segunda-feira, 14 de março de 2011

Entrevista - Heavenwood

Juntar a potência de uma banda, a criatividade de um compositor, a frieza de um produtor e a classe de uma editora está na origem de Abyss Masterpice a nova obra-prima dos nortenhos Heavenwood. Um confiante Ricardo Dias acedeu a contar a Via Nocturna tudo sob este novo trabalho da banda, não se coibindo de por o dedo em algumas feridas…

Depois do vosso regresso ter sido bem sucedido, de que forma encararam a criação de um novo álbum?
Com uma enorme força de vontade e objetividade. Trabalhamos arduamente na preprodução de Abyss Masterpiece com o intuito de regressar a uma label internacional com a força e carisma conforme a Listenable Records. Quisemos também fazer um álbum mais dark em termos líricos e musicais com uma forte influência lusa sem ter de recorrer a uma poetisa clichet para nos inspirar nas letras deste novo álbum. Tivemos desde cedo a noção que o sucessor de Redemption teria de ser mais enigmático, não tão easy –listening mas acima de tudo manter a nossa personalidade musical. Criar um espectro sonoro/imagem sonora também foi um desafio muito interessante para nós de tal forma que tivemos de recorrer a um orquestrador clássico Dominic Joutsen da Rússia.

E na vossa opinião, como descreveriam Abyss Masterpiece?
É uma viagem ao lado negro, ao outro lado ou faceta, do amor. Embora seja um álbum negro no final respira-se esperança e um novo amanhecer. Será uma questão de analisar musicalmente a introdução do álbum e o final instrumental. O maior problema nos dias de hoje será “As pessoas terão paciência para interpretar metáforas com tanta música/cultura plastificada?” Poderão não entender Abyss Masterpiece hoje mas amanhã concerteza que grande parte o compreenderá… salvas raras exceções.

E as expectativas são altas, suponho…
São expectativas... as baixas não fazem parte do nosso modo de estar na música, não confundir isto com snobismo pf. Temos a perfeita noção que está tudo de olho em nós seja por bons ou por maus motivos, faz parte da raça. Felizmente os objetivos estão a ser atingidos com excelentes reviews, forte divulgação em todo o mundo e procura pelo álbum internacionalmente e nacionalmente. Acredito que o Abyss Masterpiece será um álbum para não encostar na prateleira de um fan tão cedo e só por isto considero que já é um excelente objetivo atingido face aos milhares de temas a circular diariamente pela rede fora.

Este Abyss Masterpiece revela algumas mudanças no seio Heavenwood. Desde logo, eventualmente a mais notória, a mudança para a Listenable. Como decorreu esse processo?
A Listenable Records e outras editoras tiveram conhecimento que estávamos a trabalhar no sucessor de Redemption, apresentaram a proposta com a melhor relação Paixão pela música e pés na terra… Uma das principais razões para não assinarmos por outra editora supostamente maior em termos de nome foi pelo simples facto de não pagarmos para editarmos, isto para não falar ou contabilizar as propostas ridículas que recebemos para editar este álbum. A arte não deve ser desvalorizada, somos uma banda com anos de existência e conhecida no meio internacional e mesmo sabendo que existem dificuldades, crise e pirataria há que haver um esforço mútuo numa relação Editora/Banda. É uma questão de gestão, estratégia e know how. A Listenable Records é uma editora muito respeitada e acarinhada na cena internacional face á sua dedicação, paixão e profissionalismo e acima de tudo tem servido de ponte de lançamento para bandas novas de enorme sucesso tais como os Gojira ou Textures por exemplo.

Depois o facto de trabalharem com um compositor russo. Como surgiu essa ideia e essa oportunidade?
Foi a necessidade de criar uma imagem musical, para a nossa inspiração lírica da D.Leonor no sec. XVIII, transmitir a sensação que o ouvinte num tema pode sentir-se no sec. XVIII e no seguinte volta ao presente. Dramatizar o que se canta, criar momentos de suspense e também tornar as músicas deste álbum maiores em termos de ambientes. O Dominic Joutsen foi a escolha ideal, embora ele nada tenha a ver com o universo do Metal ou mesmo Gótico partilhamos algo em comum que é o Danny Elfman ou o lado mais obscuro/dark do clássico daí a empatia e posteriormente o caminho até acharmos a fórmula ideal para juntar estes dois universos de lados opostos mas que no final de contas até partilham bastantes coisas em comum. A internet possibilita partilhar essas experiências, talvez o mais difícil no processo fosse transmitir por palavras o que desejava ouvir de forma a bater certo com a expressividade da letra no momento de audição. Trabalhoso? Sim até á exaustão, este álbum foi sem sombra de dúvida que nos deu mais trabalho desde a composição, preprodução, edição das orquestrações, gravação, mistura e masterização.

E em termos de produção trabalharam com o conceituadíssimo Kristian Kohlmannsleher. Como foi trabalhar com ele?
Foi excelente, foi uma das nossas principais escolhas para a mistura de Abyss Masterpiece pois de emoções e dramatismo já estávamos nós repletos, faltava a precisão, frieza e metodologia germânica. O Kristian conseguiu dar peso, consistência e equilíbrio entre a nossa muralha sonora e a muralha sonora do Dominic. Por incrível que pareça havia momentos do Dominic Joutsen que soavam mais pesados que uma banda de metal e equilibrar, harmonizar um álbum destes não é tarefa para qualquer produtor de metal ou rock. É difícil e o Kristian Kohler esteve mesmo á altura! Por outro lado ele já conhecia a banda desde 1996 tendo inclusive comprado o nosso primeiro álbum quando era novo e para ele acabou por ser interessante anos mais tarde trabalhar com uma banda que adorava em 1996.

E com a Miriam Renvag, como foi que se processou a sua escolha?
Para o tema Leonor que é uma adaptação do poema da D.Leonor/Marquesa de Alorna Cantarei um dia de saudade. Tivemos dificuldade no inicio em encontrar uma voz feminina que conseguisse dar vida às palavras do poema, cantar com alma por assim dizer. A Miriam é um talento nato e no meu ponto de vista com muito a dar ao mundo do dark metal. Pedi-lhe que tentasse personificar o poema ao máximo uma vez que o respetivo aborda um passeio pela natureza e o descarregar de sentimentos bons e maus servindo a mesma natureza de ombro amigo e também fardo de lamentos. A Miriam foi perfeita!

Em termos de músicos voltaram a contar com o Daniel Cardoso e para o baixo mudaram para o Pedro Mendes. Não ponderam a hipótese de recrutar membros definitivos para completar o lineup?
Para as sessões de gravação, sim contamos com o Daniel na bateria e com o Pedro Mendes para a gravação das linhas de baixo. A estrutura do álbum em termos de ritmos e linha de baixo já estava toda preparada e composta na preprodução por isso limitaram-se a tocar e claro dar um certo ar da sua graça. Atualmente já não são músicos convidados dos Heavenwood, nunca pertenceram á banda pois os Heavenwood como banda são um trio composto por mim, Ernesto e Bruno. Temos sangue novo e talentoso tal como o Marcelo Aires (baterista dos Oblique Rain) e Paulo Chanoca ( baixista dos Demon Dagger/Decrepidemic) e os ensaios de Abyss Masterpiece e dos álbuns antigos têm corrido muito bem, há empatia, respeito e dedicação. Nos Heavenwood as estrelas existem no céu apenas…

E em termos de espetáculos quem vos irá acompanhar ao vivo?
Marcelo Aires (baterista dos Oblique Rain) e Paulo Chanoca (baixista dos Demon Dagger/Decrepidemic)

Liricamente, que conceitos são abordados em Abyss Masterpiece?
Utilizámos e adaptamos dois poemas da D.Leonor nos temas Goddess Presiding Over Solitude e em Leonor. Conforme disse acima o lado negro do amor e um sentimento de saudade misturado com um novo amanhecer... o álbum está repleto de metáforas a serem descobertas desde a capa, simbologia até às líricas. Boa viagem...

Nesse campo recuperam, como afirmas, dois poemas de Marquesa de Lorna. Como foi o processo de recolha e transformação desses poemas? E porque esta autora em particular?
Foi uma tremenda aventura uma vez que ela não é assim tão conhecida quanto isso para além de eu ter ficado com a sensação que “foi abafada“. Foi uma lutadora dos direitos da mulher em Portugal, figura responsável pelas primeiras traduções de grandes obras do romantismo internacional, carismática na forma de se expressar e criticar a sociedade e a religião portuguesa em pleno sec. XVIII. Passados séculos parece que as coisas não mudaram assim tanto certo?

Achei curioso o final do disco em tons sinfónicos num tema denominado Her Lament. Já em Diva tinham terminado com Lament. Coincidência ou não?
Não...nada no álbum é coincidência. Será que a personagem feminina do Diva cresceu? Sim…

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