quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Entrevista com Murdering Tripping Blues

A Raging Planet é um daqueles selos que já nos habitou a apresentar trabalhos sempre acima da média, onde a criatividade é sempre marca presente. A nova proposta surge sob a denominação de Murdering Tripping Blues, um trio lisboeta que em Share The Fire cria a sua terceira obra artística. Porque com este colectivo, mais do que falar de música devemos falar de arte. Henry Leone Johnson, vocalista e guitarrista, explica-nos porque e fala-nos do crescimento que o trio tem demonstrado.

Em primeiro lugar, falem-nos um pouco dos Murdering Tripping Blues.
Os MTBlues surgiram de uma pequena maquete gravada em casa com o meu amigo Nuno Nunes por volta de 2004\2005. A mesma ficou a marinar no disco rígido do meu PC enquanto vagueava pelas ruas de Roma durante um ano. Quando voltei queria pegar nesse trabalho e avançar com ele. Conheci o Johnny Dynamite e começamos a tocar inicialmente apenas como um duo (guitarra\voz e bateria). Aquando do nosso primeiro concerto, convidámos a Mallory para fazer umas projecções, visto irmos tocar no espaço de um teatro e querermos tirar partido do mesmo. A experiência correu muito bem e convidámo-la para integrar o grupo como VJ e pouco mais tarde lançamos-lhe o desafio de tocar teclados. Aceitou e gravámos o Knocking at the Backdoor Music em 2008, tendo em 2007 lançado o 7” Blah Blah BANG!!! como duo. A partir daí fomo-nos espalhando por Portugal, fazendo também visitas ao país vizinho e começámos a trabalhar no segundo álbum Share The Fire.

Qual o significado de Murdering Tripping Blues?
Queríamos que o nome fosse, só por si, uma definição do som da banda. Quando nos perguntam que tipo de som que fazemos, a resposta é: Murdering Tripping Blues. O Murdering surge como um sinónimo de impulsividade, paixão, de algo primordial. Não tem para nós o significado de matar nem de algo que seja fisicamente violento, significa apenas a violência dos sentidos e sentimentos. O Tripping surge como a necessidade de incorporar no nome o lado experimentalista e mais primitivo da banda ou intuitivo, melhor dizendo, que percorre o nosso universo e lhe dá um sentido mais cinematográfico. O Blues para além de vir da corrente musical vem, mais que isso, de todo o folclore que o rodeia, do facto de ser algo honesto e muito humano, algo purgador e pregador, é algo que se priva de ornatos e de coisas supérfluas.

Quais as principais diferenças entre Share The Fire e os trabalhos anteriores?
Uma das maiores diferenças é o facto do teclado, tocado pela Mallory Left Eye, ter agora um papel muito importante na composição dos temas. Veio permitir uma nova liberdade criativa para mim e para o Johnny e veio também possibilitar abraçar caminhos mais experimentais e intensos que anteriormente (como duo) estávamos mais limitados para fazer isso. Outra diferença é o facto de termos tocado muito ao vivo e isso permitiu-nos conhecermo-nos melhor como pessoas e como músicos, o que fez com que existíssemos mais como um todo e não como um conjunto de três indivíduos. Por fim, para colmatar estas novas experiências que estávamos a viver, decidimos trabalhar com
músicos que admirávamos.

Este trabalho foi produzido por um nome muito importante. Como conseguiram o contributo de Boz Boorer?
Estávamos à procura de um produtor que tivesse uma experiência de trabalho diferente da dos produtores portugueses. Queríamos alguém que fosse imune ao que se fazia em Portugal, ao mercado português e ao mesmo tempo alguém para nos ensinar, para nos ajudar a moldar o álbum que estávamos a preparar que era algo diferente do que tínhamos feito anteriormente. Tínhamos vários nomes em mente e um deles era o do Boz. Falámos com vários amigos (o Kaló dos Bunnyranch\Tiguana Bibles aconselhou-nos a trabalhar com ele) que nos foram convencendo a trabalhar com o Boz e como era alguém com quem nós gostaríamos de trabalhar, mesmo antes de nos ser aconselhado, optámos por ele. Contactámo-lo, ele ouviu os nossos trabalhos anteriores, gostou da banda e decidiu trabalhar connosco. Foi uma experiência muito produtiva a de trabalhar com ele e ambas as partes não poderiam ficar mais satisfeitas com o resultado final.

Também o saxofonista Terry Edwards tem uma importante participação neste disco. De que forma é que se deu a sua participação e qual foi o seu input criativo nos temas em que participa?
Nós conhecemos o Terry quando tocámos com os Gallon Drunk em Lisboa, numa festa do Wonderland Club. Eles gostaram bastante da banda e a partir daí fomos mantendo algum contacto. Quando começámos a trabalhar no novo disco pensámos em ter um Sax numas faixas e lembrámo-nos logo do Terry mas ficámos um bocado na dúvida se ele iria querer trabalhar connosco e se era acessível, por ser um músico que já trabalhou com quase todos os Big Cats como o Nick Cave, Tom Waits, PJ Harvey, Madness e muitos mais. Quando o Terry Voltou a Portugal com a sua banda nova Big Sexy Noise, que são os Gallon Drunk com a Lydia Lunch e sem baixista, bebemos uns copos com eles num bar no Bairro Alto e perguntámos-lhe se gostava de participar no nosso novo disco. Ele disse prontamente que sim e mostrou-nos a sua agenda. A partir daí fomos combinando as coisas e ele acabou por gravar as 3 faixas que tínhamos escolhido para ele em Londres. Démos-lhe total liberdade criativa na abordagem que iria ter nas músicas e o resultado foi excelente. Ele ficou muito entusiasmado com as músicas que lhe enviámos e acho que isso se nota no disco. Ficámos muito orgulhosos pelo facto de ele ter colaborado connosco e de gostar tanto da banda. É algo que gostaríamos de repetir com ele e com outros músicos que sempre achámos que eram inatingíveis, mas no final se formos bons e gostarem do que fazemos nada é inatingível.

Com parte do disco gravado em Londres e a masterização feita nos Estados Unidos, pensam que estes são elementos que poderão ajudar a abrir-vos outras portas ao nível da internacionalização e da conquista de outros mercados para além do português?
Quando escolhemos as pessoas com quem íamos trabalhar não foi a pensar na internacionalização mas sim no resultado final a nível musical, mas as nossas escolhas acabam também por ser uma mais-valia para tentar o mercado internacional. É algo que andamos a namorar há algum tempo e esperamos que comece agora a correr de forma mais fluida e frutuosa. Nos tempos que correm já não é assim tão complicado tocar ou arranjar contactos fora de Portugal. A globalização, a internet e as companhias aéreas Low Cost vieram facilitar um pouco o cominho da internacionalização mas uma coisa é certa facilitou a toda a gente por isso temos que te
ntar ser sempre os melhores naquilo que fazemos para podermos atingir os objectivos a que nos propomos.

Aparentemente, vocês não têm baixista. Pelos visto isso não é impeditivo de criarem temas ritmicamente fortes. Que estratégias usam para superar esse facto? E ao vivo como se processam as coisas a esse nível?
Não é só aparentemente, nós não temos mesmo baixista nem usamos guitarra baixo nas gravações. Não temos propriamente estratégias para compensar esse facto, o que acontece é que no processo de composição dos temas temos sempre presente a ausência do baixo, logo as músicas moldam-se de forma diferente e muito orgânica visto que os 3 instrumentos muitas vezes se transformam num só, daí a referência ao primitivismo do blues e da psicadélica dos anos 60 para criar uma experiência sonora forte. No estúdio e ao vivo o processo não é muito diferente, o que difere é que ao vivo podemos deixar-nos levar mais facilmente pelo entusiasmo e excitação e isso acaba por se sentir na forma como abordamos as músicas em palco. Mas o baixo vai emergindo ora na guitarra, na bateria, no teclado ou simultaneamente em todos.

Curiosamente, a festa de apresentação de Share The Fire foi feita numa exposição de pintura. Sendo que este é um facto raro, como surgiu a ideia, com que objectivos e como decorreu essa festa?
A ideia partiu do Daniel Mackosch, amigo e proprietário de uma das mais interessantes editoras independentes em Portugal que é a nossa Raging Planet e da Ana Batel, amiga e artista plástica que fez os excelentes quadros que compõem o artwork do disco. Queríamos dar às pessoas que estivessem presentes na galeria a experiência imagética e sonora do disco, envolvendo-as nos quadros e na nossa música. O resultado foi bastante interessante e revelador das águas em que se move a banda. Gostamos sempre de colaborar com amigos em prol de um resultado que nos satisfaz a todos como que numa grande orgia de ideias e capacidades que resultam num filho que no fim acaba por pertencer a todos.

Como está a ser preparada a apresentação de Share The Fire em estrada? Já há algumas datas definidas?
Estamos agora marcar a segunda temporada de concertos, pós Agosto e temos já uma data marcada em Lisboa no LX Casting Club na LX Factory no dia 17 Setembro pelas 23:00h e temos também algumas datas marcadas para a região norte e centro. O nosso myspace e facebook vão sendo actualizados à medida que surgirem as novas datas e notícias.

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