segunda-feira, 17 de junho de 2013

Entrevista: Days Between Stations

Oscar Fuentes Bills e Sepand Samzadeh são o duo responsável por um dos mais originais projetos de rock progressivo norte-americano, os Days Between Stations. In Extremis é a sua segunda proposta e ficará, seguramente, na história por ter os dois últimos temas gravados por essa lenda que dá pelo nome de Peter Banks. O falecimento do excecional guitarrista foi, naturalmente, um dos tópicos desta agradável conversa com os dois mentores do projeto.
 
Viva e obrigado por despenderem algum do vosso tempo respondendo a Via Nocturna. Aceitem também os meus parabéns pelo vosso excelente álbum. Podem apresentar os Days Between Stations aos fãs portugueses?
Sepand: O prazer é nosso e obrigado por despenderes também algum tempo connosco. Nós podemos imaginar a quantidade de bandas com que vocês se deparam, por isso nós valorizamos o tempo despendido contigo! Os Days Between Stations foram fundados por Oscar (teclados) e por mim (guitarra) em 2003. Oscar e eu temos diferentes influências
Oscar: Olá Portugal!
 
Este é um álbum conceptual, certo? Podem dizer-nos qual é o tema principal deste conceito?
Oscar: In Extremis significa o momento da morte, em latim, e o conceito básico do álbum é que o homem que vês retratado na capa está deitado no seu leito de morte e, essencialmente, está a reviver a sua vida – um flashback até ao início. No Cause For Alarm é a partida e, em seguida voltamos ao início com In Utero e avançamos novamente.
 
Este álbum ficará para sempre marcado pelas últimas músicas que, provavelmente, Peter Banks gravou. Como lidaram com a morte dele? Também por isso acaba por ser um álbum muito significativo e especial para vocês…
Sepand: Foi muito triste. O seu melhor amigo e gerente, George Mizer, informou-me da sua morte e apenas me lembro de cair aos pedaços, ainda é difícil pensar sobre isso. Mesmo ao ouvir In Extremis eu choro. Mas aí lembro-me que sempre que eu tocar estas músicas, ele ganha vida, por isso devemos celebrar. Sabes, eu só falei com ele umas 15-20 vezes, e perguntava-me porque fiquei tão afetado com a sua morte. A resposta é simples: as nossas almas estão entrelaçadas neste álbum, nós estamos realmente ligados e compartilhamos alguns momentos pessoais durante o breve tempo que estivemos juntos. A amizade foi definitivamente florescendo entre nós. Posso dizer com certeza que ele estava muito animado de trabalhar com a gente. Ele fazia entre 20 e 30 trilhas de guitarra em cada sessão - tudo bem pensado, rico em ideias, criatividade e paixão. Bem podemos dizer dizer que ele colocou todo o seu coração e alma no que fez. Deu vida às canções e, por vezes, levou-as numa direção diferente. Tocou em duas canções, Eggshell Man e In Extremis. A primeira é sobre a vida de um homem que caiu em desgraça e a forma como continua a levantar-se e a cair. A segunda é sobre um homem à beira da morte (definição latina de "In Extremis") com todas as suas lembranças e remorsos que giram em torno dele. Em retrospetiva, não sabíamos que era isso pelo qual Peter estava passando.
Oscar: Eu fiquei realmente chocado e triste com a morte de Peter. Honestamente admirava-o desde a infância, por isso era um sonho tê-lo a tocar connosco. Acontecer isso foi muito cruel… eu já estava a imaginar futuras colaborações com ele. Peter era um homem muito bom e um grande músico e fará falta.
 
Mas em In Extremis têm outras contribuições relevantes. Como conseguiram reunir esse naipe de artistas?
Sepand: Bem, Peter Banks ficou fã do nosso primeiro álbum. Ao longo dos anos a partir do álbum de estreia, fomos procurar a voz perfeita para as nossas músicas. Um fã sugeriu Billy Sherwood e Billy foi a escolha perfeita para nós! Billy trouxe Rick Wakeman ao projeto. É muito fixe porque penso que Rick e Peter nunca tinham tocado juntos antes.
Oscar: Billy Sherwood é pessoa extremamente agradável, extremamente talentoso, e que respira música o tempo todo. Ele e a sua esposa, Michi fizeram-nos sentir muito bem-vindos e sei que iremos colaborar com ele novamente. Ele deu muito ao projeto com os seus vocais e percussões brilhantes, a sua magistral mistura e a colaboração ao nível das letras e melodias vocais. Rick Wakeman, Tony Levin e Colin Moulding são mestres no seu ofício e sempre os admirei, desde a minha fase de menino crescendo na Cidade do México. Para mim tê-los realmente no nosso álbum é totalmente surreal e um sonho tornado realidade.
 
Todas as canções foram escritas por vocês dois. O que pergunto é se houve alguma contribuição dos convidados, para além daquela que já foi referida?
Sepand: Billy teve a maior contribuição. Ele tocou bateria e cantou no álbum. Além disso, ele co-produzido, misturou e co-escreveu a letra connosco. E também trouxe Colin Moulding e Rick Wakeman. Colin, Rick, Pete e Tony são na sua maioria músicos de sessão que acrescentam o seu próprio talento divino para a música. Lembra-te que essas lendas não só elevam a música como são nossos professores. Assim, Oscar e eu temos muito mais intensidade e seriedade em fazer o melhor que pudermos, sem compromisso! Essa é a maior contribuição – eles acreditarem no que fazemos, mas também empurram-nos para que sejamos melhores!
 
E como foi o processo de gravação? Gerir tanta gente foi uma tarefa fácil ou nem por isso?
Sepand: Foi muito bom. Peter, Colin e Rick gravaram as suas partes na Inglaterra. Tony estava em Nova York. Billy, Paul Whitehad, Oscar e eu moramos em Los Angeles. Graças à tecnologia e ao facto de todos nós termos compreendido em que consistia o projeto, todas as peças encaixaram perfeitamente! Oscar e eu gravamos com o nosso engenheiro, Bill Kaylor (engenheiro dos Fleetwood Mac, Michael Jackson, Ray Charles) nos Days Between Station Studios e Billy Sherwood gravou os vocais e bateria no Circa HQ. Billy Sherwood lidou com a logística dos músicos e envio das faixas e produção de som e mostrou-se incrivelmente organizado!
 
Além disso também têm uma orquestra a participar em In Extremis. Como foi feita a ligação entre as partes rock e as orquestrais e quem foi o responsável por isso?
Sepand: A ideia foi minha de ter uma peça orquestral como primeira faixa. O rock progressivo e a música clássica são primos. Acho que eles se encaixam muito bem juntos. Beethoven, na minha opinião, foi um rock and roller. As regras de orquestração não são tão diferentes, apesar de orquestrar uma música clássica ser muito mais difícil. Billy teve a ideia da abertura e Oscar foi o responsável pela contratação e orquestração da música. Mas o Oscar não orquestrou apenas No Cause For Alarm. Ele próprio compôs as secções de cordas de todo o álbum.
 
Existem diferenças significativas entre In Extremis e a vossa estreia?
Oscar: Na realidade, não gostamos de nos repetir, embora tenhamos explorado algumas ideias dentro do mesmo território em ambos os álbuns e até o possamos fazer mesmo no futuro.
Sepand: Às vezes, a música flui naturalmente e as ideias saem organicamente. Outras vezes, temos uma abordagem mais académica e teórica da música, como no caso de No Cause For Alarm. Muitas das melodias e temas foram retirados de todas as músicas e fomos capazes de compor esta abertura orquestral. Sinto que somos muito mais académicos atualmente. Quando não éramos tão académicos, a música escrita para nós tornava-se como criar um bebê. Uma nova ideia nasce e tentamos fazer tudo o que pudermos para fazê-la sobreviver. Tentas entender a sua personalidade, do que se trata, o que tem que provar para nós tocarmos tudo o que pudermos para a música, para ver se ele aceita ou rejeita. Então a música torna-se madura e tem a sua própria personalidade e natureza distinta. Desta vez tivemos também um engenheiro, Bill Kaylor, para gravar num estúdio profissional. A sua experiência e conhecimento realmente conferiu profundidade ao som e à gravação. Finalmente, quando se tem convidados do calibre que temos neste álbum, desenvolve-se uma obsessão saudável para estarmos no nosso melhor. Oscar e eu realmente empurramo-nos, muitas vezes até à exaustão.
 
The Man Who Died Two Times foi a primeira escolha para single. Por quê?
Sepand: É a música mais fácil de entender e também a mais curta. É uma decisão muito difícil, porque nós oferecemos uma grande variedade em cada álbum e é difícil escolher um single que defina o que o ouvinte pode esperar de nós.
Oscar: O álbum é bastante eclético e assim não há realmente uma canção que resuma todo o álbum, mas acho que The Man Who Died Two Times mostra simultaneamente as nossas tendências progressivas - especialmente na seção bridge – bem como uma sensibilidade pop que pode surpreender algumas pessoas. E tem grandes vocais de Colin Moulding e Billy Sherwood nos backing vocals e bateria e um grande baixo conduzido por Tony Levin. Por isso, de certa forma, a música escolheu-se a si própria (risos)!
 
Será expectável ter In Extremis no palco? Como seria com os restantes elementos para além de vocês os dois?
Oscar: Gostaríamos muito de tocar em alguns espetáculos. Eu nunca estive em Portugal... Talvez pudéssemos tocar aí!
Sepand: Sim temos esperança... Ou vamos contratar todos os músicos ou jogar numa versão simplificada. Cingindo os instrumentos ao essencial.
 
Projetos para o futuro próximo?
Oscar: Temos uma riqueza de material em vários estádios de desenvolvimento, portanto penso que podem esperar um próximo álbum em não muito tempo. Nós também gostaríamos de fazer alguns espetáculos. Eu nunca estive em Portugal… Talvez pudéssemos ir aí!
Sepand: Gostaria de desfrutar o presente por agora, mas estamos a trabalhar em vídeos e num documentário. Sinto-me à vontade para experimentar mais e despir o nosso som ao essencial. Mas não nos queremos encurralar, eu prefiro ir com o fluxo.
 
A terminar querem dizer mais alguma coisa para os nossos leitores?
Muito obrigado! Desejamos-lhe toda a felicidade e saúde!

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