sábado, 28 de julho de 2012

Entrevista: Prayer


Sete anos de silêncio estiveram os Prayer. Agora, com um line-up renovado e uma dinâmica diferente, Tapani Tikkanen regressa aos originais com Danger In The Dark, um álbum lançado via Escape Music. O simpático guitarrista e vocalista finlandês revelou-nos algumas histórias curiosas e amargas, ligadas ao futebol e à música.

Viva! Obrigado Tapani por teres destinado algum tempo a responder a Via Nocturna. Novo álbum e novo line-up. Excelente momento para os Prayer atualmente?
Sim, esperemos que sim! E depois de tudo, estamos muito felizes que o álbum esteja finalmente concluído e lançado. Muitas coisas aconteceram desde o primeiro álbum. Eu acho que a altura é sempre ideal para a boa música, música de verdade com músicos e instrumentos verdadeiros, não achas? Tenho a sensação de que este é um bom momento para nós, há muitas canções fortes no álbum, a capa é fantástica e acredito que estabelecemos o nosso próprio estilo, não soamos como as restantes bandas.

E porque razão um intervalo de sete anos?
Como eu disse, muitas coisas aconteceram. Tens dez horas disponíveis? Ok, eu vou tentar ser sucinto. Após o primeiro álbum a sensação foi boa, fizemos alguns espetáculos, tivemos algumas grandes reviews, algumas más também, mas no cômputo geral o primeiro álbum correu bem. Mas depois as coisas começaram a mudar quando começamos a ensaiar material novo. Surgiram diferenças, conflitos pessoais e ilusões erradas a respeito deste negócio e assim por diante. Foi muito frustrante e dececionante para mim. Ainda fomos para os Soundmix para gravar o segundo álbum e, de facto, chegamos a terminar o trabalho, tivemos a obra pronta e tudo, mas depois as coisas pioraram e eu decidi acabar com a banda e parar tudo. Eu não quis publicar o álbum, e sim, aí foi mesmo o final. Levei algum tempo a pensar nas coisas, sabia que iria formar uma nova banda mais cedo ou mais tarde mas não tinha pressa. Sabia que as músicas iriam esperar, que não desapareceriam em qualquer lugar! Também me concentrei na minha família e nos meus filhos, que jogam futebol de alta competição e passam muito tempo a viajar para torneios e jogos. Bem, o tempo voa, como sabes, mas depois de um par de anos entrei em contato com Jukka Ihme e fomos tentar algum material novo com os seus amigos. Ele sentiu-se bem e decidimos que quando fosse a altura ideal faríamos algo juntos. Jukka é um grande guitarrista e já o conhecia antes, porque ele nasceu na mesma cidade que eu e confiava nele completamente. Estava consciente que desta vez só iria trabalhar com pessoas humildes e que sabem de onde vêm. Chegados aqui, fomos tocar e fazer arranjos para três canções que era suposto estarem no álbum que nunca foi lançado. Levei algumas coisas novas e, finalmente, em novembro passado, tive uma reunião com Mika Pohjola e decidimos começar as gravações em dezembro. Eu conheci Mika há quase 30 anos, ele é um velho amigo e estava muito feliz com o projeto como um todo. Arranjámos um baterista fantástico, Matti Torro, que toca com os Myon como Mika. Também trouxe o meu filho mais velho Valtteri para tocar algumas partes de guitarra e alguns teclados. Ele tem apenas 14 anos, mas foi uma experiência maravilhosa para ele, gravar um álbum real num estúdio real. Finalmente chegamos. O álbum está terminado e lançado e depois de tudo, nós todos estamos muito felizes e satisfeitos. E tenho certeza que não vai demorar outros sete anos para fazer outro... dou-vos a minha palavra!

E como descreverias Danger In The Dark?
Bem, antes de tudo quero que todos entendam que eu, em primeiro lugar, sou um compositor. Eu escrevo canções. Eu escrevo todos os tipos de canções e isso depende do sentimento. Quando estou triste ou feliz ou frustrado, ou qualquer outra coisa, eu pego na minha guitarra e começo a tocar… e nunca se sabe o que sai, é isso. Estas dez canções deste álbum novo são dez músicas diferentes. Não tento seguir tendências, acho que essa é a maneira como a minha música sai e eu tento o meu melhor para que as músicas soem como deveriam. Eu sei sobre o que canto e não tento mais nada. Este álbum é um dos melhores álbuns que eu já fiz, talvez o melhor. Estou satisfeito com todo o conjunto, acho que é um álbum muito maduro, que é feito profissionalmente, onde há muitos detalhes nos arranjos e não é superproduzido. Tem que se crescer com este álbum, deixar que as músicas se abram para o ouvinte e ouvi-las cuidadosamente. Devem ler bem as letras também, porque elas significam muito para mim e em muitas canções existem belas peças de poesia. Por exemplo, Livin´ Ain´t Livin’,  It´s Not The End  (a minha favorita) e  Heart Wants You To Rock. De verdade, eles são tocantes. Eu tenho orgulho neste trabalho e a certeza de este trabalho não ser apenas mais um registo. Estas são as canções que gravei neste momento; da próxima vez pode ser diferente!

Por falar de letras, quais são os principais tópicos abordados?
Bem, poderás verificá-los e descobrir por ti próprio, mas há alguns pontos importantes que quero referir. Principalmente as letras são positivas e, mesmo quando os tempos são difíceis, devemos ser positivos e tentar ver o lado positivo. Como em Never Let Your Dreams Die acho que isso diz tudo, certo? Eu também falo sobre a autoconfiança e acreditar em si mesmo e nos seus sonhos, não se preocupar em demasia com as outra pessoas, não tentar agradar a todos, porque é uma tarefa impossível. Eu nunca irei cantar sobre política ou coisas melosas como “eu amo-te”. Mas devo dizer que nunca vais saber que tipo de ideias podem surgir quando se escreve uma nova canção, nada está escrito na pedra.

Este trabalho tem um excelente artwork. Quem foi o responsável?
Khalil Turk e a Escape Music! Eles têm os seus próprios profissionais e realmente sabem o que fazem! Fantástico!

Como decorreu o processo de gravação de Danger In The Dark?
Como eu disse antes, muitas coisas aconteceram antes mesmo de ir para estúdio. As mudanças line-up, o timing, etc. Mas quando finalmente fomos para estúdio tudo estava bem mas tivemos alguns problemas. Começamos em dezembro e terminamos em maio. Todos nós temos os nossos trabalhos e íamos para estúdio quando tínhamos tempo livre, duas ou três vezes por semana à noite. Às vezes ficávamos lá 8 horas, outras vezes apenas duas ou três horas por dia. Mika é o único de nós que se dedica à música a tempo inteiro. Ele trabalha nos Soundmix e sem a sua ajuda e empenho tudo isso teria sido muito mais difícil. Jukka e Matti são também músicos muito experientes e com quem é fácil trabalhar. Divertimo-nos e tivemos uma atmosfera muito descontraída. Ninguém tem quaisquer ilusões ou fantasias estúpidas sobre o negócio e isso é bom. Há um conjunto de pequenos erros do álbum, mas não quero tudo polido como das outras vezes. A canção não ficaria melhor depois, é o que é.

Achei curioso que tenhas gravado quatro álbuns para uma equipa de futebol, o F. C. Rainbow. Podes explicar esta história?
Eu sempre adorei futebol e quando era criança costumava jogar nas equipas da escola, mas depois que música tornou-se a parte mais importante da minha vida. Eu ainda jogo de vez em quando como hobby na quarta ou quinta divisão. Gosto e ajuda-me a manter a boa forma. Em 1990, após o Campeonato do Mundo estava a tomar café com os meus amigos e a falar de futebol... e de repente alguém disse: Ei, vamos formar uma equipa nossa e só para músicos e roqueiros de verdade! E foi assim que começou e logo tivemos cerca de 15 jogadores a jogar futebol como loucos e a divertirmo-nos! Nós jogamos por diversão uma vez por semana e participamos em alguns pequenos torneios sempre por diversão. Depois tive a ideia que devíamos ter uma música como muitos clubes têm, ter o nosso próprio hino. Assim, escrevi-o, toda a gente gostou e logo escrevi outro. Então pensei em fazer todo o álbum! Um álbum cheio de canções de futebol, sobre a nossa equipa, sobre incidentes loucos que aconteceram, um monte de autoironia... enfim, sabes o que eu quero dizer. Ao todo escrevi quatro álbuns completos para o FC Rainbow, todos em finlandês, cheios de ironia, humor e todos os tipos de sentimentos que acontecem num jogo de futebol. As lágrimas de alegria e as amargas derrotas. Tenho escrito músicas sobre as garrafas de água, os adeptos, o ataque, marcar golos, jogar contra uma equipa de meninas, sobre longas viagens, hotéis, pontapés livre, ser suplente, ganhar um jogo quando chegas a estar a perder por 3-0, enfim, sobre tudo. Posso garantir-te que tem sido muito divertido. Na Finlândia, existe um campeonato para este tipo de equipas de espetáculos e negócios, temos participado muitas e muitas vezes e até já ganhámos algumas medalhas, mas o principal nestes acontecimentos é a diversão e a reunião de amigos.

Já alguma tournée planeada para promover Danger In The Dark?
Não, não neste momento mas é muito improvável que façamos alguns shows este ano. Todos nós temos os nossos empregos e famílias e seria muito difícil agora. Talvez no futuro, nunca se sabe que tipo de oportunidades podem aparecer.

A terminar, queres acrescentar mais alguma coisa para os nossos leitores?
Bem, espero que todos se divirtam este verão, comprando o nosso álbum e colocando-o a tocar bem alto nos vossos apartamentos, de modo que cada vizinho o vá comprar, também! Aumentem o volume do som dos vossos carros também e gritem da janela para todos nas ruas: nunca deixem os vossos sonhos morrer. Obrigado e tudo de melhor.

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