Entrevista com Factory Of Dreams

Até que ponto, A Strange Utopia, é utópico ou caracteriza a utopia do seu criador?
Hugo Flores (HF)
: Diria que caracteriza mais a minha utopia, ou pelo menos Mundos Utópicos, e o mais estranho é que por vezes não são apenas Utopias positivas mas por vezes algo de bizarro que despertam em mim uma enorme curiosidade. Como exemplo disso, a capa do álbum mostra um jardim gigante com as 4 estações e no meio talvez uma 5ª estação, interpretada pela Jessica, que agrega tudo, como se fosse um ser que une todas as facetas e emoções inerentes a esta Utopia. São Mundos impossíveis, pelo menos no que toca ao conhecimento humano, e como é território desconhecido agrada-me. Sonic Sensations e Slow Motion World, são faixas que representam até certo ponto a minha utopia, pois falam de um Mundo feito de música e sons e um mundo onde podemos ver tudo em câmara lenta, apreciando tudo com detalhe. Não me parece no entanto que seja um álbum Utópico; talvez seja utópico na sua complexidade e diferentes géneros musicais que aborda e que tenta juntar. Mas pensando bem, come esse intuito existe outro mais Utópico que é o Dawn On Pyther, do meu Project Creation. Esse álbum incorpora até elementos folk que não existem, pelo menos em grande número, em Factory Of Dreams. São projectos distintos.

Que pontos de contacto e/ou afastamento consegues encontrar entre A Strange Utopia e Poles?
HF:
Existem muitas diferenças entre os dois álbuns, apesar de se perceber que este álbum é uma continuação do primeiro e é, efectivamente, o som de Factory. A principal diferença reside no facto de Poles ser naturalmente simples. Simples na minha perspectiva, pois quem o ouve acha-o complexo, pelo menos para quem não está dentro do mundo do progressivo. A Strange Utopia é, a meu ver, mais complexo, mais longo e diversificado, conta com músicos convidados… Para além deste sentido mais épico, em detrimento de um Poles mais intimista e atmosférico, este novo álbum também se assume como mais sinfónico, mas metal-driven e mais arrojado que Poles. A Strange Utopia deu-me muito gozo a criar, exactamente por pegar em Poles, e dar-lhe um toque a Project Creation. Os fãs de Factory têm uma mente aberta a novas experiências musicais, e certamente vão gostar do novo álbum!

Em termos de composição, como decorreu o processo desta vez?
HF:
Foi mais exigente nas partes vocais e na secção rítmica, tanto na ligação entre o baixo e a bateria, bem como na interacção com as guitarras ritmo. Enquanto que Poles flui atmosfericamente com pads muito fortes, este A Strange Utopia aposta mais na batida forte acentuada pelo baixo e guitarra. Exemplo disso é a Inner Station, uma das minhas faixas favoritas, que para o final tem secções que não me canso de ouvir. De resto o processo não variou muito, fui criando as músicas, adicionando os instrumentos e mais partes conforme necessário, e quando já tinha as faixas bastante coesas, foi começar a enviar tudo para a Jessica e as outras vocalistas convidadas. As letras surgiram no seguimento das músicas, em poucos casos foram as letras a ditar a estrutura da música. Todas giraram à volta destes estranhos Mundos. Algumas faixas foram feitas à medida da voz da Jessica, como a Sonic Sensations, mas a maioria foi independentemente do estilo vocal, tendo a Jessica que se adaptar o melhor possível à composição instrumental o que fez de forma brilhante.

E em termos temáticos, volta a ser um álbum conceptual. Podes descrever-nos o conceito subjacente a A Strange Utopia?
HF:
Não será tão conceptual como Poles ou como o meu Project Creation, mas como em quase tudo o que faço, existe de facto um tema fulcral e que serve de base a tudo, que foi exactamente delinear um Universo estranho, deliberadamente misterioso, com mundos bizarros para o Bem ou para o Mal, não esquecendo o lado mais terra-a-terra, como em Sonic Sensations e Slow Motion World, onde se celebra a música, as sensações sónicas, o apreciar da vida com maior lentidão, mais sabor. O álbum mostra igualmente um lado mais obscuro, como a faixa Dark Utopia, em que tudo se desmorona. É um mundo de tal forma escuro, utopicamente escuro, que o mal acaba por se tornar normal e acabamos por o aceitar.
No capítulo instrumental, parece-me que acentuaste a componente sinfónica. Era esse o teu objectivo à partida?
HF:
Sem dúvida. E acentuei mais a componente metal também, em contrapartida aos synths atmosféricos, que existem certamente, mas em menos quantidade que o nosso primeiro álbum. Tens elementos à la Poles, como na Slow Motion World, Road Around Saturn e Sonic Sensations. É de facto mais sinfónico, mais prog, tem violinos, tem orquestra e depois tem performances muito bem esgalhadas do Shawn, do Tadashi e do David Radagsle, que gravou um violino exemplar e que contribui em muito para o sucesso do álbum a meu ver.

Apesar de o press-release não indicar nenhum baterista, existe esse elemento dentro nos F.o.D. ou também és tu o responsável?
HF:
Sim! Sou eu o responsável. A bateria foi cuidadosamente tocada e programada, com recurso a performances pré-gravadas, daí não ser fácil distinguir se se trata de bateria tocada integralmente por um baterista ou em parte samplada. Acaba por ser o que o Devin Townsend tem usado em alguns álbuns, nomeadamente no seu Ziltoid.

E em termos de violino, quem colabora contigo?
HF: É o David Ragdsdale. Temos dois tipos de violinos: temos o solo violin, usado para os grandes solos que aparecem na Inner Station e na Slow Motion World, e esse violino foi gravado e escrito pelo David Ragdsdale da banda Kansas. É daquelas performances que fazem toda a diferença. Quero dizer, eu ouço a Slow Motion World pela melodia, e ouço ainda mais pelo facto de lá estar a performance do Rags. Depois temos os violinos de orquestra, esses estão a meu cargo e contribuem para o sentido mais épico/grandioso de alguns dos temas.

Provavelmente ainda é cedo, mas já tens algum feed-back a este novo lançamento?
HF:
Em termos de vendas não tenho ainda qualquer informação. Mas os fãs de F.o. D gostam, os novos fãs também, por isso não haverá razão para não se vender. Em termos de crítica, esta divide-se: há os que adoram o álbum e os que o acham estranho ao início, pois esperam algo de imediato, algo de mainstream. Eu não vou nessas e faço o que me dá na real gana. Mas a verdade é que à medida que vão ouvindo percebem que é algo de novo e arrojado e isso para mim é a melhor critica que se pode fazer.



Para este A Strange Utopia qual foi o teu input ao nível criativo?
JL:
Tal como em Poles, tentei fazer os arranjos vocais que captassem a atmosfera de cada tema, mas desta vez tive mais oportunidades para o fazer.

De qualquer das formas, o teu entrosamento com o Hugo deve ser melhor. Como decorreu a interacção com ele na preparação deste disco?
JL:
Nós contactamo-nos quase diariamente e não somos só parceiros musicais, somos também bons amigos. Portanto a interacção foi muito boa. À medida que se vai conhecendo a outra pessoa, aprende-se a trabalhar da melhor forma com ela.

Entretanto, para além de Factory Of Dreams, também participaste, no ano passado, no projecto de Beto Vazquez Infinity. É fácil para ti gerir uma carreira que se desenvolve em locais físicos tão distantes como Suécia, Portugal e Argentina?
JL: É fácil quando se gosta de música. Se eu não gostasse tanto disto, provavelmente seria difícil a partir do momento em que tenho que me focar em todos estes projectos e também nos estudos e noutras coisas, naturalmente e, de alguma forma, acabo por não me aperceber de todo o tempo que estes projectos me ocupam quanto estou tão envolvida neles.

Com tanto trabalho, como está o teu projecto particular?
JL:
Ultimamente, tenho tido menos tempo disponível para gravar as minhas próprias coisas. No entanto, tenho material para mais duas demos de Once There Was e uma delas está em progresso. Ainda é necessário gravar algumas vozes, fazer a mistura e masterização e depois sera lançado. Portanto, o projecto está e continuará vivo!

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