sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Entrevista: Hedersleben

Em plena ocupadíssima tournée (como podem conferir nesta entrevista) pelos Estados Unidos, o lendário Nicky Garrat descobriu algum tempo para nos falar deste seu projecto krautrock – Hedersleben – e do seu segundo trabalho Die Neuen Welten. Isto ainda antes de se voltar a concentrar no seu trabalho com o ex-Hawkwind Nik Turner.

Olá Nicky! Obrigado por esta entrevista. Quem são os Hedersleben? Podes apresentar o coletivo aos rockeiros portugueses?
Claro! Bryce Shelton, de Oakland, toca baixo. Ele é a espinha dorsal dos Hawkwind de Nik Turner bem como dos Brainticket e, é claro, dos Hedersleben. Kephera Moon é uma teclista com formação clássica. É de Carmel Valley, Califórnia. Faz as partes altas nos registos vocais e é um grande recurso para o gosto e intuição. O baterista Jason Willer é um outro membro de Oakland. Tem um ouvido fino para o autêntico e ensina percussão no pouco tempo livre fora dos compromissos com os Hedersleben. Ariana Wagaman é a nossa nova voz poderosa mas também acrescenta a dimensão fresca do violino elétrico. Ela é da Pensilvânia... Ou é Transilvânia? De qualquer forma, acrescenta aquele input final pelo que agora sinto que a banda está a disparar todos os cilindros. Eu sou Nicky Garratt, o guitarrista, de Cosby em Leicestershire, Inglaterra, (agora famosa pela aldeia vizinha Countesthorpe onde os membros da mega-estrela do rock Kasabian estudaram).

Die Neuen Welten é o vosso segundo álbum. De que forma se aproxima ou afasta da vossa estreia?
Acho que este segundo álbum é um pouco menos denso. Acho que isso é normal, porque um primeiro álbum é compactado e muitas vezes apresenta muitas ideias. Depois há uma continuidade com os três primeiros álbuns como tínhamos concebido desde o início da banda.

Podes, então, descrever o que os ouvintes podem descobrir em Die Neuen Welten?
Enquanto criança na Inglaterra rural, eu era um apaixonado pela astronomia planetária. Quando folheava a Enciclopédia encontrei uma foto de uma cruz antiga do castelo Quedlinburg. De alguma forma, essa região nas montanhas Harz da Alemanha se fundiram na minha mente com as luas e asteróides do nosso Sistema Solar. Essa foi a essência da Upgoer (Rocketship). Tem algumas nuances emocionais semelhantes ao livro Log que veio com o LP original dos Hawkwind, In Search Of Space. Em Die Neuen Welten (Os Novos Mundos) os laços com a Terra são quebrados e estamos no espaço. O Lado A - Zu Den Neuen Welten (Aos Novos Mundos) - é uma composição da banda baseada num tema de Kephera. No segundo lado, as faixas representam diferentes aspetos ou impressões dos novos mundos. XO5B é um dos telescópios espaciais de Keplar enquanto Nomad World é um Dreamstate (uma peça onde um instrumento, normalmente guitarra, não muda através da música, criando uma sensação de sonho). Isso retrata um mundo elevado à deriva pelo espaço sem sol. (On The Ground) Safe & Sound comemora a aterragem de Titã em Huygen. Tiny Flowers/Little Moon começa com uma fusão de duas músicas, uma de Kati Knox e outra, um esboço meu inacabado. Juntaram-se pela gravidade. A segunda metade é uma pequena lua da mão de Kephera.

Como apareces neste projecto?
Na foto maior, sou o diretor musical de Nik Turner (Hawkwind) e, inicialmente, o colaborador principal com Brainticket de Joel Vandroogenbroeck (o resto da banda rapidamente se tornou crucial no projecto). Com Hedersleben sou, talvez, um porteiro e arranjador. Escrevo muito material agora, mas não exclusivamente. Kephera Moon escreve algumas secções muito interessantes e com a adição da nova vocalista/violinista Ariana Wageman, junto com Bryce e Jason, seremos capazes de produzir composições como banda.

Porquê tantas referência na língua alemã quando a banda é americana e tu inglês?
Tanto Jason como eu vivemos na Alemanha e somos muito influenciados pela liberdade da inicial cena Krautrock. Sob o guarda-chuva do rock progressivo e do Krautrock, junto com Canterbury e Zeuhl, há a partilha do mesmo DNA e de mesmo objectivos. Além disso tenho uma quinta em Hedersleben (daí o nome), perto de Quedlinburg onde tocamos música por prazer. Chamamos isso de KMZ (Kosmiche Musik Zentrum). Por coincidência Ariana, a nossa nova vocalista/violinista é meia alemã, portanto, parece-me natural que algumas ideias reflictam essa conexão.

Precisamente agora andam numa tour Americana. Como estão a decorrer as coisas?
Para além de cada oportunidade de uma foto casual e conversas atrás do palco com várias celebridades, são horas de viagem e logística. Levar uma banda de rock progressivo em tournée é exigente. Só para montar os teclados é um projeto de construção, todas as noites. Isso ocupa a parte do leão do nosso tempo, mas a recompensa vale a pena. Ontem à noite, em Baltimore, por exemplo, o público foi muito receptivo. Acho que muitas pessoas estão agradecidas por poder ver uma banda a tocar prog clássico. No final de cada show, toda a aparelhagem deve ser carregada de forma muito precisa ou não caberá. Cada pequeno espaço é utilizado e mais equipamentos são carregados na parte dos passageiros do autocarro. A carga era maior no início da tournée, mas à medida que progredimos em torno da América do Norte, Meg (a nossa senhora do merchandise) vende T-shirts, vinis e CD’s e cria algum espaço... Bem, pelo menos até a próxima encomenda chegada da editora. O nosso engenheiro de iluminação Andy possui equipamentos delicados que manipula ao vivo. Os projetores e telas naturalmente devem ser descompactados e embalados junto com as treliças de iluminação todas as noites.

Tens mais algum projecto em desenvolvimento?
Sim, tenho um outro projeto em que toco Jazz/Pop em restaurantes e até mesmo para a feira gigante de Frankfurt Messe Trade, mas é principalmente por diversão e prática de partituras. Fora isso, os meus colegas de Hedersleben e eu vamos estar a trabalhar em novas gravações com Nik Turner assim que a atual tournée acabe. Também iremos tocar no World Vegetarian Day em Golden Gate Park logo após a tournée.  

Obrigado Nicky! Queres acrescentar mais alguma coisa?
Sim, estamos a falar com agentes na Europa na esperança de podermos levar esta tournéeno próximo ano. A logística é difícil com tanto equipamento necessário e tantos voos para reservar. Ainda assim, podemos ficar no KMZ em Hedersleben, fato que alguns dos moradores acharão bastante divertido

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