quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Entrevista: The Joy Of Nature

The Joy Of Nature é o projeto musical do açoriano Luís Couto, criado em 2006. A música absorve elementos da folkambientindie e postrock, para criar as suas telas musicais através da experimentação. Conta no seu catálogo com diversos discos, entre CDs, singles em vinilo e CD-Rs, editados por etiquetas de países tão diferentes como Áustria, E.U.A., Polónia e Portugal. O projeto acabou de lançar Two Leaves Left, um miniálbum, editado numa edição limitada a 50 exemplares. Este foi o mote para uma conversa com Luís Couto.

Olá Luís! Obrigado pela tua disponibilidade. O teu projeto The Joy Of Nature já existe desde 2006. Podes fazer uma breve resenha histórica da sua evolução?
Em 1998 comecei a usar o computador como estúdio de música e criei dois projetos: um com sonoridade mais próxima do rock independente – Moving Coil – e outro que ia beber mais a fontes tradicionais (mesmo que de outros países) e ao dark ambient – The Joy of Nature and Discipline. Com este projecto apenas foram gravados, entre 1999 e 2003, dois temas para uma compilação e um álbum. Este (saído em cassete e CD-R, em edição limitada) acabou por se tornar, um pouco, objecto de culto. Em 2006, o projecto foi ressuscitado com o nome reduzido e com uma mudança de sonoridade: deixei de usar samples e o som baseava-se quase unicamente em instrumentos acústicos e recolhas sonoras de sons naturais. Com o passar do tempo, os instrumentos elétricos (como a guitarra e o baixo) foram ganhando um lugar na música. É mais difícil falar de uma evolução da sonoridade, pois foram mantidas paralelamente diversas orientações musicais: uma mais folk, outra mais experimental, outra mais indie. Uma delas predomina num trabalho, outra predomina noutro. A nível de edições, entre 2006 e 2010 foram editados 3 CDs, dois pela austríaca Anhstern e um pela editora da Polónia Rage In Eden; dois singles em vinilo, pela americana Little Somebody Records e pela portuguesa New Approach Records; e isto para não falar de compilações e edições de autor e em CD-R.

Como descreverias The Joy Of Nature?
Tenho muita dificuldade em descrever The Joy of Nature... É um projecto musical algo pessoal, mas sempre aberto a colaborações, cuja música se baseia essencialmente nos instrumentos e sons acústicos para criar paisagens musicais, tanto interiores como exteriores. É como pintar com música e sons.

O que motivou a criar um projeto com estas caraterísticas?
Simplesmente, a dada altura, surgiu o conceito e a ideia de fazer música essencialmente acústica, inspirada principalmente pela folk. Houve algumas experiências pessoais que contribuíram para isso, mas prefiro não falar nelas. Não foi algo pensado durante muito tempo, foi mais uma espécie de insight (risos).

Já tinhas experiência noutros coletivos e/ou noutros géneros musicais quando iniciaste TJON?
Sim. Entre os 19/20 anos fui vocalista de uma anda de punk rock, posteriormente criei outro projecto a solo – Moving Coil – mais virado para o rock independente e que marcou em presença em algumas compilações da extinta Bor Land e de novos talentos da FNAC. Mais tarde, o projeto continuou como duo, com a Mara Neves, e com o nome aquarelle. Moving Coil irá regressar em breve, mas com um nome ligeiramente alterado – Moving Trees - e será a forma de mais facilmente explorar sons mais rock, que já não cabem no universo de The Joy of Nature.

Este é um projeto essencialmente baseado em ti mas que se socorre de alguns convidados. O que procuras atingir quando se dá essa situação de convidares alguém?
É óptimo quando conseguimos contar com alguém que sabemos que poderá adicionar algo àquilo que criamos, que percebe a nossa linguagem musical, o que queremos transmitir. Mas não é fácil encontrar e aqueles que têm colaborado em The Joy of Nature também têm as suas próprias bandas e projectos, que lhes ocupa a maioria do seu tempo.

Ao longo destes anos tens mantido uma interessante sequência produtiva. De onde te vem a inspiração?
Muitas vezes da própria observação da natureza. No passado, houve uma forte influência de alguma literatura tradicional europeia e de recolhas etnográficas. Mas, de uma forma ou de outra, a música acaba por reflectir as minhas próprias vivências.

Recentemente lançaste Two Leaves Left. De que forma se aproxima e/ou afasta da tua produção anterior?
Cada trabalho é único. Este foi o trabalho que, até hoje, levou mais tempo a ser feito, depois de um afastamento da música que durou quase um ano. Foi sendo gravado lentamente ao longo de ano e meio. É mais focado que trabalhos anteriores como My Work Was Not Yet Done ou a Evasão das Fadas e foram utilizados menos instrumentos, havendo também menos camadas sonoras. Mas, em geral, não destoa da restante discografia de The Joy of Nature.

Dizes que este é um álbum baseado no isolamento. O facto de viveres nos Açores de alguma forma influencia ou não?
Os ilhéus são geralmente mais fechados e, por outro lado, viver numa ilha tem as suas limitações. De qualquer maneira, o isolamento de que fala o disco não está relacionado com questões geográficas. É o isolamento da vida moderna, com as redes sociais e o isolamento de uma forma de vida cada vez mais passada online.

Suponho, até pelo título e pela bela capa, que manténs uma forte influência da natureza. A tua componente ecológica tem-se mantido ao longo dos teus trabalhos, não é verdade?
O conceito de natureza que está no nome é um pouco mais alargado, digamos que é a “Natureza” da natureza. Mas obviamente que há uma componente ecológica, apesar de não se manifestar diretamente nas letras. Como podemos apreciar a natureza quando dela vivemos afastados?

Ainda não foste conotado com a Quercus ou qualquer outra associação ambientalista? (risos!!)
Não, estou à espera que alguma associação ambientalista me convide a colaborar!

Voltas a contar com alguns convidados neste teu trabalho? Qual o seu input?
O Gustavo, da Argentina, participou com alguns instrumentos exóticos, como as chak’chas ou o theremin. O Gustavo tem colaborado desde há algum tempo para cá em The Joy of Nature e nem preciso de lhe dizer nada. Sem dúvida que deu outras cores à canção em que colaborou.

Em termos de vídeos, já tens alguma coisa retirada de Two Leaves Left?
Foi feito um vídeo para the boy with the gun waiting by the sea e será feito outro para behind the window. O vídeo para este último tema já está pensado, mas falta tempo para o concretizar.

Estás a pensar levar Two Leaves Left para palco?
Há planos para levar The Joy of Nature de regresso aos palcos no próximo ano. Obviamente que um ou outro tema de Two Leaves Left será tocado, mas há muito por onde escolher entre o vasto repertório e, além disso, dá sempre algum gozo fazer uma ou outra cover ao vivo (quase de certeza que será feita uma de uma canção de Mark Lanegan).

Mais uma vez obrigado! Queres acrescentar mais alguma coisa ao que foi dito ou deixar alguma mensagem?
Obrigado por esta entrevista! As mensagens que há a deixar já foram deixadas através da música. Visitem o Bandcamp de The Joy of Nature e poderão ouvir todos os seus trabalhos.

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