Entrevista com Assassinner

Do Porto chega-nos mais um colectivo que se estreou em nome individual em 2008. A qualidade do seu som chegou à Poison Tree Records que agora disponibiliza o trabalho Other Theories Of Crime em formato digital para todo o mundo. Estas são, por isso, razões mais que suficientes para irmos conhecer melhor os Assassinner pela voz do seu guitarrista e vocalista Ary Elias da Costa.
Ao consultar o vosso myspace nota-se uma ponte entre os Assassinner de hoje e os Crackdown da década de 90. Pode-se considerar os Assassinner como uma nova reencarnação dos Crackdown?
Não será exactamente uma nova reencarnação, dado que apenas metade dos elementos que fizeram parte dos Crackdown são agora o power trio que dá pelo nome ASSASSINNER. Não renegando os pontos de confluência entre os dois projectos, há que vincar que muito tempo passou, quase uma década. E durante esse período, naturalmente que crescemos como pessoas, consolidamos, ainda mais, a nossa personalidade e objectivos. Musicalmente os nossos horizontes e estilo não só se alargaram como também se tornaram mais evidenciados. Não obstante os ASSASSINNER terem uma identidade própria e distinta, penso que estaremos mais próximos daquilo que fizemos em Crackdown que em Str@in.


Other Theories Of Crime teve edição física em 2008 e agora foi editado digitalmente pela vossa Editora, a Poison Tree Records. Há alguma alteração entre a nova e anterior edição?
Ambas as edições disponibilizam os 3 temas gravados. As alterações prendem-se com o facto de, através da Poison Tree Records ser possível adquirir os temas individualmente. No que concerne à edição física, urge acentuar que a mesma é disponibilizada gratuitamente pela banda, conta com um layout apelativo e contém, para além da parte áudio, o nosso promo-pack, que inclui logo, biografia em português e inglês e, ainda, fotos promocionais.

A edição a que Via Nocturna teve acesso (a física) apresenta apenas três temas. São eles o espelho fiel da sonoridade Assassinner?
São o espelho da sonoridade dos ASSASSINNER em Setembro/Outubro de 2008, data em que os gravamos. À medida que o tempo passa, vamo-nos sentindo cada vez mais confortáveis neste projecto em que somos apenas 3 e acumulamos mais que uma função. Note-se que o Xene já não se encarregava das vozes há cerca de 15 anos e eu nunca o tinha feito anteriormente
. Temos tocado novos temas ao vivo e as pessoas são unânimes ao considerá-los mais consistentes e inovadores.

De que forma é que chegaram à Poison Tree Records?
A Poison Tree ouviu os temas disponibilizados no myspace, gostou do nosso trabalho e fez uma primeira abordagem no sentido de aferir o nosso interesse e disponibilidade quanto à outorga de um contrato de edição e distribuição digital mundial dos temas. Após negociação e análise dos termos contratuais, a efectivação do vínculo com a editora Californiana, que alberga no seu catálogo nomes como o ex-Queens of Stone Age Nick Oliveri e os seus Mondo Generator, Fu Manchu, Dwarves, entre outros, afigurou-se-nos como o trampolim ideal à divulgação do nosso trabalho além fronteiras.

No que diz respeito ao EP, a ideia que fica é um grande trabalho de composição e execução. Torna-se difícil considerando que os Assassinner são apenas um trio?
O facto de nos conhecermos há muito tempo e existir uma química muito grande entre os 3 facilitou muito as coisas. Agora não podemos negar que o acumular de funções que referimos anteriormente e o facto de termos apenas uma guitarra se consubstanciou num desafio aliciante não só quanto à composição, mas também no que concerne às actuações ao vivo. Tivemos que fazer mais com menos, mas o resultado foi deveras gratificante, tendo recompensado todo o esforço. A partilha das vocalizações e linhas de baixo autonomizadas das de guitarra, assumindo um papel mais preponderante que o habitual neste tipo de sonoridades, tornaram-se uma mais-valia e dotaram o nosso som de um cunho muito pessoal e distintivo.

As vossas influências cruzam o thrash com o hardcore mas conseguem manter-se afastados dos clichés do metalcore e outras coisas do género. De que forma é conseguem essa individualidade?
Talvez porque nenhum de nós ouve Metalcore [risos]. A nossa playlist não se resume ao Metal ou Hard Core. Ouvimos de tudo um pouco e isso acaba por influenciar o nosso trabalho. Apenas referimos esses dois estilos porque as pessoas gostam de catalogar as bandas e estes são aqueles com os quais sentimos mais afinidades. Mas, sublinhe-se, não nos resumimos a eles. Acresce que, mais do que com sub-géneros de música pesada, identificamo-nos com bandas e atitudes. E nesse aspecto continuamos a seguir e a valorar os clássicos, que inovaram e conseguiram manter uma sonoridade e identidade próprias. Aliás, actualmente poucas são os novos projectos que nos despertam interesse. Talvez por, não raras vezes, enveredarem pelo caminho fácil do seguidismo e cópia barata dos precursores do estilo que está em alta nesse mês.

Um dos vossos pontos fortes são as prestações ao vivo. Podes descrever, sinteticamente, que adjectivos caracterizam a vossa postura em palco?
ASSASSINNER
é o projecto que nos define, o som que gostamos e queremos fazer. E quando tocamos ao vivo essa paixão transparece para o público e contagia-o. A entrega total e a prestação em palco de todos os elementos também contribuem para propagação do caos na plateia. Outro factor que considero ser basilar do sucesso dos nossos concertos prende-se com o facto de sermos um power trio, que se apresenta em palco com uma disposição triangular, que difere das outras bandas e privilegia o espectáculo. Mais, a diversidade musical espelhada na individualidade de cada um dos nossos temas determina, invariavelmente, uma actuação com vários pontos altos e de interesse, nunca caindo na vil monotonia sonora e/ou rítmica, que satura o ouvinte ou espectador. Tocamos temas rápidos e agressivos que privilegiam o mosh, que intercalamos com outros com mais groove e balanço que incentivam ao headbanging e é essa variedade que impele as pessoas a entrar e permanecer no nosso jogo, sem qualquer risco de saturação.

Em termos líricos, qual (ou quais) os conceitos abordados em Other Theories Of Crime?
O conceito que esteve na sua génese foi o de retratar duas faces da mesma moeda. No caso concreto o reflectir sobre duas conotações diferentes da mesma realidade, a sociopolítica e a religiosa, espelhadas no próprio nome ASSASSINNER, que interliga ambas: Assassin (Assassino) e Sinner (Pecador). O rebater de toda uma estrutura de valores assente em grande parte na moral cristã, afogada nas suas contradições e decadências, cuja estrutura pode oprimir o Homem em todas as suas dimensões, gerando, forçosamente, violência. Este foi o ponto de inspiração e partida, mas ced
o extravasamos esses limites (parece que barreiras estanques não são connosco [risos]) e começamos a abordar estes e outros assuntos de uma forma mais pessoal. Acima de tudo o que fizemos e continuamos a fazer é exprimir o que sentimos através da música que compomos e letras que escrevemos, expurgando os nossos demónios pessoais e aniquilando os nossos ódios de estimação.

Em termos de futuro, que projectos têm em mente para os próximos tempos?
Estamos a ultimar a promoção da Other Theories of Crime, que foi apresentada há precisamente um ano atrás. As actuações ao vivo serão reduzidas e mais criteriosas, de forma a concentrar as nossas energias na composição de novos temas a integrarem o nosso primeiro álbum. Se tudo correr como planeado, a sua gravação terá lugar no primeiro semestre de 2010.

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