Entrevista: Darkside Of Innocence

Com Infernum Liberus EST os Darkside Of Innocence marcaram forte a sua posição no panorama metálico nacional. Agora, após alguns momentos algo conturbados no seio da banda, o regresso faz-se, citando o próprio Pedro Remiz, como um novo renascer na forma de Xenogenesis. Confiram.

Antes de mais, obrigado por aceitarem conversarmos de novo. Já se passou muito tempo desde Infernum Liberus EST. O que fizeram neste longo período?
Saudações. Obrigado eu pelo interesse e por mais uma conversa com a Via Nocturna. De facto passou-se algum tempo e muita coisa mudou desde essas eras mais remotas. Várias mudanças de line-up, alguns lançamentos pelo meio e um novo renascer do projeto que me deixa bastante entusiasmado.

Pegando no caso das mudanças de line-up, como foi feita a gestão desse aspeto e que influência teve no processo de escrita?
É sempre difícil ultrapassar uma mudança de line-up. Primeiro porque fica sempre um gosto amargo graças a um hábito que terá de ser mudado. Um membro antigo é sempre parte de uma rotina que gera confiança a vários níveis e, quando este por algum motivo tem de abandonar o projeto, instaura-se uma instabilidade que pode muitas vezes levar à ruína das bandas. Contudo e ainda assim, abrem-se sempre novas portas se formos capazes de nos adaptar. No caso dos Darkside, a última hipótese foi exatamente o que se passou. Connosco quando houve mudança de line-up, posso dizer pela experiência que tenho, que sempre foi para melhor no sentido em que novas ideias surgem e isto acaba por dar uma lufada de ar fresquinho ao que se compõe.

E como foi a preparação para Xenogenesis?
Teve duas frases cruciais: uma importantíssima que infelizmente acaba por ser o culminar e o respetivo dispersar de um coletivo que trabalhou durante quase sete anos intensamente e outra muito mais prematura, que demonstra no entanto, e a meu ver, um renascimento de um projeto agora bem mais maduro, dada a visão do seu mentor sobre o mundo atual. Aliás, é possível mesmo constatar estas diferenças nas músicas apresentadas, tanto na qualidade sonora, como na sua composição.

Entrando já em Xenogenesis, este é um trabalho que gerou em mim uma série de questões para a banda. Em primeiro lugar, porque reduziram tão drasticamente o tamanho dos temas?
Quando fazemos música, não pensamos no tempo de duração que este possa ter. A razão pela qual fazíamos temas compridos era porque, na altura e a nosso ver, havia sempre uma peça que faltava encaixar. Um riff leva a outro, depois a outro e às tantas tens uma música de doze minutos que demorou um ano a ser feita. Os Darkside of Innocence de hoje em dia, olham para a música de uma forma mais simples e direta, de modo a que o processo de composição não seja tão cansativo e frustrante – uma das razões que levou à separação dos integrantes do projeto.

Outra coisa: Cerberus sempre apresentado como um sigle extraído do disco aparece de uma forma camuflada. Como (ou porque) aconteceu isso?
O tema está lá, mas dividido em três. Passo a explicar: é um tema enorme. Exatamente por isto, tenho a noção de que todos os pormenores lá existentes em que trabalhámos arduamente acabaram por se perder na complexidade e longevidade da música. Não é isso que pretendemos e por isso achei por bem cortar o tema em três partes e deixar que cada uma contasse a sua própria estória. Na altura do lançamento enquanto single, essa já era a minha ideia mas não se acabou por concretizar.

Este disco aparece com uma produção muito fria, muito crua. Era esse o vosso objetivo?
Não, de todo. Foi a qualidade com que tivemos a oportunidade de trabalhar. Pessoalmente agrada-me, mas futuramente quero passar a ver este detalhe com mais atenção. Já tenho em mente fazer um novo registo e se tudo correr bem, será gravado num estúdio decente com o novo line-up.

Para além do que, eventualmente, já foi abordado, que semelhanças ou diferenças podes apontar para o trabalho de estreia?
Podia pegar em tanta coisa e às tantas nunca mais saíria daqui. À medida que vamos descobrindo o fantástico mundo de Sophia e vamos juntando as peças que constroem este glorioso espaço abstrato, distanciamos-nos em muito do que fomos e do que vamos ser. A forma como olhamos para a música não tem nada a ver com o que fomos outrora. Aquilo que pretendemos fazer não tem nada a ver. A expectativa que temos disto não tem nada a ver. Todos estes fatores se refletem na sonoridade e numa possível abordagem temática que a banda possa ter. O que permanece são resquícios de uma mentalidade que apesar de tão diferente porém intacta - já que a pessoa que trouxe à vida os Darkside of Innocence é a mesma – acabam por atribuir aos Darkside of Innocence uma identidade muito própria.

Em termos temáticos, que assuntos são abordados neste trabalho? Parece-me muito virado para a mitologia.
Não é muito mitológico, ainda que em primazia todo este registo tivesse um romance épico de proporções mitológicas inerentes à sua conceção. É um disco que no fundo acaba por ser pouco conceptual e sem um sentido pensado para o seu todo. Cada tema retrata o aspeto de uma transcendência espiritual à sua maneira. Xenogenesis é o ascender do nosso estado atual para a posição de entes quase god-like. Especificamente passa desde questões existencialistas e niilistas, ao escrutinio das nossas motivações mais íntimas e à possível evolução do ser humano, enquanto animal irracional que ainda é.

Para esta edição aparecem referências à Grailight Productions e Infektion Records. De que forma é feito este complemento?
A Grailight Productions nada teve a ver com o lançamento de Xenogenesis. Fez alguma promoção da Cerberus aquando do seu lançamento via digital, mas não passou daí. A Infektion Records é que está encarregue a 100 por cento deste lançamento e espero que de muitos outros futuramente.

O que já está a ser preparado/feito em termos de apresentações ao vivo?
Atualmente, o que está a ser feito e o que é necessário levar a cabo antes de falar na participação de eventos, é resolver os conflitos internos que foram deixados com a desistência de grande parte dos integrantes do projeto e que constituíam o núcleo deste. Estou a reunir uma equipa de pessoas que está a trabalhar já no sentido de levar o projeto a ter um cerne sólido, como nunca tivemos antes. Quando esses problemas mais elementares forem solucionados, então aí sim, serão feitas as preparações necessárias para atuações ao vivo. Posso no entanto confessar que anseio esse desejado regresso aos palcos.

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