Entrevista: Prey For Nothing

O mundo islâmico parece definitivamente apostado em surpreender no mundo do metal. Depois de Orphaned Land, Myrath, entre outros, a nova proposta chega-nos de Israel e chama-se Prey For Nothing. Se o primeiro álbum, apesar dos excelentes comentários, ainda passou despercebido à grande maioria dos europeus, o sucessor Against All Good And Evil promete ter outra exposição. Yotam 'Defiler' Avni, vocalista da banda, mostrou-se um interlocutor perfeitamente conhecedor do mundo que o rodeia (musicalmente falando e não só) a proporcionou um excelente momento de comunicação.

Viva, antes de mais, podes apresentar os Prey For Nothing aos fãs portugueses?
Viva! Para quem não nos conhece ainda, Prey For Nothing é uma banda de metal de Israel, que pisam tanto o metal extremo como o metal progressivo. Formamo-nos por volta de 2005 e até hoje já lançámos dois álbuns, o último dos quais saiu muito recentemente via Massacre Records e é intitulado Against All Good and Evil. Este álbum representa-nos na nossa forma mais pura com barragens metálicas que vão desde o lado mais melódico ao mais brutal.

Como referiste, Against All Good And Evil é já o vosso segundo lançamento. De que forma ele representa o vosso crescimento como banda?
Uma comparação entre Against All Good And Evil com o nosso álbum de estreia, Violence Divine poderia ser resumida numa frase simples: melhor, mais difícil, mais técnico e mais progressivo, mais brutal e mais melódico todos ao mesmo tempo. Enquanto Violence Divine foi a nossa forma de estabelecer o nosso som e assinatura musical, mesmo que tenha tido pouca distribuição na Europa e por isso se tenha tornado numa espécie de joia rara, Against All Good And Evil atreve-se a andar vários caminhos diferentes. Apesar de músicas como Turning Shears To Swords ou Buried By The Light poderem ser reconhecidas como uma continuação direta de Violence Divine outras músicas como Unmake You, Against All Good e Against All Evil são completamente diferentes umas das outras. Não é uma completa inversão de marcha na nossa direção musical, mas não nos comprometemos para um som único, por isso adicionámos alguns ingredientes mais.

Após esta descrição, como descreverias Against All Good And Evil?
Uma vez que nós, realmente, não nos vemos como a banda de death metal melódico vulgar, não consideramos Against All Good And Evil, como apenas um trabalho clássico dentro do género. Tentamos pensar a nossa música como uma combinação entre o metal tradicional, seja de metal progressivo ou thrash metal, com os elementos extremos da cena americana de Death Metal do início e meados dos anos 90, Ou seja, os Death podem ser considerados como a nossa principal inspiração. Mais até com a parte final da carreira dos Death numa altura em que tendiam a ser mais melódicos e mais progressivo. Aliás, nenhum álbum dos Death pode ser considerado de death metal melódico. Eles eram mais do que isso e nós tentamos ver os nossos álbuns um pouco como portadores do legado musical de Chuck Schuldiner, juntamente com outras bandas incríveis como Decadence, Revocatyion e Arsis. Cada um de nós leva a música dos Death para uma direção diferente. Em Against All Good And Evil tentamos enfatizar tanto a secção rítmica como o trabalho de guitarra. Claro, pisamos terrenos de Testament, Decapitated, Opeth e Arch Enemy e queremos isso. Em resumo é um álbum de metal extremo e complexo para fãs de metal extremo e complexo.

O facto de estarem numa editora como a Massacre trouxe-vos algum tipo de pressão para fazerem um álbum ainda melhor, ou não?
Eu acho que é natural que cada banda se tente superar quando se trata de fazer novos discos. Algumas bandas assumem essa missão realmente nos seus corações e mentalidades. Machine Head, The Haunted, Symphony X e Exodus são bandas que só nos últimos dois anos fizeram algumas alterações importantes na sua abordagem musical com ou sem o apoio de uma grande editora. Depois de algumas obras-primas metal moderno, como The Blackening ou Eye The Dead, as pessoas vão esperar mais dessas bandas e daí a necessidade de se entregarem ainda mais. Alguns conseguem, outros nem tanto, mas numa escala diferente, tentamos fazer o mesmo também. Realmente ficámos orgulhosos com o nosso álbum de estreia, quando ele saiu, mas desde essa altura que a única coisa que tínhamos em mente era tentar superá-lo. Eu acho que Against All Good And Evil responde não apenas ao "Como?" mas também o "Porquê?".


E o facto de serem israelitas, de alguma forma afeta a maneira de criar música ou escrever as letras?
Sim, é claro. Não se pode negar a própria origem. Na realidade, não importa que tipo de ponto de vista político cada um de nós defende, mas o facto de ser israelita é frustrante para a maioria, senão todas, as bandas de metal de Israel. Estar cercado por países que não apoiam qualquer música alternativa ou metal ou simplesmente ser odiado pelo simples facto de se ser de um país específico, por outro lado, não joga muito a nosso favor. E isso é mau. Eu adoraria tocar com bandas incríveis como Nervecell ou Myrath. Ambos vieram de países islâmicos e são bandas excelentes e espero que o dia em que a política fique fora da cena heavy metal não esteja muito longe. Mas há outras dificuldades que se levantam pelo simples facto de se viver em Israel, desde a elaboração obrigatória até à falta de equilíbrio político verdadeiro na área. E estes temas influenciaram altamente o nosso álbum de estreia, mas desta vez decidimos manter Against All Good And Evil limpinho da política e concentramo-nos apenas em conceitos filosóficos.

Então, existirá algum conceito em Against All Good And Evil?
Não por trás do álbum como um todo, mas mais por trás das duas faixas-título. Against All Good é o conceito de se manter contra o conformismo da sociedade, tendo o seu stand na formação do seu próprio mundo com a esperança e o pensamento de torná-lo um lugar melhor, enquanto o Against All Evil é sobre como inútil tal ativismo será a longo prazo e como a moral moderna não pode ser julgada por restrições sociais e filosofias. Mas para além disso, com exceção talvez de Treachery, a faixa de abertura do álbum - cada música lida com um assunto diferente. Tentamos seguir o rasto de gigantes, é claro. Nem Master Of Puppets ou Countdown To Extinction foram realmente "álbuns conceituais". Claro, eles tinham a sua atmosfera, mas nós esperamos atingir esse ponto também.

O álbum foi gravado na Polónia, nos místicos Hertz Studios. Podes falar-nos dessa experiência?
Em poucas palavras? Frio e desafiador. Não estava previsto gravar nos Hertz Studios, sempre esperamos gravar as músicas em 3 ou 4 takes, como fizemos com o nosso álbum de estreia com o maestro Jacob Hansen. Mas Wojtek e Slawek fizeram-nos correr pelo nosso dinheiro! Sempre que fazíamos algo mal, tínhamos que fazer tudo de novo e Against All Good And Evil é mais complexo e técnico que Violence Divine, por isso não tivemos muito tempo para fazer outras coisas. Tivemos que trabalhar arduamente para poder fazer as coisas a tempo. Mas ficamos contentes porque conseguimos. Foi quase no limite, mas conseguimos. Bem e a Polónia é superfria. E disseram-nos que tínhamos ido numa altura de calor inesperado! Bem, nós somos do médio oriente. Estávamos congelados!

Ainda antes dos Prey For Nothing alguns membros tinham tocado com o ex-Iron Maiden, Paul Dianno. Como foi essa experiência?
Eu não estava entre os que fizeram parte desse momento, mas Yaniv (guitarra), Amir (baixo) e Iftah (bateria) ainda se lembram desses espetáculos. Foi uma pequena tournée em Israel com vários shows onde tocaram como banda Dianno, que abrange não só as músicas dos dois primeiros álbuns dos Maiden, mas também grande parte da própria carreira do Dianno. Bandas como Battlezone percebes? Um trabalho esotérico que não se encontra em lado nenhum a não ser em alguns buracos da web. O próprio Dianno, segundo me contaram, era um companheiro com temperamento quente e com razões para isso. O seu trabalho vocal foi muito menos impressionante do que nos álbuns clássicos, mas ainda era Paul Dianno, que diabo!

Ainda mantém o contacto com ele?
Bem, não. Enviamos-lhe alguns mails há alguns anos e ele nos disse-nos que ainda se lembrava de nós e que os espetáculos em Israel tinham sido muito emocionantes, mas nada mais que isso. O homem é uma máquina de rock'n'roll vivo - com todos os prós e os contras. Ele não perde tempo preso a emoções da sua vida, sabes. Ele realmente vive como um verdadeiro herói do metal até o osso - com bebidas e festas. Por isso torna-se mais difícil de se manter o contato. Isso é Paul Dianno.

Quem fez o artwork para Against All Good And Evil?
A obra foi feita por Paul Gerrard, um designer que trabalha na indústria cinematográfica em Hollywood (de filmes como District 9 e Battle Of Los Angeles. Iftah, o nosso baterista, entrou, quase por engano, na sua galeria e pediu-lhe para fazer o trabalho e ele mostrou-se feliz e disposto a fazê-lo. O resultado saiu incrível. Aquela coisa… que combina não só as fações do bem e do mal, mas na verdade, também uma terceira fação tecnológica que representa os meios de comunicação social, foi simplesmente brilhante. Nós chamamos essa coisa do Tapoode (batata em hebraico). Viva o Tapood!

A terminar, o que esperam os Prey For Nothing para este novo ano?
Esperemos fazer uma tournée Europeia. Tínhamos algumas ofertas, mas elas vieram cedo demais e não estávamos preparados, os voos não estavam prontos e tudo isso. Se pudéssemos fazer algumas aparições em festivais seria muito bom. Até lá resta-nos esperar mas fazer algumas tournées é o nosso principal objetivo agora.

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