terça-feira, 29 de março de 2011

Entrevista - (aura)

Autor de alguns dos mais originais projetos nacionais, André Fernandes, volta a superar-se a si próprio e a demonstrar a sua imensurável capacidade inovativa ao partir para um projeto de musicar fotografias de José Ramos. O resultado, Invisible Landscape, assinado sob a designação de (aura) é tudo menos óbvio e previsível. Convidamos o músico a explanar o seu ponto de vista sobre este trabalho originalmente editado em 2008 por via digital e que chegou ao formato físico em 2010.

Este é um projeto verdadeiramente inovador. Pode descrevê-lo?
Bom, uma grande parte da minha vida foi dedicada à música, a ouvir e a criá-la, e embora já tenha estado envolvido, desde a infância, em várias bandas, projetos pessoais e processos de composição sempre senti que nunca tinha desenvolvido um trabalho onde pudesse deixar fluir livremente todas as minhas influências e emoções – assumidas e recalcadas – num espectro puro de liberdade e transe criativo total. Tendo assumido essa matriz neste projeto, expeli qualquer tipo de receio ou sentimento de estranheza no processo de escrita e lancei-me numa mescla desenfreada onde o fantasma da incoerência estilística teve tanto relevo quanto a sombra da castração numa paleta naturalmente mestiça. Não sei se será propriamente inovador, mas considero que se trata de um trabalho com um decalque muito próprio, fruto de um investimento criativo com algum significado.

De que forma é que te surgiu a ideia de musicar imagens?
Uma noite, ao me deparar com o trabalho fotográfico do José Ramos fiquei absolutamente absorvido pelo poder das suas imagens e pelo convite compulsivo que aqueles cenários me lançavam. Contactei-o e lancei-lhe o desafio de escolhermos dez fotos, em ordem cronológica, que servissem de proscénio para um enredo imaginário, caldeado por uma Banda Sonora, que seria composta por mim. Esses dez atos são os capítulos de Invisible Landscape, uma tela já salpicada mas onde todos podem tecer o seu próprio enredo.

E como é feito esse processo de transposição da fotografia para a música?
Honestamente não foi algo de obsessivo ou muito rigoroso, limitei-me apenas a ter as fotos presentes na minha mente enquanto compunha os temas. Depois, sim, quando o esqueleto estava montado procurava os pequenos detalhes nas imagens para criar camadas sonoras – leves brisas e muros intransponíveis – onde esses elementos surgissem como pronúncios e deja vús ou mesmo para reforçar objetos e ideias concretas. Nesse sentido o álbum é bastante rico e, até, labiríntico e toda a sua profundidade e significado vai engrossando à medida que nele se insiste e se toma mais atenção às músicas. Por fim, numa fase derradeira, quando estava a masterizar o disco, as texturas e cores de toda a realidade visual foram coordenadas vitais no desenho da sonoridade final.

Este álbum foi editado digitalmente em 2008 e só dois anos depois o foi fisicamente. Porquê esse espaço de tempo?
Basicamente, porque depois de ter terminado o disco enviei-o para várias editoras mas nenhuma avançou para a sua edição. Na altura tinha em mãos uma obra muito difícil de catalogar e isso tornou árduo o processo de perceber que tipo de etiqueta poderia estar interessada em pegar nele. Na altura houve algumas editoras, cuja discografia aprecio, que mostraram interesse, mas o início da crise económica global e o declínio da indústria fonográfica foram árduos entraves a que avançassem com propostas concretas. Ao deparar-me com essa situação e ao ver que vários amigos talentosos estavam a debater-se com o mesmo tipo de dificuldades decidi criar a Abutre Netlabel de modo a lançarmos e promovermos os nossos trabalhos numa plataforma digital e livre, onde todos estaríamos a trabalhar num espectro mais amplo de entreajuda e a dar a conhecer a nossa música.

Nesse intervalo de tempo, surgiu a Valse Sinistre. Como se processou o contacto?
Em 2008 o fenómeno das netlabels era algo de emergente e que ganhava bastante popularidade em todo o mundo. Havia uma rede vasta de websites e fóruns onde entusiastas e editores davam a conhecer uma panóplia vasta de novas propostas musicais, à margem da indústria convencional. A Abutre foi ganhando espaço, até na imprensa online Nacional, e os nossos discos começaram a ter alguma relevância. Em relação ao Invisible Landscape, o ponto de viragem foi quando o website Norte-Americano Sputnik Music lançou um artigo, em fevereiro de 2009, sobre as netlabels e os discos mais interessantes que surgiram no cenário planetário, e para grande espanto e felicidade minha o meu disco fazia parte da lista. A partir daí houve um disparo no interesse, que senti especialmente no Myspace e na Last FM, e voltei à carga com as editoras tendo, no entanto, não conseguido chegar a qualquer acordo, novamente. Quando já tinha quase esquecido essa possibilidade recebi, em 2010, um e-mail do Robert – da Valse Sinistre – a dizer que tinha adorado o disco e que o queria editar em CD. Curiosamente eu nem conhecia a editora mas quando fui ao website descobri que servia de albergue a várias bandas e artistas que conhecia e ouvia (como Hypomanie, Deep-pression, Isa, Soufferance, Owl Cave, etc.) e quando li o conceito da Valse Sinistre – que editava discos onde a configuração estilística era secundária e que procurava bandas com uma sonoridade fortemente emocional e distinta – percebi que tinha, finalmente, encontrado a etiqueta certa para (aura). Poucos meses depois o disco estava cá fora e a editora fez (e continua a desenvolver) um trabalho fantástico na promoção deste, aparecendo constantemente críticas e reportagens um pouco por todo o mundo. Neste momento o álbum tem distribuição na Europa, Japão, Estados Unidos, América Central/ Sul através de várias distribuidoras, incluindo a conceituada etiqueta Inglesa Cold Spring, portanto não poderia estar mais satisfeito com o trabalho desenvolvido pela Valse Sinistre. Claro que quando se tem alguma exposição mediática, todo o processo acaba por nos transcender e muitas vezes surgem histórias surpreendentes que nos emocionam e que fazem com que todo o esforço valha a pena como um e-mail que recebi recentemente de um fã do leste da Turquia que me contou que devido a ter encomendado o disco a carta foi confiscada e teve de responder a um interrogatório mas que o importante, para ele, foi ter adorado o álbum. Este tipo de feedback faz-nos ver além da nossa própria realidade e dos limites cognitivos que temos sobre as nossas próprias ações e criações.

A água é um elemento muito presente neste disco. Era um fator essencial no conjunto de fotografias que musicaste?
Sendo um disco conceptual tivemos uma intenção clara em fazer com que houvesse uma mudança de Elemento à medida que a história avançava. Portanto o disco nasce, claramente, de um cenário à beira mar e avança por dunas e areais áridos até ao coração da floresta e às planícies mais despidas. E como dizes, a água é um fator preponderante porque metade do disco tem vista para as ondas e é seduzido pela brisa oceânica.

De que forma surgiram os convidados neste teu álbum?
Quando fazemos um disco a solo é inevitável não sentirmos algum tipo de limitação ou desejo de rapinar algo que nós não conseguimos dar. Os dois convidados que tenho no disco são amigos de infância com os quais passei muitas tardes e férias da escola fechado em sótãos, garagens e palcos a tocar mas também músicos cujo talento e unicidade bastante admiro. O Bruno Santos é um baixista fantástico que tem uma sensibilidade melódica e harmónica absolutamente mágica e não resisti em confiscar-lhe uma linha de baixo para uma música, neste caso a Warm Winter. No caso do Joni Vieira, à medida que ia concluindo o disco sentia que lhe faltava uma presença humana que lhe imprimisse uma dose orgânica da qual ressacava, durante as primeiras misturas. Depois de refletir bastante senti que o seu timbre grave e narrativo poderia dar algo de especial ao desfecho do álbum, e envie-lhe a parte instrumental da última música – Cloud Colossus – e a fotografia. Em poucos dias ele construiu toda a estrutura vocal e escreveu a letra e numa noite entrámos em estúdio e poucas horas, e uma garrafa de whisky, depois estávamos a comer um kebab numa roulotte com vista para o Douro, com o tema gravado.

Musicalmente, não pões limites estilísticos a ti mesmo…
Estou neste momento a pensar em como será o segundo disco de (aura) e quero continuar nesta toada de não haver entraves ou pré-conceitos de qualquer ordem. Creio que os limites que encontro são as linguagens que desconheço e os artifícios que não manuseio e como tal tenho uma vontade voraz de ouvir artistas que me surpreendam e desassosseguem, de ter contacto com novos instrumentos e de trocar ideias com outros músicos e artistas.

A terminar, podes falar-nos dos teus outros projetos?
Tenho muitas ideias na cabeça e muitas operações em marcha neste momento. Para além do próximo disco de (aura) para a Valse Sinistre – que ainda não comecei a escrever – estou ativo em duas bandas, neste momento. Dou alguns concertos, como guitarrista, com o coletivo Irmãos Brothers, que é um ensemble de músicos aventureiros e experimentais, onde nos lançamos ao sabor puro do improviso e do psicadelismo, mais no campo do post/ stoner rock e free jazz. Estou, também, a gravar a bateria no ep de estreia do power duo Lesbian Raimbows onde partilho a aventura com o Rui Martelo, que assume o baixo e a voz. Estamos neste momento a fazer um mini documentário que acompanha, não só, as gravações dos temas mas também as nossas emoções e expectativas no que significa ser músico, nos dias de hoje, e o que nos move. O primeiro episódio já está disponível no Youtube. Para além disso tenho um projeto em mente chamado Fundo, mais no espectro shoegaze/ pós Black Metal, para o qual já tenho alguns temas compostos e parte do artwork desenhado, pelo fabuloso ilustrador Belga Christophe Szpajdel. Numa perspetiva mais profissional – depois de ter composto dez temas originais, em 2010, para a Banda Sonora do filme Um Filme à Chuva – já me estou a debruçar sobre aquela que será a próxima longa-metragem do Telmo Martins (Ground Zero) e estou também a desenvolver alguns temas para o filme Fenix, do realizador Portuense Gustavo Sá. Para além de tudo isto pretendo ainda revitalizar a Abutre e apostar em novos lançamentos e artistas, uma vez que as coisas estão um bocado paradas, neste momento.

Muito obrigado pela entrevista e pelo interesse demonstrado. Quero dizer que podem seguir todas as notícias de (aura), e até dos outros projetos mencionados, no facebook, em:
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