domingo, 26 de maio de 2013

Entrevista: Mr. Averell

René van Commenée é um artista do som e da imagem oriundo da Holanda. No seu país de origem é bastante conhecido pelas suas performances e por criar bandas sonoras para o teatro e para espetáculos piromusicais. Em termos musicais tem um novo trabalho para o seu projeto Mr. Averell. Juntando um conjunto de nomes, alguns sonantes, Grindlock é um álbum que desafia os sentidos. E por isso, quisemos ir conhecer um pouco melhor este excêntrico artista.
 
Viva, René! Tudo bem? Obrigado por responderes a Via Nocturna. Considerando que Grindlock, o teu novo álbum, não é um álbum fácil de ouvir, podes explicar-nos como foi o processo de criação? O que te inspirou?
Viva, Pedro, obrigado pela review ao novo álbum. Não, provavelmente não é um álbum fácil de lidar, mas eu gosto da música na qual o ouvinte deva realmente passar bastante tempo e não como uma banda sonora para um dia (ou uma noite!). Para mim é arte e esta é a maneira de eu a tratar. Trabalhei no álbum no meu próprio estúdio pela primeira vez usando a tecnologia do computador para criar os contornos das músicas que propositadamente usei mal, por isso os sintetizadores soam tão simples. Às vezes, já tenho o texto enquanto outras vezes escrevo-o depois. Então começo a gravar os instrumentos que consigo tocar. Na maioria das vezes o som que eu quero está muito bem definido na minha cabeça e trabalho lentamente em direção a isso. E acontece: ouço um som de saxofone ou guitarra ou qualquer outro som que existe e verifico que músico se encaixaria melhor na música/composição. E inspiração, bem... Eu não sou um jovem loiro e sempre gostei de ouvir música toda a minha vida, portanto acho que os meus favoritos são Captain Beefheart, Van der Graaf Generator/P. Hammill e Nick Cave que em algum lugar, embora inconscientemente, viajam comigo. Durante o processo do álbum nunca tive um momento em que pensasse "oh, gostaria de fazer uma peça como ehh...". Não, tudo surgiu muito espontaneamente na minha mente. Acho que Gridlock realmente representa o que eu sou e a minha forma de estar na música.
 
Acho que este é um álbum orientado para um tipo muito específico de público. Sentes isso?
Bem, isso é difícil de dizer, porque é uma viagem através de diferentes tipos de música, embora eu tenha a certeza que não é apenas uma coleção de músicas diferentes. É uma viagem real, que o ouvinte deve passar e, depois, se ouvires do princípio até ao fim, vais sentir a conexão entre as músicas e ouvir a assinatura típica de Mr. Averell. Durante os espetáculos, aprendi que a minha música é adequada para um público muito amplo, para minha surpresa, devo dizer, mas foi muito interessante descobrir. Pessoalmente acho que é para um público que gosta de música como forma de arte e que tem uma visão mais ampla, como a música rock, bem como música clássica, bem como música eletrónica. Acho que é captada onde deveria estar: música (rock) progressiva. Uma coisa é muito clara: o aspeto teatral da música. Isso sim, isso sou eu!
 
Suponho que não seja fácil, mas como definirias Gridlock?
Muito difícil mesmo! Eu vejo-o como uma obra de arte que conta uma história séria sobre os nossos gridlocks emocionais e tem bastante momentos leves, engraçados e até mesmo loucos para respirar. Quero dizer: ao contrário da temática não é um álbum nada depressivo!
 
Há diferenças fundamentais entre Gridlock e o teu primeiro trabalho?
Sim, com certeza! Este é um álbum muito mais pessoal. O primeiro álbum, Out of My Mind, também não é mau de todo e foi editado sob o meu nome artístico Averell. Neste mudei-me de mim para mim de novo (Mr. Averell não é o meu nome artístico, mas o nome do projeto para os meus “projetos de canções”). No primeiro álbum, trabalhei com um fabuloso poeta, Cathy Pemberton, que escreveu a maioria das letras, por isso desempenhou um papel como um ator. As canções, embora bastante diferentes, são mais consistentes por causa da instrumentação. O álbum foi gravado por uma grande parte da então banda ao vivo de Mr. Averell o que deu automaticamente a mesma instrumentação para a maioria das músicas. Para Gridlock quis gravar tudo exatamente como tinha em mente, convidando todos os músicos que eu precisava para alguma parte específica. Às vezes, para algumas notas apenas.
 
Precisamente, neste álbum trabalhaste com vários músicos conhecidos. Como foi feita a gestão de todas as colaborações? Foi fácil?
Como já referi, queria músicos com uma assinatura específica para as partes específicas do álbum, portanto escolhi quem e onde. Sou uma pessoa de muita sorte por conhecer muitos grandes músicos, alguns deles de renome mundial! Não foi difícil traze-los, mas foi uma aventura logística! Mike mora nos EUA, David, no Reino Unido, e eu na Holanda. Ninguém queria ir pelo método dropbox de trabalhar pelo que precisava realmente encontrar diferentes estúdios. Demorou algum tempo até conseguirmos estar juntos, mas funcionou e foi uma grande aventura e experiência! Dito isto, devo salientar que uma das músicas não é composta apenas por mim, mas, sim juntamente com Mike Garson (desde Alladin Sane com David Bowie!). Estivemos juntos em estúdio e decidimos fazer algo juntos: Sightseeings é o resultado em que mais tarde pedi a Jackson para adicionar aquele realmente surpreendente sax-solo.
 
Para além de Mr. Averell estás a trabalhar em algum outro projeto atualmente?
Sim, eu sou um artista visual sonoro o que significa que faço artes visuais e de áudio e na maioria das vezes uma combinação de ambos. Juntamente com Martijn Alsters (meu co-produtor) criei recentemente um soundforest para o Horti Cultural World Expo Floriade que decorre durante 6 meses. Para este projeto de 16 canais surround formamos um duo para concertos dessas paisagens sonoras. E com ele e Willem Tanke (ele interpreta um fabuloso solo de órgão num órgão de tubos na música Boxes) formamos um trio chamado The Art of Doing Nothing, compondo e improvisando música avant-garde usando órgãos de tubos. De momento, também faço vídeos e trabalho com fotografia, numa fase muito experimental, mas tento captar objetos com ou sem som. Depois crio bandas sonoras para teatro e espetáculos pirotécnicos.
 
E o que está planeado para o futuro mais próximo?
Acabei de pedir a alguns músicos para a banda de Mr. Averell ao vivo. Vamos reunir-nos em breve para verificar se funciona com este line-up. O próximo passo de Mr. Averell é tentar obter concertos, adoro tocar ao vivo e quero fazer uma tournée o mais breve possível.
 
Muito obrigado por este momento! Queres acrescentar algo mais para os nossos leitores? Ou referir algo que não tenha sido abordado nesta entrevista?
Bem, eu gostaria de deixar claro mais uma vez que Gridlock é um álbum que vocês têm que experimentar. Se gostam de se sentar (ou deitar), relaxar e ouvir música, se gostam de aventuras musicais e sons e arranjos estranhos então vão gostar! Embora possa demorar algum tempo para se sentir isso. As reações em todo o mundo têm sido muito positivas e todos os comentários dizem o mesmo: deem uma oportunidade e irão adorar! Foi um prazer!

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