sábado, 30 de abril de 2011

Entrevista - utopian.hope.dystopian.nihilism

Élvio Rodrigues, multi-instrumentista conhecido pelo seu trabalho nos Through Darkness criou em nome individual os utopian.hope.dystopian.nihilism que com Pact With Solitude apresenta uma verdadeiro manifesto de independência e liberdade criativa. A Via Nocturna, o músico explicou o processo de gestação desse pacto.

Para começar podes fazer a apresentação dos utopian.hope.dystopian.nihilism (uhdn)?
Uhdn é o meu projeto a solo. Neste projeto, tento ser o mais livre possível, sem nunca me prender a nenhum género em específico. Penso que o álbum Pact With Solitude já demonstra alguma dessa liberdade.

Qual o significado de este nome tão longo e estranho?
Percebo porque é que as pessoas acham o nome tão estranho, no entanto, foi mesmo o único nome que fazia sentido na minha cabeça. Ao inicio ainda questionei se o nome não seria demasiado grande. Mas, no fim de contas, a única coisa que interessa é se é um nome com o qual te sentes confortável ou não. Daí este nome, que no fundo representa equilíbrio, ou a ausência deste, caso a balança tenda mais para um lado do que para o outro. Por um lado temos utopian hope e por outro dystopian nihilism. À partida, parece existir uma ligação clara, entre uma parte do nome e a cor branca (positivismo), assim como, da outra parte do nome com a cor negra (negativismo). Ainda não decidi qual delas é a mais negra.

Este projeto já existe há algum tempo, mas tem estado um pouco inativo. Faltava-te a necessária inspiração para criar uma obra como Pact With Solitude?
Não, a inspiração esteve sempre lá. No entanto, o processo foi algo lento e progressivo. Com "progressivo" quero dizer que houve pormenores que inicialmente não estavam pensados que acabaram por ir surgindo com o tempo. Até porque na altura, nem estava nos meus planos gravar baixo... e as próprias vocalizações estavam ainda em aberto. Levei todo o tempo que tinha disponível para ir experimentando, sem pressão, até chegar a algo com o qual me sentisse completamente satisfeito. Além disso, a demora também se deve ao facto de não ter assim tanto tempo livre para me dedicar à música quanto gostaria.

Mesmo assim, pelo que pude ler, não foi fácil levares esta empreitada até ao fim. Que constrangimentos encontraste durante o processo?
Penso que o que leste, refere-se à situação que antecedeu (e que de certa forma alimentou) a criação deste projeto a solo. Essa situação deveu-se à dificuldade em encontrar alguém interessado em formar banda e que a quisesse levar para a frente. Mas, nesta fase, já aceitei o meu projeto a solo como sendo a melhor alternativa, pelo menos até prova de contrário. No entanto, durante o próprio processo de composição/gravação surgiram algumas dificuldades. Não escondo de ninguém que, por esta altura, já sinto alguma repulsa em relação a bateria programada. No entanto, isto era uma daquelas situações em que, ou gravava as músicas na altura certa, ou não gravava absolutamente nada, simplesmente porque as circunstâncias não eram as melhores. Mas, se pensarmos assim, nunca fazemos nada. Esta repulsa em relação à bateria programada, tem algum impacto nas últimas faixas que gravei do álbum. Há duas que têm partes gravadas com uma percussão improvisada, que pode escapar aos ouvintes menos atentos. De resto, foi a já referida "falta de tempo", assim como, a dificuldade em encontrar alguém para fazer a capa do álbum.

Apesar de aparentar conter apenas 4 temas, Pact With Solitude tem mais. Porque optaste por juntar algumas faixas?
Optei por juntar algumas músicas na mesma faixa, porque estas têm uma relação muito forte a nível conceptual. Foi apenas uma forma de permitir que os ouvintes tenham outra compreensão do álbum.

Em termos genéricos, como descreverias Pact With Solitude?
Pact With Solitude é um álbum que não se fixa a nenhum género e tenta ser o mais variado possível, sem receios ou preconceitos. É simplesmente um álbum honesto, que vem da alma.

Em termos de composição, este trabalho é todo criado única e exclusivamente por ti? Como se processa o teu processo criativo?
Sim, este trabalho foi criado única e exclusivamente por mim. Quanto ao processo criativo... nem sempre acontece da mesma maneira. Nem sei se existe algum padrão. Nunca pensei muito sobre isso. Mas, acho que geralmente parte sempre do "sentir alguma coisa"... isso leva-me a uma situação de escrita de uma letra ou à composição de uma determinada parte de uma música. Esta segunda porque, há coisas que não podem ser expressas por palavras.

Para a execução, foi quase todo interpretado por ti, com exceção da participação de Bruno Pereira nos vocais de Pandora’s Box. Duas questões: é uma opção ou necessidade funcionares como multi-instrumentista? E porque o convite apenas a um vocalista?
Inicialmente era apenas uma consequência natural das circunstâncias. Neste momento é bem possível que comece a ser uma necessidade. Acaba por me dar uma certa liberdade que aprecio muito. O convite a apenas um vocalista, não tem nenhuma razão especial... simplesmente aconteceu assim. Não pretendo transformar isto num projeto no qual convido vocalistas para participarem nas músicas. Alias, uma das razões da existência deste projeto é a necessidade de me expressar também vocalmente. As vocalizações continuarão a existir enquanto houver alguma coisa para dizer... mas se não houver nada para dizer, com certeza irei optar por outros "meios de comunicação". Apesar de tudo, não quer dizer que não esteja aberto a colaborações. Vocais ou outras.

E quanto à gravação? Como decorreu o processo?
O processo de gravação acaba por misturar-se com o próprio processo de composição. É por isso que o álbum acabou por ser gravado em casa. À medida que ia compondo, ia gravando também. Acho que isto torna a gravação mais especial, porque eu acabo por gravar tudo nos primeiros momentos depois da composição. Há sempre algo de especial nesses primeiros takes. Quando comecei a aperceber-me que estas faixas iriam dar origem a um álbum, tinha duas hipóteses: ou continuava as gravações, normalmente em casa, ou então regravava tudo em estúdio. A minha escolha foi esta, justamente porque acho que se perde algo nas regravações.

Em que pé está a situação dos Through Darkness?
Os Through Darkness continuam à procura de pessoal interessado em integrar a banda. Quando gravámos o EP, fizemos simplesmente o que queríamos fazer sem nos preocuparmos demasiado com o facto de não sermos uma banda convencional. Após a gravação do mesmo, surgiu em nós a expectativa de completar o line-up de modo a começarmos a tocar ao vivo, etc... Tal não ocorreu - por diversas razões, a maior parte delas exteriores a Through Darkness - o que teve algum impacto em nós. Ou pelo menos em mim. No entanto, talvez estejamos a um passo de nos fecharmos e regressarmos à velha base.

Achas que haverá hipóteses de termos os uhdn a promover este trabalho ao vivo?
Não vejo isso a acontecer, pelo menos numa fase inicial. No entanto, nunca se sabe o que pode acontecer.

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