Entrevista: Molllust

Cruzar mundos aparentemente tão díspares como o clássico e o metal tem proporcionado excelentes resultados. O número de experiências arrebatadoras até prova que, afinal, se calhar esses dois mundos nem estarão assim tão afastados. Bom, divagações à parte, o que aqui importa é que a Alemanha nos apresenta mais uma brilhante proposta neste campo: chamam-se Molllust e o seu trabalho de estreia, Schuld, tem recebido excelentes críticas um pouco por todo o mundo. Via Nocturna foi conhecer este emergente nome através da vocalista e pianista Janika Groβ.
 
Olá Janika, tudo bem? A começar, podes apresentar os Molllust aos metalheads portugueses?
Olá! Estamos bem, obrigado. Molllust é uma mistura de música clássica e metal. Os nossos instrumentos clássicos, violino, violoncelo, piano e a voz principal, uma soprano, são responsabilidade das senhoras. Os sons de metal, consistindo de voz masculina, guitarra elétrica, baixo elétrico, bateria, são interpretados pela nossa metade masculina. A influência clássica é mais forte do que na maioria de outros projetos de opera metal, porque eu sou compositora e interprete clássica ao mesmo tempo.
 
Quando decidiram criar este projeto e quais são as vossas principais influências?
A visão de misturar música clássica com metal já existia na minha mente, na minha juventude, quase há 15 anos atrás. Eu já tocava piano clássico há alguns anos e a música clássica era realmente o meu mundo. Mas quando colegas da escola me fizeram ouvir a música dos Nightwish e Therion, eu fiquei realmente impressionada e a minha mente inspirou-se para criar algo novo. E quando ouvia esses nomes pensava sempre que as peças clássicas das suas canções não continham toda a beleza da música clássica. Eu procurava uma banda que misturasse os dois géneros da forma que eu imaginava, mas não consegui encontrar nenhuma. Portanto, decidi eu própria transformar as minhas ideias em realidade. Não estava confiante nas minhas habilidades musicais, porque trabalhava especialmente nas minhas habilidades vocais antes de começar a procurar os músicos certos para deixar que a minha visão se tornasse realidade.
 
Schuld é a vossa estreia e tem recebido excelentes críticas um pouco por todo o mundo. Esperavam estas reações?
Para ser honesta, esperava críticas muito boas e muito más, porque penso que a nossa música é muito especial. Tinha medo que algumas pessoas não a entendessem. Estou muito feliz porque na realidade acabou por ser melhor do que o esperado e quase não temos más críticas. Também estou surpresa com o feedback tão internacional. Os nossos textos em alemão foram, obviamente, aceites nos outros países e estou muito grata por isso.
 
Precisamente! Vocês usam a vossa língua nativa. Porque fizeram essa escolha?
Foi uma escolha prática. Eu gosto de línguas estrangeiras e também gosto de as usar. Mas não consigo falar outra língua ao mesmo nível que a minha língua materna. Com ela tenho a possibilidade de usar as palavras de uma maneira mais subtil, brincar com metáforas e segundos significados. Tenho receio que os meus textos em inglês não tivessem o mesmo nível poético.
 


Os Molllust têm violino e violoncelo na banda, mas também têm alguns convidados no álbum a tocar essas partes. Como será ao vivo?

Costumamos levar apenas os nossos seis membros da banda para os nossos concertos. Isto é por razões económicas - precisamos de um palco maior e pagamentos mais elevados para ter a possibilidade de levar os convidados. E, claro, os ensaios têm que ser organizados com todos os músicos adicionais. Mas sempre que há possibilidade, nós faremos espetáculos com convidados. Na verdade, temos planos para um evento, mas vamos ver se podemos conseguir gerir isso também de um ponto de vista técnico.
 
Por falar dessas partes clássicas na vossa música, é fácil para ti escreveres as músicas combinando esses dois mundos? Como é o processo?
Apenas continuo o que eu aprendi durante a minha carreira musical. As minhas raízes estão completamente no clássico. Portanto, tinha que explorar como funciona uma composição de metal. Para mim, a metade clássica é tão normal como respirar. Toco este tipo de música desde criança. Para combinar os dois mundos nas composições tratou-se de um processo natural, sem esforços extra. Eu ainda escrevo como um compositor tradicional clássico: crio uma pontuação geral para todos os instrumentos, colocando notas num programa de computador e envio o resultado para os meus músicos. Com as suas ideias, podemos melhorar um pouco o meu trabalho, especialmente ao nível da bateria.
 
E quanto ao processo de gravação? Foi fácil ou sentiram algum tipo de dificuldade?
O nosso desafio era manter a sensação clássica nas canções. Uma linha reta de metal é muito fácil de gravar. Mas as peças clássicas não têm duas barras com o mesmo comprimento. Ou se fica mais lento ou mais rápido, alguns tons são tocados propositadamente atrasados. Então decidimos começar a gravação do piano e criar uma click-track por cima. Até chegámos a gravar algumas partes totalmente sem click-track. Tivemos que trabalhar arduamente para conseguir a sensação de tocar em conjunto e em interação. Mas com o Andy Schmidt tivemos um grande produtor capaz de resolver todas essas questões. Realmente gostei de trabalhar com uma pessoa tão hábil e afetuosa. E iremos continuar a trabalhar com ele no futuro, com certeza.
 

Vocês ganharam o BachSpiele 2012. Podem explicar-nos de que se trata?

É uma competição durante o Bachfest em Leipzig. É uma grande festa para homenagear o trabalho de Johann Sebastian Bach. Para o BachSpiele, era necessário encontrar uma maneira moderna e criativa de trabalhar a herança de Bach. Por isso, levei algumas das suas peças mas drasticamente mudadas. Mantive o tema principal, mas mudei completamente o acompanhamento para introduzir a fração de metal. O meu objetivo foi enfatizar as emoções das músicas e sublinhar certas mensagens. A maneira barroca de compor soava nalgumas partes muito pacífica numa perspetiva de rock moderno. Então mudei as partes onde eu senti que seria uma forma adequada para expressar o sentimento. O júri ficou surpreendido e muito alegre ao mesmo tempo.
 
E agora, estão prontos para ir para a estrada? Há alguma coisa planeada para os próximos tempos?
Sim, nós adoramos tocar ao vivo. Já fizemos alguns espetáculos com as peças de Schuld no ano passado. Estamos atualmente em contato com vários gestores de eventos e acabamos de assinar um contrato com uma booking agency porque queremos tocar concertos o mais rápido possível. Mas a maioria dos planos de concertos ainda não são oficiais, por isso não posso falar deles agora. A nossa principal região para concertos nesta altura é a Alemanha, porque isso significa menores custos de viagem para nós.
 
E quais são as vossas principais motivações para o futuro e os teus votos para o novo ano?
Como mencionado, queremos estender as nossas atividades ao vivo. De momento, estamos a trabalhar na reformulação do nosso site. Para os nossos visitantes internacionais, queremos ter uma versão em Inglês, também. Eles também devem ser capazes de obter algumas informações sobre nós. Iremos lançá-lo este mês. Em março, vamos publicar um EP com as nossas músicas vencedoras do BachSpiele. Está atualmente a ser fabricado, tendo sido gravado no último outono. E quero começar a compor músicas para um próximo longa duração, que está previsto para 2014.
 
Finalmente, queres acrescentar mais alguma coisa para os nossos leitores?
Estamos muito gratos que a nossa música tenha encontrado o caminho para Portugal! É uma motivação enorme poder conseguir apoio internacional e estamos muito entusiasmados com isso. Desejo-te um ótimo ano 2013! Esperamos ir a Portugal um dia para te conhecer num concerto.

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