quarta-feira, 16 de março de 2011

Entrevista - Self Inflicted Error

Self-Inflicted Error e A Job Well Done é muito mais que um projeto e um álbum. É um manifesto de independência e arrojo. Uma forma única de chamar a atenção para os podres do mundo e da sociedade atual. Um violento abanão de consciências. O sinistro Abrcdvr contou, numa forma direta, crua e fria a sua visão do atual estado das coisas.

Fala-me deste teu novo disco. Baseia-se nas teorias do fim do mundo, certo? Como vês esses presságios?
Curiosamente não é bem nas teorias, mas antes uma confirmação do fim. Uma celebração do mesmo. Tentando ser o mais sucinto possível: apesar de muitas das previsões sobre um possível fim dos tempos, e nada que uma pesquisa a coisas como Puma Punku ou outros que tal não consiga validar – até certo ponto – boa parte dessas teorias, não é sobre isso que tento falar. Ao contrário do que habitualmente se pensa, creio estarmos num dos períodos de maior atraso intelectual na história da humanidade. Temos, finalmente recursos para de uma forma quase universal conseguirmos todos ser mais inteligentes e melhores seres para o sítio e para com quem estamos. O que fazemos com isso? Temos a geração mais burra, desatenta e desligada de valores que são, de facto, essenciais à existência humana. Há já algum tempo que deixou de ser uma questão de o mundo acabar ou não. É evidente que o mundo como o conhecemos está a terminar. O capitalismo atingiu, à semelhança de tantos outros sistemas governativos, um ponto de saturação. De forma alguma o dinheiro deveria orientar o destino da raça humana. E por mais poético e bloco-esquerdista que isto possa suar, a verdade é que nos deixamos domar. O que não farias tu por dinheiro? Pelo poder que isso acarreta? Não se iludam com políticos nem sequer os culpem. A raiz, a semente, é mesmo o constante erro humano. O erro em que queremos é ter as sapatilhas da moda nem que uma criança tenha de trabalhar um dia inteiro para as fazer do outro lado do mundo. Este projeto nasceu com o intuito de alertar para isso mesmo. Agora que está acontecer, lancei uma última pedra com um sorriso no rosto. As dívidas, os bancos, a perda de emprego, o stress, os filhos tidos sem qualquer pensamento global, todos os erros estão a ter repercussões letais. Sirva este disco para um último aviso aos que se dão sequer ao trabalho a ouvir.

É por isso que se refere no press-release que A Job Well Done é o novo e final disco de SIE?
Precisamente. É mesmo um último esforço, já em modo de banda-sonora para o que está a acontecer diariamente. Não digo com isto que vá andar com um cartaz a apregoar o fim dos tempos. Mas faz-me muito mais sentido criar sobre algo tão drástico do que canções de amor ou hinos de ódio a uma qualquer religião. O problema, o alvo, é o próprio Homem. Tenho a perfeita noção que tempestades solares, alinhamentos celestiais e afins poderão passar sem as catástrofes à lá Hollywood (curiosamente estou a responder-te a isto umas horas depois de um sismo daqueles ter varrido a costa Japonesa). No entanto, acordem, olhem à vossa volta. Acham que as mensagens gratuitas da Vodafone ou o Farmville têm algum tipo de importância num aspeto global? As pessoas tornaram-se de tal forma fracas a nível intelectual que dirigem agora a vida para os passatempos, para as trivialidades. A filosofia passou a ser uma merda de uma disciplina onde aprendes história. Enfim, mas em suma, sim. Fiz o que tinha a fazer com SIE. O disco é gratuito, se acordar uma ou duas pessoas para este assunto, já fico satisfeito. Dá-me alguma redenção pelos anos em que eu mesmo fui estúpido, se quiseres. Ou então, a prova que qualquer um pode mudar-se a si mesmo. Basta dar-se a esse trabalho.
Como vês este teu novo trabalho em comparação com os teus registos anteriores?
A nível de “ideais”, esses sempre foram os mesmos. Aliás, daí o nome do próprio projeto. Quanto à sonoridade, essa muda quase de disco em disco, para eu puder experimentar sons e porque cada disco tem um conceito que pede esta ou aquela sonoridade. O The End era todo ele ambiental e tinha como propósito musicar momentos muito negativos da história do Homem. O The White is Death fala sobre a apatia que o meio de vida que nos é comum causa sem grandes dificuldades. E usei muito mais a construção de uns Neubauten e uma série de coisas influenciadas por música minimalista. Com o Acts of Torture e o Natural Selection diluí a componente eletrónica numa estrutura mais rock. E nestes dois últimos, construí os temas recorrendo ao rock/metal mas desfragmentando-o quer com uma mistura de eletrónica (no Involuntary Human Extinction Movement) quer numa toada de construção pelo som e não pela melodia no Job Well Done. Em suma não considero este ou aquele melhor. Por exemplo, hoje em dia acho que a produção do Acts of Torture é uma desgraça. Mas nesse sentido, sairá um best of com remisturas e afins pela Sanatório, um dia destes. Ainda assim, gosto mesmo muito do que fiz no IHEM - que demorou meses a terminar – e neste A Job Well Done que fiz na integra numa apoteótica semana.

Acho curioso a inclusão de três faixas com o mesmo título. Elas estão, de alguma forma interligadas ou não? Qual foi o teu principal objetivo neste aspeto em particular?
De facto, estão. E obrigado pela pergunta porque... enfim, é algo a que acho particular piada. Pretendi três momentos musicais que, mediante a ordem que eram dispostos, criariam um resultado final diferente. Uma música, diferente ainda que composta pelos mesmos elementos. Não lhes dei um número em específico porque quero que seja o ouvinte a mudar o alinhamento. Não para tornar o disco mais “fácil” de ouvir, mas muito mais para o tornar ainda mais caótico, ainda mais o reflexo de nós mesmos, da merda que somos e fazemos numa base diária.

Gravaste o álbum todo sozinho? Consideras ser esta a melhor forma para expressar os teus sentimentos mais íntimos?
Nem sempre. Misturar o que sabemos ao que outra pessoa sabe, cruzar, e se nos unirmos para um bem comum sem interesses adicionais, é mesmo possível criar coisas muito boas. No entanto, sim, SIE é também uma forma de purga e claro, melhoria de construção musical a um nível pessoal. Não é a melhor forma para tudo, mas sim, sem interferências de ninguém, conseguir criar algo marcante, independentemente do número de pessoas a que o é, sabe-me particularmente bem.

No entanto, no final do disco tens um minuto que foste buscar a George Crumb. Queres explicar essa momentânea inclusão de violino num trabalho tão negro e ácido?
Sim. Basicamente, tentamos trabalhar em campos semelhantes. Evidentemente que a fórmula para criar o que conhecemos por música está mais do que encontrada, mas esta nunca será mais do que som grave ou som agudo (na constante ritmo), na sua génese, pelo menos. Ora, se a mensagem que eu quero transmitir é urgente, porque não fazê-la de forma extrema? E quão mais extremo pode ser a nível sonoro do que criar música de forma oposta ao que ela é criada habitualmente? Cheguei a essa conclusão ao ouvir George Crumb. E como tal, decidi prestar-lhe um mais do que merecido tributo. E para além disso, reforçar algo que tenho como verdade universal: desde sempre existiram questionadores, opositores ao que é feito em massa. Seja na música clássica, seja na pintura ou seja um soldado que acredita que um sistema democrático, nas suas já intrínsecas falhas, só pode resultar através da transparência e é condenado a passar o resto da vida na prisão, num país democrático, por defender os ideais desse mesmo país. Enfim, é um último momento de ironia: descobri um músico que mudou a minha forma de percecionar algo tão essencial como o som, através da criação de uma sociedade que aprendi a não gostar. Com base nessa descoberta, criei algo a celebrar a destruição disso mesmo.

E projetos para o futuro? Tens algo em mente?
Tenho. Apesar de uma ou duas vezes por ano me surgir a questão do “para quê meu? Eles que se afoguem em merda e tu trata de consolar o físico e treinar a mente” acabo sempre envolvido em mil e uma coisas diferentes. Treinei de tal forma a minha inconformidade que agora é comparável a uma dependência. Mas que se lixe. É mais do que natural que continue a criar, a questionar, a fazer diferente só pelo questionar inerente que isso acarreta. Pode ser que no processo inspire alguém a fazer o mesmo! Grato pela entrevista. Continuem o bom trabalho.

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