união muito vincado. Acompanham-nos nos concertos. Alguns até vão aos Açores connosco ao Summer Live Fest. Esta nossa família espalha a palavra. Apoiam-nos e sobretudo... a palavra mágica: acreditam... acreditam. Quanto aos media, este disco bateu recordes de audiência como nunca outra banda da nossa editora alguma vez bateu. Temos conquistado as playlists de rádios selectivas cujos portões são geralmente de difícil entrada.

Em termos de concertos, como se está a desenvolver a promoção do álbum?
Numa primeira fase, iniciámo-nos com uma apresentação em formato acústico pelas FNAC's que correu muito bem. Os temas tratados para acústico acabaram por realçar o disco melodicamente. Fizémos questão de não nos ficarmos por um acústico com um tratamento de música de praia! Esforçámo-nos para apresentar um acústico com toda a essência mágica dos CineMuerte. Quanto a concertos marcados para o futuro próximo, neste momento, temos concertos agendados um pouco por todo o país. No dia 6 de Junho, subimos ao palco do Incrível Almadense para nos juntarmos aos Ramp e aos More Than A Thousand. Dia 13 de Junho, seguimos para a ilha de São Miguel nos Açores: esse concerto reúne CineMuerte com Paradise Lost e Morbid Death. Dia 4 de Julho, o galo de Barcelos vai cantar! Os CineMuerte serão cabeça de cartaz do Festival Cellos Rock. Estão mais algumas datas por confirmar. Até porque o ano ainda nem vai a meio. E o mundo pode, amanhã, acabar.

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