terça-feira, 8 de março de 2011

Entrevista - La Chanson Noire

Charles Sangnoir já tinha algum reconhecimento com os seus La Chanson Noire, mas faltava um longa duração que estabelecesse, de uma forma incontornável, o seu nome como umas referências nacionais. Isso aconteceu sob a designação de Música Para os Mortos, um disco cheio de ironia e decadência. Afinal, a arte no seu estado mais puro. Seja música impopular portuguesa, seja punk, seja cabaret decadente, pouco interessa. O que aqui vale é um criador de arte feita com notas e sentimentos, como não há muitos no mundo. Ei-lo aqui, o próprio, em discurso direto.

Música para os Mortos é o teu primeiro longa duração. Completamente satisfeito com o resultado final?
Sim, estou bastante satisfeito. Penso que, de uma forma geral, o disco correspondeu às minhas expectativas estéticas e musicais. Claro que existem sempre aspetos mais técnicos que, olhando agora com alguma distância, poderiam ser limados de outra forma. Mas penso que os discos são como filhos: parimos, damos alguma orientação, mas temos que os deixar seguir mais cedo ou mais tarde.

De que forma se aproxima ou se afasta das tuas criações anteriores?
Penso que Música Para os Mortos é um seguimento natural do trabalho que tenho vindo a desenvolver. Não noto diferenças dramáticas entre este disco e o split com Espelho Mau, por exemplo, aparte de ter um trabalho de produção obviamente mais cuidado, mais aturado.

O lançamento deste trabalho é fruto de cinco editoras diferentes. Como se consegue fazer isso?
Novamente, foi um processo natural. A indústria musical é um pequeno bordel em que todos se conhecem – entre as várias entidades que fazem parte da mesma, houve algumas que mostraram interesse em lançar o disco, e uma vez que esta foi uma produção mais exigente e cara que o habitual fez todo o sentido partilhar o esforço, assim como os louros, por estas 5 excelentes editoras. Não me cansarei de louvar o esforço que a Raging Planet, a Helloutro, a Raising Legends, a Chaosphere e a Necrosymphonic têm tido no sentido de promover este pequeno opus de desgraça.

Apresenta-nos os fantasmas que tocam contigo neste disco.
Este disco está povoado de graciosas criaturas que contribuíram para o resultado final; a nível musical, orgulho-me imenso dos artistas que disponibilizaram o seu tempo e vontade em dar alma a este cadavre exquis: os irmãos Mário e Pedro Santos asseguraram a bateria e grande parte da percussão, coisa em que são mestres. A Tânia Simões assegurou boa parte das secções de cordas (e vai passar a assegurar bem mais do que isso, mas ficará para outra entrevista!), o mestre Phil Mendrix honrou-me com a presença da sua guitarra, assim como o meu caro Espírito Santo o fez (e se não o conhecem, deveriam procurar o seu ep editado pela Necrosymphonic). A nível do spoken Word, outra das minhas paixões, pude contar com a presença dos excelentíssimos Aires Ferreira e Beyonder (que deu também ares de sua graça na harmónica). Pude ainda contar com a belíssima presença da Pat Vanity, cuja voz engrandeceu este disco. A cargo da mistura tivemos o mestre Fernando Matias, grande entendido na arte de me aturar. É obvio que estou a deixar muita gente de parte. Música Para os Mortos contou com a participação de dezenas de convidados e com o apoio logístico de diversas instituições. Foi uma obra de esforço coletivo. Existe um videoclip online, para o tema Raio de Aventura que contabiliza, de forma mais correta, a delícia que foi partilhar este disco com tanta gente.

De que forma é que a Feira Popular de Lisboa te ajudou a criar Música Para os Mortos?
Isso é um mito urbano originado pelo meu myspace. No entanto, admito que as imagens que retive durante os meus passeios de infância pelo comboio fantasma poderão ter contribuído para a minha transfiguração de pessoa hipoteticamente normal em artista extravagante e decadente.

Perfeitamente adaptada a data de edição com o título do trabalho. Foi tudo pensado ou não?...
Tudo absolutamente pensado – aliás, não acredito em artistas que afirmam coincidências com estas coisas de datas. A indústria é composta de tubarões e não existem anzóis de plástico.

Este disco vem acompanhado de um DVD. Podes falar um pouco sobre isso?
Há que ter em conta que a produção deste disco foi particularmente elaborada: o disco foi gravado em 5 locais diferentes, e com uma logística de meter medo – assim sendo, como se tornou uma produção muito demorada, e como tinha muito tempo entre mãos, achei interessante filmar um videoclip para cada tema, de forma a ocupar o tempo e não enlouquecer com a gravação do disco. É notório que se tratam de vídeos com uma componente muito Do It Yourself, mas quis experimentar a faceta de realizador (e por outro lado tinha zero budget para o fazer). Acho que torna as coisas mais interessantes, poder associar a música à imagem. E assim, ao comprar o disco, adquirem-se não uma mas duas magníficas bases para copos.

Música Impopular Portuguesa é uma definição com a qual te sentes bem? Ou nem por isso…
Fui eu que criei esta definição, por isso sinto-me particularmente bem com a mesma. Pop Satânica também seria um rótulo interessante, mas isso seria pedir guerra com os senhores do pop-rock evangelista, não é?

Tu assumes a responsabilidade de quase todos os instrumentos. Sentes-te confortável nessa posição?
Perfeitamente. Sou um ditador de corpo inteiro. Gosto que as coisas soem exatamente como as penso, e por isso sou a pessoa mais habilitada a executar os meus temas. Quando sinto que a música pode ganhar algo mais com a intervenção de outrem é quando surgem os convites para colaborações – daí ter tantos convidados neste disco.

Como procedes para os espetáculos ao vivo?
Habitualmente limito os meus espetáculos a uma performance de piano e voz – o que acaba por mostrar os temas numa outra perspetiva: mais intimista, mais crua. No entanto, e à semelhança do que já fiz de forma esporádica anteriormente, estou neste momento a montar um combo de músicos altamente competentes e inspirados para me acompanhar em espetáculos maiores. Vai ser um combo com uma energia muito forte, muito punk, mal posso esperar.

Obrigado!!
Meus caros, eu é que agradeço a paciência e a oportunidade. Viva o Cabaret Decadente!

Sem comentários: