terça-feira, 13 de julho de 2010

Entrevista com Innerthoughts

Nascidos da mente e criatividade de Adilio Sousa, os Innerthoughts, são como o seu próprio nome deixa transparecer: a transposição de ideias e sentimentos íntimos para a música. O músico apresenta em Before, o EP para já apenas disponível em formato digital, o seu lado mais introspectivo e contemplativo. Mesmo mantendo o seu lado intimista de tal forma que não há fotografias, o músico acedeu ao nosso pedido e, simpaticamente, falou-nos de si, do disco, dos Innerthoughts e dos amigos.

Porque um projecto em solitário?
Olha… de certo modo foi acontecendo. Há já algum tempo que estou inserido em projectos musicais que me têm dado conhecimentos suficientes para a idealização, construção, concretização e, acima de tudo, transformação de bases melódicas e harmónicas em canções. Durante algum tempo sondei algumas pessoas para iniciar um novo projecto, neste caso Innerthoughts, mas havia sempre complicações de tempo e uma certa falta de empatia para com o conceito Innerthoughts. No entanto, neste percurso também fui conhecendo pessoas que me incentivaram e me disseram para avançar sozinho. Foi o que fiz quando surgiu a oportunidade.

Este EP mostra-nos um som muito intimista. Representa o Adilio Sousa na intimidade ou nem por isso?
Compreendo a tua pergunta e faz todo o sentido para quem conhecer realmente o projecto, mas é necessário contextualizar e o nome do EP, Before, serve para isso mesmo, sendo que este trabalho representa um pouco da minha história emocional e pessoal. Uma espécie de biografia. As letras são pedaços de acontecimentos e a forma como os interpretei, fruto do meu reflexo psíquico. Eu digo isto porque uma pessoa que tenha passado por situações similares poderá não fazer a mesma interpretação ou leitura emocional que eu. É necessário fazer esta ressalva porque não pretendo que as pessoas se identifiquem ou se reconheçam nas letras e músicas. O meu objectivo é dar um pouco de mim e fazer com que as pessoas consigam ser empáticas numa perspectiva de compreender e identificar os sentimentos que se pretendem transmitir, enquadrados “numa qualquer história de vida”. O que as pessoas poderão, eventualmente, fazer é tentar perceber quando, onde e como apareceram esses mesmos sentimentos na sua história de vida.

Acabas por gravar tudo sozinho com a colaboração, segundo o press-release, de alguns amigos. Quem foram e qual o seu papel?
Sim, esses amigos tiveram um papel fundamental na transformação de um conceito intra-psicológico para um conceito que começa a funcionar a um nível inter-psicológico. Ou seja, ajudaram-me a transformar Innerthoughts num significado/conceito socialmente partilhado, algo sobre o qual as pessoas possam falar, argumentar, compreender, discordar, etc. Estes amigos foram o Renato Duarte que me convidou, em Agosto de 2009, para passar um fim-de-semana em casa dele e experimentar o material de gravação que ele adquiriu. Foi ele me ajudou com as captações. Um outro amigo que participou neste projecto foi o Duarte Feliciano que me ajudou na mistura, masterização e produção, partilhando para tal o Isoundstudios. E, olhando um pouco para a primeira pergunta que me fizeste, Innerthoughts, na sua concretização, acaba por não ser um projecto solitário. Sem estes dois amigos este EP não teria acontecido.

Segundo consta, este trabalho foi gravado em apenas um fim-de-semana e nas condições mais básicas. Podes descrever-nos o processo?
Bem… foi um processo engraçado mas cansativo também. O ritmo de trabalho foi bastante elevado. Quando comecei a gravar só tinha as letras (a letra da Voices And Sounds foi construída nesse fim-de-semana) e a parte da viola acústica prontas. O baixo já tinha algumas linhas mas ainda não estava propriamente pronto. A ideia da bateria, por exemplo, só surgiu no domingo, não numa perspectiva de instrumento mas sim enquanto elemento sonoro. Pedi emprestado uns shakes, um glockenspiel e, entretanto, o Renato tinha umas guitarras eléctricas e uma bateria que nesta altura deve ter para aí uns 20 anos [risos], não tínhamos DI´s e outros apetrechos essenciais num estúdio de gravação. Gravei a base, vozes e viola, e depois fui introduzindo elementos. Gravamos a maioria dos instrumentos na sala de estar e a voz num dos quartos. As pistas foram gravadas em takes completos, sem corta e cola… condicionantes técnicas mais uma vez [risos]. Não havia qualquer trabalho de insonorização no espaço de gravação, pelo que de vez em quando ouvia-se cães a ladrar, pássaros a cantar e vizinhos a falar… entretanto decidi que alguns destes imprevistos ficariam no trabalho final, porque de certo modo fazem parte do contexto de gravação. O espaço onde gravámos é muito interessante e com uma óptima acústica (aconselho vivamente o espaço para gravações mais alternativas e que procurem a diferença), mas os nossos conhecimentos técnicos, mais da minha parte, eram um pouco básicos. No entanto, mesmo com estas limitações, penso que o resultado final é extremamente satisfatório e, acima de tudo, bastante orgânico e genuíno porque as pessoas, dentro das suas possibilidades, deram tudo o que podiam dar. Não há grandes artefactos por detrás de Innerthoughts.

Foi este projecto pensado também para ser executado ao vivo? Se sim, como procederás em termos de músicos acompanhantes?
Sinceramente este projecto não foi pensado para ser tocado ao vivo, mas alguns amigos já se propuseram a acompanhar-me caso decida avançar. E neste momento é uma forte possibilidade. No entanto, é algo que tem que ser bem pensado. Para tocar o EP tal e qual como foi gravado seriam precisas, no mínimo 5 pessoas, o que em termos logísticos e financeiros se torna inviável. Nestes próximos tempos vou tentar adaptar e arranjar as músicas para um formato de trio talvez… mas não sei. Como já disse é algo para pensar com calma.

E que próximos passos já estão pensados na vida de Innerthoughts?
O próximo passo de Innerthoughts é, acima de tudo, fazer chegar este EP ao maior número de pessoas possível. O EP está disponível em formato digital e vamos começar a preparar o formato físico. Neste processo o trabalho da Cogwheel Records, na pessoa de Duarte Feliciano, tem sido fundamental pela criatividade, aconselhamento e dedicação com que se tem devotado ao projecto. A existência de Innerthoughts para além de um conceito, como já disse em cima, deve-se ao facto de a Cogwheel acreditar na viabilidade do mesmo. Entretanto, como há a possibilidade de ir avante com a apresentação do projecto ao vivo estou a trabalhar em novas músicas e já tenho algumas ideias, mas ainda estão em fase embrionária. Mas aqui a questão também depende da receptividade do EP nos meios de comunicação, divulgação e público em geral. Não adianta avançar para algo se não houver alguma expectativa e interesse por parte das pessoas em relação ao projecto, porque o que eu queria fazer está feito, transformar o conceito Innerthoughts em algo real. Em termos de trabalho de estúdio penso dar continuidade, no entanto, não há prazos. Digamos que há uma vida para viver e significados para construir.

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