sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Entrevista: Concealment

Os Concealment são um coletivo que faz do seu death metal algo de completamente inovador. Death Metal Avangarde é a forma como Filipe Correia, guitarrista e vocalista do trio, define esta forma extremamente complexa de metal. Quatro anos após Leak, Phenakism, mostra uns Concealment ainda mais arrojados e por isso, impunha-se conhecer melhor este projeto e este disco. Ora aí está…

Phenakism é o vosso novo álbum, quatro anos depois de Leak. O que se passou neste entretanto?
Ao longo desses quatro anos fizemos vários espetáculos para promover o Leak. Obtivemos bons frutos deste esforço promocional. Depois da fase de tours e atuações resolvemos abrandar o ritmo e definir o conceito de um novo trabalho. Dedicamo-nos, então, à composição, que foi algo de muito intuitivo e de rápida execução. Antes de iniciarmos a pré-produção surgiu a oportunidade de trabalhar com a Major Label Industries o que foi um motivador para o aperfeiçoamento do trabalho final, pois da fase de composição até à gravação final do projeto, este foi sofrendo mutações até que nos sentíssemos inteiramente identificados e desafiados pelo mesmo.

Este volta a ser um trabalho extremamente complexo. Na vossa opinião consideram-no assim? Como o definiriam?
Sim, e era esse o nosso objetivo: tornar cada disco mais intricado que o seu antecessor. O disco é muito complexo e consideramos que alcançamos o nosso propósito. Este álbum exige muitas horas de estudo para se poder executar ao vivo sem frustrar as expectativas de quem nos ouve. Esse desafio tem sido a alma desta banda, sempre que pensamos no futuro musical de Concealment pensamos na inexistência de limites e abrimos o nosso espectro criativo sem medos. O Phenakism não é um disco fácil de definir, mas se tivesse que o fazer, provavelmente, defini-lo-ia como um disco de Death Metal Avangarde.

Podes explicar essa situação atípica de ter um baixo de nove cordas?
Tanto o baixo de nove cordas como a guitarra de oito cordas surgem apenas por uma questão de tessitura musical. Com a ajuda destas ferramentas, tanto eu como o Paulo, conseguimos extrair uma série de novas cores e texturas e estes são condimentos indispensáveis no processo criativo de Concealment.

Como decorreu o processo de composição nesta fase nos Concealment?
O processo de composição foi um pouco diferente daquilo que tínhamos feito até altura. Remotamente adotávamos o típico conceito de composição que é: ideia/ensaio/gravação. Na composição de Phenakism funcionou do seguinte modo: ideia/gravação/ensaio. Como tínhamos possibilidade de gravar imediatamente as ideias que surgiam dos diversos brainstorms, mantivemos o cariz cru, tornando muito fidedigna e visceral a criação dos temas. A partir daí é que começámos a desenvolver, trabalhar e definir a direção de Phenakism. Foi então feita a análise estrutural das músicas e desenvolvido o conceito lírico. Este tipo de processo de composição tornou os temas mais sentidos e orgânicos e ainda que tenhamos optado por uma fórmula diferente da que tínhamos usado até altura resultou perfeitamente e, obviamente, que vai ser algo a ter em conta em futuras composições.

Este é um trabalho com o selo MLI, uma casa associada a propostas menos comuns, digamos assim. Por isso sentem-se bem enquadrados neste âmbito. Como se processou o contacto e de que forma tem sido o trabalho colaborativo?
A MLI é uma casa onde os Concealment se sentem seguros e confiantes e talvez por aquilo que citaste, por ser uma editora associada a propostas menos comuns. Sempre fomos muito bem tratados e foi-nos dada a liberdade e confiança para criar esta demência, e isso é impagável. Em muitas portas que batemos a resposta foi: “- Vocês tocam muito bem mas está a faltar a estrutura sing along. Como é óbvio tal disparate nunca nos foi cobrado pela MLI e o reconhecimento é sempre algo de gratificante. Temos estado todos a remar na mesma direção, e da parte dos Concealment tem sido um enorme prazer fazer parte desta família.

Existe a participação de vários convidados neste disco. Como surgiu a ideia de os incluir e de que forma é que contribuíram para o resultado final?
Essas participações surgiram durante várias trocas de ideias que fomos tendo ao longo da composição de Phenakism. Por vezes ouvíamos uma música e surgiam umas luzes para novos apontamentos, ora para participações de uma determinada voz, ora de um instrumento. Esse processo foi muito bem aceite e executado pelos nossos ilustres convidados e, sem dúvida, veio trazer um toque bastante mordaz a Phenakism.

No campo temático, existe algum campo subjacente a Phenakism?
De facto existe uma mensagem subjacente em Phenakism, mensagem essa que está presente na condição humana, no íntimo de cada um de nós, existe um forte cariz psicológico relacionado com as nossas frustrações e até com pensamentos que comummente não partilhamos ou fraquezas que tentamos a todo custo esconder, tais como a de perda de autocontrolo, degradação física e mental, desespero, a loucura, etc. Estas letras foram escritas com uma vertente metafórica ou simbólica para que de certa forma também faça com que as pessoas obtenham as suas próprias interpretações, e como sempre dei muito valor à subjetividade das letras, considero sempre providenciar essa leitura aos ouvintes de Concealment.

De que forma decorreu o processo de gravação do álbum?
O processo de gravação do álbum decorreu de forma natural e fluida, é claro que existem sempre alguns contratempos, por exemplo o projeto do tema Deluge ficou subitamente danificado e tivemos que regravar grande parte da canção, mas penso que essas contrariedades fazem parte da vida no estúdio. Na realidade conseguíamos estar à altura dessas adversidades e das nossas expectativas, conseguindo produzir algo sincero, com perícia e com o nosso usual toque de estranheza. Creio que conseguimos alcançar e transmitir esta vibração para o disco.

Sendo vocês apenas três, de que forma é que a vossa complexidade (incluindo convidados) vai ser transportada para o palco?
O conceito ao vivo de Concealment funciona como uma banda de punk rock simples e eficaz. Tocamos fielmente todas as partes instrumentais que nos compete aos três mas os adereços ficam no estúdio. Podíamos usar uma parafernália de equipamento e provavelmente conseguíamos reproduzir todas as participações do disco, mas isso é um pouco estranho pois o nosso conceito ao vivo e revelado com pessoas a tocar e não máquinas a reproduzir backing tracks. Posso garantir duas coisas: primeira) se por exemplo, um dos nossos caros convidados andar por perto vou fazer questão de o convidar para subir ao palco e tocar com o pessoal; segunda) quando os Concealment sobem a um palco, ainda que sem os adornos acrescentados pela colaboração dos nossos convidados, não deixam de cumprir as expectativas. Não desiludem.

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