segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Review: Schuld (Molllust)

Schuld (Molllust)
(2012, Independente)
 
Aparecer um grupo que claramente se autoapelida de executantes de opera metal pode parecer presunção. Principalmente se esse grupo se estreia em termos de edições discográficas. Mas podem ficar cientes que Schuld, esta tal estreia, dos Molllust, o tal grupo de opera metal, não deixa os créditos por mãos alheias e cria um trabalho que consegue, simultaneamente atingir dois polos bem distintos e distantes. Se por um lado temos guitarras possantes com riffs pesados e uma secção rítmica forte, por outro lado temos as vocalizações soprano e os instrumentos clássicos como piano, violino e violoncelo a imprimir toda a ambiência sinfónica e operática. O que acontece durante os 11 temas de Schuld, todos vocalizados na língua mãe dos Molllust, o alemão é o cruzamento de algumas das maiores referências do género. Naturalmente, em termos vocais, todos os sentidos apontam para Tarja Turunen embora as influências sinfónicas, em termos instrumentais, estejam mais próximas do trabalho dos Therion. Também merece especial atenção o soberbo trabalho do piano, com a criação de brilhantes linhas que muito lembram o trabalho dos Myriads. No entanto, onde Schuld mais brilha é quando cria duetos com os vocais masculinos. Fugindo à fácil tentação do tradicional a “bela e o monstro”, os Molllust utilizam as vozes masculinas também com contornos de tenor, parâmetro que se revela fundamental para aumentar a qualidade de um disco já de si muito bem conseguido. O primeiro dueto surge em Lied zur Nacht e repete-se em outros temas como Puppentanz, Tanz der Feuers e Shatten. E, curiosamente é também nestes temas que a banda consegue as melhores e mais interessantes linhas melódicas. Noutras áreas, Alptraum revela-se como a faixa mais pesada, Spiegelsee a mais rápida, Erinnerrungen a que consegue introduzir maior variabilidade, tendo simultaneamente uma das partes mais rápidas alternadas com outras mais calmas e sinfónicas e, finalmente, Kartenhaus, com uma interessante incursão pelo experimental. Sem dúvida que é neste cruzamento entre as bases fortemente metalizadas e os arranjos mais operáticos e sinfónicos que reside muito do interesse de Schuld. Depois a já referida capacidade de variar de tema para tema, criando uma certa dose de imprevisibilidade, ajuda a que este trabalho dos Molllust se possa considerar como uma excelente estreia.
 
Tracklist:
1.      Ouverture
2.      Sternennacht
3.      Alptraum
4.      Aufwind
5.      Spiegelsee
6.      Lied zur Nacht
7.      Puppentanz
8.      Tanz der Feuers
9.      Erinnerrungen
10.  Shatten
11.  Kartenhaus
 
Lineup:
Janika Groβ – vocais, teclados
Frank Schumacher – vocais, guitarras
Johannes Hank – baixo
Ronny Garz – bateria
Lisa Hellner – violoncelo
 
Convidados:
Sandrine Bisenius – violino
Richard Killisch – violoncelo
Thomas Prokein - violino
 
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domingo, 30 de dezembro de 2012

Review: Not Different But Not The Same (CCA)

Not Different But Not The Same (CCA)
(2008, Independente)
 
CCA é um novo projeto em que Linda Cushma (dos Oxygene8) aparece acompanhada de Guillermo Cides e Tim Alexander, para além de um conjunto de convidados. E para aqueles que acharam Loop1 um trabalho arrojado e ambicioso, pois bem, sempre vos digo que este Not Different But Not The Same ultrapassa todos os limites, desafia todas as normas e inverte todos os conceitos. Claramente menos orientado para o hard rock, com menor enfâse nas guitarras, CCA é, por outro lado, ainda mais inovador, ainda mais experimental, ainda mais estranho. O projeto recupera dois temas do EP Freak Of Chance dos Oxygene8, Close Your Eyes e o tema título e estes até acabam por ser os elementos mais musicais entre um vasto conjunto de temas complexos em que a música contemporânea se cruza com o jazz/fusão e com alguns momentos atmosféricos. Frenético em alguns momentos (Half The World e The Number Song são os mais vincados exemplos), o contrabalanço é feito com corais angélicos (Woman In Horseback), com a utilização de guitarra clássica (I’ll Be There), com elementos narrados (Sonambula) e outras passagens atmosféricas aleatoriamente espalhadas pelo disco. The Number Song é um dos pontos altos do disco com a conjugação de ritmos verdadeiramente alucinantes com um assombroso devaneio técnico jazzístico. Trata-se de um tema onde a inspiração e o jamming andam de mão dada de uma forma impressionante. Como aliás, acontece, de uma forma mais ou menos evidente ao longo de todo este disco inovador, pouco ortodoxo, arrojado e ambicioso. Mas também um disco que exige alguma predisposição para a sua audição e uma clara abertura de mente.
 
Tracklist:
1.      Crazy Beautiful Life
2.      Close Your Eyes
3.      Half The World
4.      I’ll Be There
5.      Danza
6.      Helens Mountain
7.      Sonambula
8.      The Number Song
9.      Woman In Horseback
10.  Amor de Bandoneon
11.  Not Different But Not The Same
 
Lineup:
Linda Cushma – vocais, baixo
Guillermo Cides – guitarras, teclados
Tim Alexander – bateria
 
Com:
Steve Perish –vocais
Tony Levin – baixo
Gayle Ellet - teclados
Nan Mercader – percussão
Uncle Jim – spoken word
Helen – spoken word
Fatimah Halin - corais
Mariano Henriquez – guitarras
Trey Gunn - guitarras
Federico Miranda – guitarra solo
 
Internet:

sábado, 29 de dezembro de 2012

Entrevista: Dave Kilminster

Guitarrista de eleição, chegou a ser galardoado com o prémio Guitarrista do Ano atribuído pela Guitar Magazine, Dave Kilminster tem construído uma carreira de grande reputação acompanhando diversos músicos, sendo o mais conhecido Roger Waters. O músico já se havia aventurado em gravações em nome próprio com um trabalho de guitarra clássica lançado há 17 anos, mas, este Scarlet – The Director’s Cut acaba por ser considerado como a sua estreia nos meandros do rock.
 
Viva Dave! Antes de mais, parabéns pelo teu excelente álbum e obrigado pelo teu tempo para Via Nocturna.
Obrigado ... é um prazer!
 
A primeira pergunta é: com o teu currículo, por que só agora gravares um álbum em próprio nome?
Hahaha ... essa é uma pergunta muito boa! Acho que tenho andado ocupado a ajudar as carreiras de outras pessoas! Não, a sério, eu sempre quis gravar a minha própria música, mas simplesmente nunca tive tempo. Mas agora estou a construir esse tempo…
 
Chegaste a afirmar que Scarlet – The Director’s Cut é o reflexo de toda a música com que cresceste. Podes citar alguns exemplos? Quem nomes mais admiras, que se refletem em Scarlet?
Acho que as minhas influências mais fortes na minha fase de crescimento vieram da rádio. Hoje temos programas de rádio especializados... Estações de rock, estações de jazz, estações de música de dança, estações de country. Mas antes só havia um tipo de estação e todos os estilos diferentes de música surgia juntos! Assim, durante uma tipica transmissão de três horas, ouviam-se bandas e artistas como Queen, Fleetwood Mac, Al Green, 10cc, Stevie Wonder, AC / DC, Bob Marley, Steely Dan, The Eagles, Wings, Black Sabbath, The Detroit Spinners, Billy Joel, Supertramp, Led Zeppelin, Joni Mitchell, George Benson, Bread, The O'Jays, The Carpenters, The Hollies, Free, David Bowie, ELO, The Jackson 5, Elton John, Deep Purple, Heatwave, Simon & Garfunkle, The Police, etc, etc, etc. Também passava horas a ouvir o meu tio Tony tocar piano e ele tocava qualquer coisa de Scott Joplin a Debussy... E eu gostava de tudo!! Para mim, era tudo simplesmente música e está tudo em algum lugar de Scarlet!
 
Quanto à escolha do termo Scarlet para o título, parece-me que não foi por acaso…
É apenas uma palavra que eu gosto... Eu sou um grande fã de Sherlock Holmes e a determinada altura estava para chamar o álbum de Um Estudo em Vermelho, um dos livros de Sir Arthur Conan Doyle. E também é uma cor muito sugestiva. Numa recente pesquisa, descobriram que a maioria dos homens, quando vê uma mulher vestida de vermelho/escarlate, acho que são ... ummm ... andam à procura de tempo bem passado e estão mais propensos a dormir com elas! Haha… E é também sinónimo de "perigo", mas acho que é muito quente e reconfortante. O que provavelmente será uma referência subconsciente do período uterino.
 
Como foi a escolha dos músicos que te acompanham neste álbum?
Isso foi muito fácil. Quando comecei a trabalhar em conjunto com Keith Emerson, ele disse-me "encontra o melhor baixista e baterista que conheces e vamos formar uma banda!". Então chamei imediatamente Pete Riley e Phil Williams. Já tinha tocado com os dois separadamente em diferentes projetos, embora eles nunca tenham tocado juntos nem se conhecessem. Na realidade esperava que eles trabalhassem bem juntos, mas superaram todas as minhas expectativas e acabou por ser uma secção rítmica incrível! Para além de serem as pessoas mais simpáticas que conheço. Portanto, quando chegou a altura de gravar o meu próprio álbum chamei-os logo!
 
Tens a colaboração da Lydian String Quartet em várias músicas. Deste-lhe instruções precisas de seriam as suas partes ou deste-lhe total liberdade para criarem as suas peças?
Escrevi todas as peças para eles... Mesmo o solo de violoncelo em Harkness. Realmente, nunca tinha trabalhado com cordas antes, mas foi uma grande emoção poder escrever o que ouvia na minha cabeça e tê-los a ler e reproduzir as peças na perfeição... Foi ainda melhor do que eu imaginei! E são definitivamente uma das minhas memórias favoritas do processo de gravação do álbum. Até estava na régie a dirigir com uma batuta imaginária!
 
Já que falamos de convidados tiveste ainda mais dois. A vocalista Anne-Marie Helder e o guitarrista Jamie Humphries. Qual foi o seu papel no álbum?
Bem, eu já tinha trabalhado com a Anne antes (gravei e fui o engenheiro no seu álbum a solo The Contact) e ela tem uma voz tão incrível, que eu sabia que a queria no álbum em algum lugar... Especialmente em Liar, que é uma história sobre um amor de ratos professando a sua inocência, e, obviamente, a resposta do coro precisava ser feito por uma voz feminina! Quanto a Jamie, na verdade só o contactei para ajudar com a mistura final... Mas realmente entrou no álbum, começou a sugerir ideias de produção e acabou por fazer algumas guitarras adicionais! Ele deu-me uma ideia, eu disse: "ok, isso soa bem… Podes gravar depois"! E ele fê-lo! Obviamente ele é um grande guitarrista... Embora no momento em que começámos a trabalhar juntos no álbum não houvesse muito espaço!
 
Podes falar-nos do processo de gravação? Parece que tiveste um monte de experiências novas…
Sim, houve uma certa quantidade de tentativa e erro. Na realidade fiz demos de todas as músicas, tocando-as nos teclados e gravando-as num Korg Triton. Depois mandei-as para o Pete que gravou a bateria e transmitiu as faixas para o Phil gravar o baixo. Mas durante esse tempo nós três também ensaiamos para alguns espetáculos europeus com Keith Emerson. De qualquer forma, começamos a ensaiar uma tarde e decidimos gravar. E, mais tarde, quando ouvi no meu carro pensei 'isto soa totalmente incrível’! Existe algo quando se grava música ao vivo, quando todos estão juntos numa sala. Uma faísca extra de energia que simplesmente não pode ser obtida de outra forma. Então apaguei tudo o que já tínhamos gravado (!), e começámos de novo, desde o início! E gravamos todos os ritmos ao vivo no estúdio!
 
Tu és mais conhecido como o guitarrista de Roger Waters. Este álbum é uma espécie de prova a ti próprio de que também podes criar e lançar boa música em teu nome próprio?
Bem eu gravei um álbum instrumental de guitarra clássica há 17 anos atrás chamado Playing With Fire (está no iTunes!). Mas eu sempre escrevi a minha própria música... É por isso que eu pego na guitarra em primeiro lugar! Mas esta foi a minha primeira oportunidade de gravar um álbum de rock.
 
Falando de Roger Waters, ainda tocas com ele, certo? Terás tempo para fazer uma tournée própria?
Sim, é claro que eu ainda toco com Roger. Temos mais alguns espetáculos de The Wall – Live no próximo ano na Europa (de julho a setembro, as datas estão todos em www.rogerwaters.com caso estejam interessados!), mas espero gravar outro álbum a solo com Pete e Phil antes. Em princípio irei gravar no início do ano, fazer os espetáculos com Roger no verão, e depois talvez sair em tournée em meu próprio nome no Outono... Quem sabe... Fazemos planos e Deus ri!
 
Com toda a experiência em tournées com grandes músicos, posso perguntar-te qual te deu mais prazer fazer?
Uau, isso é uma pergunta muito difícil de responder... Acho que realmente não posso compará-las, uma vez que foram radicalmente diferentes. Adoro as tournées que fiz com o Roger, são incríveis, um show alucinante... É quase como estarmos a fazer história e as pessoas continuam a dizer-me que é o maior espetáculo que já viram! Por isso, acho que estamos a fazer a coisa certa!! Em seguida, o outro extremo é quando saio e toco com o meu bom amigo Murray Hockridge, onde são apenas duas guitarras e duas vozes. Este é uma situação extremamente emocional, em que estás totalmente nu e exposto. Mas é a criação de uma música bem sincera e apaixonada. E depois, claro, as tournées que fiz com o meu bom amigo Guthrie Govan também foram totalmente incríveis. É realmente estar de volta ao básico, apenas um conjunto de pessoas numa carrinha a percorrer milhares de quilómetros em toda a Europa, criando a nossa própria engrenagem e tocando essa música ridiculamente complexa, mas muito emocional e cheia de vida, humor, interação e improvisação. Isto sem mencionar a tournée com um dos heróis da minha infância Keith Emerson, tocando e cantando a música que eu ouvi quando crescia. Na realidade, adorei todas as tournées em que participei, todas elas são muito especiais para mim e aprendi com cada situação.
 
Já foi há muito tempo atrás, que recebeste o galardão de Guitarrista do Ano da revista Guitar Magazine. Foi em 1991, certo? O que sentes agora, olhando para trás para tudo que construíste como músico e, em particular, para esse reconhecimento?
Olhando para trás, estou muito feliz e orgulhoso do que tenho feito até agora. E também sinto muita sorte em ter trabalhado com todos esses músicos incríveis. Mas, na verdade, não gosto de olhar para trás muitas vezes! Prefiro muito mais concentrar-me onde eu estou e para onde vou. E, de momento, estou realmente animado com a nova música que já estou a escrever para o meu próximo álbum! Também vou lançar um álbum acústico em CD que gravei com Murray Hockridge chamado Closer to Earth. Ele já está disponível no iTunes, mas estou a tentar fazer o lançamento em CD em fevereiro. É, sem dúvida, uma das melhores coisas que já fiz.
 
A terminar queres dizer algo mais aos nossos leitores?
Absolutamente! Realmente espero que vocês gostem de Scarlet… Estou esperançado em sair em tournée pela Europa em 2013. E, finalmente gostaria de desejar a todos um ano novo muito tranquilo.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Review: Rock'n'Roll Accident (Dirt)

Rock’n’Roll Accident (Dirt)
(2012, Massacre)
 
Segundo trabalho para a banda germânica praticante de southern groove. Rock’n’Roll Accident é um trabalho poderoso, cheio de fortes riffs, guitarras muito densas, secção rítmica potente, vocais rasgados e, principalmente, um sensacional conjunto de solos. E se há por aqui uma certa dose de southern rock, também há muito groove, algum thrash e muita rockalhada! Caso para dizer que os Dirt rockam a valer! E ainda são capazes de surpreender com a introdução de apontamentos acústicos e banjo (no tema título), de blues (em Never Change My Ways), de uma balada calma e com texturas de piano (em One Step Away) ou de órgão (no fecho com Nice To See You). Para quem procura neste final de ano algo não muito rebuscado, mas suficientemente diversificado; algo não muito exigente em termos de audição mas cheio de feeling, energia e poder, aconselhamos a descoberta destes Dirt e deste Rock’n’Roll Accident. Os amantes do rock, das grandes guitarradas, dos longos e nítidos solos com a guitarra a gemer, devem dedicar algum tempo a este disco. Um disco que, naturalmente é o que é, sem nada a esconder, sem truques de maquilhagem nem fillers; apenas rock e metal.
 
Tracklist:
1.      Seven Days
2.      Dirty
3.      Rock’n’Roll Accident
4.      Fast Lane
5.      Face Down
6.      Never Change My Ways
7.      Crush
8.      Breathe In
9.      One Step Away
10.  Nice To See You
 
Lineup:
Sven Zaklikowski - vocais
Thiemo Hille - guitarras
Florian Stollberg - guitarras
Marius Rebmann - baixo
Marcel Unger - bateria
 
Internet:
 
Edição: Massacre Records

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Entrevista: HBC

HBC é um supergrupo que resulta da reunião de três sobredotados e altamente experientes músicos no campo do jazz/fusão, a saber Scott Henderson, Jeff Berlin e Scott Chambers. Para nos falar deste super trio e dum álbum que mistura covers de alguns dos temas mais emblemáticos da fusão com outras criações próprias, o baixista Jeff Berlin.
 
Viva Jeff, obrigado pelo teu tempo a responder Via Nocturna. Primeira questão é quando e por que vocês decidiram criar este trio?
É um prazer falar contigo. Na verdade este trio foi formado em 2009 pelo meu empresário Alejandro Orellana de Arte Medios no Chile. Alejandro tem procurado novas combinações de grupos e músicos onde eu possa tocar. Foi sua a ideia de Dennis Chambers e eu tocarmos juntos, mas com o Stanley Jordan na guitarra. Mas o Jordan nunca respondeu aos meus e-mails, convidando-o a tocar. Foi então que me lembrei que um velho amigo, Scott Henderson, seria uma grande solução. Liguei-lhe e HBC é o resultado desse telefonema.
 
Como trio, juntos, esta é a vossa primeira vez, mas tu (e os outros, naturalmente) já tens uma grande experiência noutros projetos. Podes falar-nos um pouco dessa tua carreira? Houve algum que te tenha dado especial prazer fazer?
Nos últimos dez anos, eu tenho sido um líder e não um sideman. Há muitos anos que não participo em nenhum projeto como sideman mas tenho liderado o meu próprio grupo com vários músicos. Trabalhei com os bateristas Danny Gottlieb e Paul Wertico, do grupo de Pat Metheny e Mike Clark de Herbie Hancock. Randy Brecker tocou no meu grupo juntamente com Jaco Pastorius e Othello Molineaux. O meu parceiro na música, porém, é Richard Drexler, que é um fantástico executante de piano e contrabaixo. A minha banda e os vários projetos de gravação que fiz em meu nome são os meus favoritos quer em termos de gravação quer de execução. Nós tocamos música a um nível tão alto que sou um músico cada vez melhor devido aos espetáculos e tournées que fiz com todos esses grandes músicos.
 
E já tinham tocado juntos ou esta foi a primeira vez?
Scott e eu trabalhamos juntos desde 1985. Comecei a tocar com Dennis, quando este trio, HBC, começou em 2009. Tínhamos conversado a respeito de gravar logo no início do nosso relacionamento, mas apenas entramos em estúdio por volta da Primavera de 2012.
 
Como analisas o resultado final desta experiência chamada HBC?
Esta banda é uma alegria total. Somos amigos, estamos sempre a brincar e saímos juntos. Esta amizade é patente na diversão que temos em palco. A nossa música reflete a nossa profunda admiração uns pelos outros. Esta é uma experiência de alto nível musical que estou a ter com pessoas que eu respeito a nível pessoal. Nos Cream, havia lutas constantes que pareciam alimentar a paixão de tocar ao vivo. No nosso trio, é a amizade que parece alimentar o nosso desejo de tocar ao mais alto nível que podemos.
 
Com os HBC podemos falar de um supergrupo?
Como um grupo de fusão, talvez! Somos todos considerados grandes músicos e a combinação da nossa forma de tocar resulta num grande espetáculo. Para ser honesto, há atualmente baixistas com muito mais técnica do que eu. Eu fui o pai e por isso é natural que aconteça assim. Indiscutivelmente, o Scott é um guitarrista mais lento que muitos outros guitarristas com o dobro da sua técnica. Portanto, temos de criar uma música que seja poderosa. Quando se combina vários músicos de renome, penso que se pode usar o termo supergrupo. Portanto, acho que o termo pode ser aplicado mas desde que não me atrase no aspeto de tentar tocar melhor ou praticar mais.
 
Como é o processo de composição nos HBC? Suponho que muita improvisação e muito jamming?
Sim, muita improvisação e muito jamming. O álbum é construído sobre a música que improvisámos. Mas as músicas em si foram registados da forma como foram ensaiadas. Scott é um grande fã dos Weather Report e aprendeu que Joe Zawinul improvisa em cada nota que escreveu para a banda. Scott já tinha usado o mesmo conceito quando gravou com a sua banda Tribal Tech e também usou o mesmo conceito para orquestrar a guitarra durante os improvisos que fizemos como trio. Temos uma piada nos HBC que a razão para este CD está a vender tão bem é porque nós quase não escrevemos uma nota para ele. Quase tudo o que tocamos são covers de músicas de fusão bem conhecidas, principalmente a partir da década de 70. Este álbum é um "Top 40" de músicas de fusão. Eu até sugeri que intitulássemos o álbum como Fusion Top 40! Dennis, Scott e eu adoramos o título, mas a editora não ficou lá muito feliz com a ideia.
 
Exatamente, neste álbum vocês apresentam uma miscelânea de temas próprios e algumas covers. Qual foi o critério de escolha dos temas para recriar?
Nós escolhemos a música que ouvíamos quando éramos jovens músicos e que nós adoramos ouvir e tocar. Este CD é preenchido com o material que surpreendeu e surpreendeu-nos quando éramos jovens. Recriar essas músicas foi, para nós, uma viagem pela estrada da memória, algo que foi gratificante fazer. Mas, precisávamos de um par de outras músicas para colocar no álbum. Scott escreveu um blues e pediram-me para escrever uma peça de baixo. Demorei um mês a escrever Threedom, que espero seja a última peça de solo de baixo que escrevo. Eu estou tão cansado de escrever peças a solo porque o meu verdadeiro amor é tocar com outros músicos e tocar solos se houver espaço na música para o fazer.
 
Já tocaram estas músicas ao vivo? Como têm sido as reações?
Até agora, as pessoas têm estado animadas com as nossas performances. Temos tido espetáculos esgotados em quase toda parte, o que só vem provar que três nomes fortes numa banda é melhor que apenas um ou dois. As pessoas enlouquecem ao ouvir três músicos no seu pico de capacidade a tocar juntos. Mesmo para nós, neste mundo orientado para os vocais, apenas o facto de ter uma oportunidade para tocar os nossos instrumentos é uma emoção. Sabes que neste período da indústria musical, onde dançar e cantar é uma coisa normal, Jimi Hendrix seria desconhecido e não assinaria com nenhuma editora. Sabes por quê? Porque era um guitarrista.
 
E outras aparições ao vivo num futuro próximo? O que está previsto?
Parece que outubro será o período para a próxima tournée HBC. Talvez passemos por Portugal. Eu toquei aí com a minha banda e é um lugar tão bonito que eu gostaria de voltar.
 
E desejos para o ano novo que está quase a chegar?
O único desejo para o Ano Novo é ser feliz! Se estás feliz, então tudo vai estar bem. Tentem ser felizes, porque este é o maior presente que podem ter para vocês mesmos e para as vossas famílias.
 
Finalmente queres acrescentar mais alguma coisa para os nossos leitores?
Eu sou uma pessoa de sorte numa indústria muito difícil. Mas demorou anos a construir uma reputação mundial e é preciso muito esforço e trabalho para a manter. Portanto, para quem gosta de tocar, tanto quanto eu, lutem que as coisas boas também podem acontecer convosco.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Review: Intet Menneskbarn (Huldre)

Intet Menneskbarn (Huldre)
(2012, Gateway Music)
 
Nascidos na Dinamarca no ano de 2006, os Huldre são um coletivo com elementos oriundos de diferentes géneros musicais que vão desde a música medieval acústica ao black e death metal. Por isso, a música praticada por este sexteto acaba por compilar num só álbum muitas dessas influências, com forte e especial ênfase nos elementos folk. A estreia sob a forma Intet Menneskbarn é composta por 11 temas cantados na sua língua mãe, sendo dez originais e uma reconstituição de um tema tradicional norueguês (Beirblakken) em que os fortes riffs e até alguns blastbeats se cruzam com elementos folk e tradicionais como violinos e flautas e com a personalizada voz de Nanna Barslev. Aliás, refira-se que do black/death metal só existem mesmo alguns soltos blastbeats, nomeadamente a secção inicial de Vaageblues e alguns vocais mais agressivos no tema de abertura. Tudo o resto são composições em que a melodia assume um grande destaque, muitas vezes a serem conduzidas pelas flautas e violinos que se enquadram de forma perfeita com o setor vocal e rítmico. Assim, como se de uma mistura entre Korpiklaani, Midnattsol e Lumsk se tratasse. Com a adicional capacidade de se ir reinventando ao longo do álbum introduzindo influências orientais (Ulvevinter), aspetos teatrais/circenses (Skovpolska), ambientes festivos (Gennem Marsken) e apontamentos celta (aleatoriamente espalhados, mas eventualmente mais notórios no excelente instrumental Spillemand). Mas o mais importante de Intet Menneskebarn é que em momento algum perde peso em detrimento do folk. Ou seja, todos os temas têm uma base claramente metal, com fortes riffs, uma secção rítmica poderosa e com a guitarra a sacar solos fantásticos. E este é um aspeto que torna ainda mais impressionante esta estreia: os Huldre conseguem no mesmo espaço ser um coletivo metaleiro muito forte e folky com muita magia.
 
Tracklist:
1.      Ulvevinter
2.      Trold
3.      Skovpolska
4.      Brandridt
5.      Gennem Marsken
6.      Vaageblues
7.      Havgus
8.      Spillemand
9.      Beirblakken
10.  Knoglekvad
11.  Skaersild
 
Line-up:
Nanna Barslev – vocais
Laura Emilie Beck – violino
Troels Dueholm Norgaard – flautas
Lasse Olufson – guitarras
Bjarne Kristiansen – baixo
Jacob Lund - bateria
 
Internet:
 
Edição: Gateway Music

domingo, 23 de dezembro de 2012

Entrevista: KingBathmat

Com edição prevista para o dia 21 de janeiro de 2013, Truth Button é o sexto álbum dos britânicos KingBathmat, uma coleção de seis temas longos que cruzam diversos campos do rock e do metal. Irreverente como o nome que o coletivo ostenta e a música que praticam, o baixista e vocalista John Bassett concedeu a Via Nocturna uma pequena mas muito interessante entrevista.
 
Viva! Antes de mais, obrigado pelo vosso tempo dedicado a responder a Via Nocturna. O novo ano trará um novo álbum, Truth Button. Como descreves este trabalho?
Olá Pedro, muito prazer em conhecer-te e é um prazer poder responder às tuas questões. Truth Button é uma coleção de seis músicas, um expositor de estilos musicais dentro dos géneros de rock progressivo, psicadélico, stoner e metal, consolidado num disco coeso que tem um som e um estilo muito próprios. Espero que marque a diferença em relação a grande parte da música que está disponível no momento.
 
E de que forma se aproxima ou afasta dos vossos álbuns anteriores?
Sinto que à medida que o tempo passa, a nossa música tem-se tornado mais experimental, as canções estão mais longas, abraçando o rock progressivo como uma saída mais flexível. Tem havido sempre, espero, uma forte corrente melódica ao longo das músicas, normalmente representada através da melodia vocal, que está sempre muito trabalhada. Esse elemento melódico nunca vai mudar, porque acredito que é a personalidade da música, é a assinatura, a impressão digital, a identidade da música, e, sem ela, torna-se nada mais do que um clone, ou uma replicação de outras músicas que já existem.
 
Este acaba por ser um álbum conceptual. Qual é a temática abordada?
Truth Button é sobre a saturação da tecnologia que todos os dias sufoca as nossas interações e sobre como esta mesma tecnologia manipula a nossa realidade e aquilo que acreditamos ser a verdade. Truth Button lida com um tema subjacente da tecnofobia e desconexão social devido ao uso sempre crescente e trivial da moderna tecnologia. Truth Button apela para o avanço da tecnologia mas de forma a ser empregue de modo a tornar mais transparente a verdade em vez de ser explorada para confundir, criar convulsões e restringir-nos. O press-button, um interruptor mecânico que nos envolve no processo, é um símbolo da tecnologia, vivemos numa rede cada vez mais complexa de botões e gadgets. Estes dispositivos encorajam-nos a interagir com eles por motivos cada vez mais irrelevantes. O tempo absorvido por essas atividades inconsequentes produzidas por essas novas tecnologias poderia ser bem melhor aproveitado e parece que esses brinquedos são deliberadamente criados para nos distrair de eventos que desvendam o mundo de hoje. No entanto, se tivéssemos a hipótese de escolher o botão da verdade será que o pressionaríamos? Escolhemos viver numa verdade feia ou, em alternativa, continuamos a viver na ignorância numa bela ilusão?
 
Suponho que as vossas expetativas para este lançamento sejam altas…
Nunca tenho expetativas nem grandes nem pequenas. Estou extremamente feliz com o álbum, se os outros se divertirem (espero que aconteça), então isso será um bónus. Há algum dinheiro aplicado na promoção do álbum, portanto, em relação a isso, espero que o álbum alcance o sucesso. Aqueles que investiram veremos se recuperam e obtenham proveitos de forma a encorajar o financiamento de próximos trabalhos dos KingBathmat.
 
Como é o processo de criação nos KingBathmat?
Foi-me dito por um apicultor xamânico que eu tenho uma antena cósmica que foi implantada na minha cabeça em criança por visitantes da sexta dimensão. Esta antena envolve-se com ondas invisíveis que atravessam o nosso ambiente quotidiano que eu capto e posteriormente coloco nas músicas. Portanto, sou apenas um vaso telegráfico para mensagens sonoras extraterrestres. Fundamentalmente, só faço coisas com o meu cérebro. Tudo o que é necessário é um riff sólido, ou possivelmente uma melodia vocal, e depois tudo o resto vai evoluindo a partir dessa ideia rudimentar. O período de gestação destas novas músicas variou entre 2 semanas e 4 meses. Os álbuns mais antigos eram mais baseados no formato canção e foram escritos numa tradicional guitarra acústica, ao estilo cantor-compositor.
 
E o processo de gravação como decorreu?
Neste momento, a frugalidade é o foco principal no que diz respeito à gravação. No passado contratámos estúdios com grandes despesas e gravações complexas tal como aconteceu com a gravação de Truth Button que levou muito tempo num estúdio de qualidade. Assim, todos os atalhos para o produto final que poupem dinheiro são considerados desde que não sejam prejudiciais para o mesmo. O nosso novo teclista está a trabalhar na construção do seu próprio estúdio, o que nos irá permitir uma maior liberdade neste campo num futuro próximo.
 
Por que razão um nome como Kingbathmat? Existe algum significado especial?
Não, nem por isso. Este nome, KingBathmat, foi escolhido num momento de irreverência.
 
Para finalizar, queres acrescentar algo mais para os nossos leitores?
Nunca confiem em pessoas com dedos longo salientes, como os de um lobo sem pelo!