Live Report: Heavy Weekend (dia 1)

 




Heavy Week End – Nancy – Terceira edição, de sexta-feira, 5, a domingo, 7 de junho de 2026

 

Neste primeiro fim de semana de junho, o destino é Nancy para dar início à temporada de festivais de 2026. Este ano, o verão chegou um pouco mais cedo à França e, com ele, a vontade crescente e irreprimível de voltar aos concertos ao ar livre! A duas semanas da grande romaria do famoso Hellfest, que vai abalar a vida de Clisson, em Loire-Atlantique, é para o extremo oposto do mapa, no Grand Est, que o TGV nos leva para o muito bem-nomeado Heavy Week End.

A partir desta sexta-feira, a nova edição do festival instala as suas colunas nos arredores da cidade ducal, mais precisamente no Zénith ao ar livre de Maxéville. Aqui não há sala fechada: é num cenário em formato de anfiteatro, com bancadas, mas sobretudo com uma grande explanada pavimentada, que os 12 grupos do cartaz se vão suceder ao longo de três dias.

Ou melhor, três tardes, diria eu, porque, ao contrário de outros eventos, a organização não aposta na desmesura. Abertura de portas às 16h00, um palco único (portanto, sem choques de horários nem escolhas impossíveis quando os vossos dois grupos preferidos tocam em simultâneo), instalações à escala humana para receber cerca de 35 000 pessoas no total… as condições parecem plenamente reunidas para desfrutar tranquilamente dos quatro artistas que se vão suceder em cada dia.

Na sua fórmula, o Heavy Week End aproxima-se, aliás, mais dos cartazes partilhados tipo “lanches-concerto” que se encontram cada vez mais ao longo do ano em salas do que de um festival no sentido estrito definido pelos puristas (aliás, não há campismo no recinto). Daí a concluir que joga na liga dos pequenos vai uma linha que seria grosseiro ultrapassar. Nem pensar em considerá-lo dessa forma e fechá-lo nessa caixa.

 

Impulsionado pela Gérard Drouot Productions, um nome associado aos cartazes com os maiores pesos-pesados do género, o festival já teve oportunidade de acolher fãs de artistas prestigiados nas suas duas primeiras edições, em 2024 e 2025: Judas Priest, Scorpions, Slipknot, ou ainda os franceses Mass Hysteria, para citar apenas alguns. A edição de 2025, com 16 000 pessoas só no domingo, permitiu consolidar o evento e confirmar muito rapidamente o reencontro numa terceira edição.

Prova do peso crescente que o evento está a ganhar foi o anúncio, logo em setembro de 2025, dos cabeças de cartaz da edição seguinte. Os suecos apaixonados por História Sabaton virão incendiar a sexta-feira, a loucura furiosa dos alemães completamente tresloucados Electric Callboy espalhar-se-á no domingo, mas a joia da coroa será o sábado. Será a única data em França este ano para os olímpicos Gojira… Nada mais, nada menos…! Se a presença deles não justifica a deslocação, então é caso para não se perceber nada disto!

 

Sexta-feira, 5 – Dominum + Avantasia + Savatage + Sabaton


É uma sexta-feira inteiramente dedicada ao power metal que hoje se anuncia. Os alemães Dominum e Avantasia prepararão o terreno para os experientes americanos Savatage, antes dos Swedish soldiers Sabaton virem concluir esta empresa de destruição maciça sabiamente orquestrada. Um olho na meteorologia, que parece hesitar entre sol e chuva com temperaturas amenas; o poncho vai para a mochila, não vá o diabo tecê-las, e seguimos para o shuttle gratuito disponibilizado aos festivaleiros entre o centro de Nancy e o Zénith.

Chegado à zona, o acesso à entrada principal está bem assinalado e a plenitude do pequeno caminho a percorrer pela floresta, com os seus morangos silvestres, contrasta bem com a máquina de metal e fogo que espera os festivaleiros algumas centenas de metros mais à frente.

Os primeiros juntam-se desde a manhã junto às grades, aguardando pacientemente pelas 16h00 e pela abertura oficial das portas. Ideia subtil e muito inteligente: a organização instalou um bar exterior, o que permite esperar com uma pint de 1664 ou um refrigerante, enquanto as colunas despejam Sabaton para manter o ambiente. Os colecionadores terão reparado rapidamente que o copo proposto não cobre toda a programação do fim de semana, apenas a de sexta-feira. Será, portanto, necessário passar de novo por um bar para obter os dos outros dois dias.


A entrada da imprensa fica um pouco mais adiante e, assim que as formalidades estão concluídas e a pulseira colocada, é possível entrar no recinto, descobri-lo antes de ser tomado de assalto e começar a orientar-se.

Ao longe distingue-se a zona de restauração (a escolha parece variada), uma área VIP escondida mais atrás e várias lojas onde é possível perder a cabeça e sair com o merchandising oficial dos artistas ou com o estampado Heavy Week End. De notar que, para tudo o que era HWD, era possível encomendar online e fazer o click and collect diretamente no local. Uma solução que os ingleses do Download Festival adotaram há já vários anos e que gostaríamos muito de ver chegar a um certo festival de Loire-Atlantique, para evitar perder quatro horas numa fila e acabar por descobrir que o tamanho de t-shirt pretendido está esgotado…

Do lado do palco, este impressiona pela sua largura e é forçoso reconhecer que o anfiteatro é realmente impressionante. A segurança procede aos últimos ajustes, verifica o aperto dos parafusos das crash barriers, enquanto a Proteção Civil termina os preparativos, pronta para prestar socorro em caso de eventuais mazelas, que se desejam tão poucas quanto possível!

Os portadores de passe VIP, pouco numerosos, são os primeiros a ocupar o espaço, enquanto os bocais fazem os últimos testes de pirotecnia. Sendo Sabaton, convém mesmo que tudo funcione.

Neste silêncio antes da tempestade, Marcos Feminella, baterista dos Dominium, vem eternizar a cenografia, aparentemente muito satisfeito com as instalações. Outros fãs reconhecem também Chris Caffery, guitarrista dos Savatage, que passeia tranquilamente na frente de palco. Ele tira tempo para os cumprimentar e presta-se, com prazer genuíno, ao jogo das fotografias.


16h00: as portas abrem ao público. As feras são libertadas e é a corrida para a barreira por parte dos mais motivados e dos menos ofegantes! Ainda falta mais de uma boa hora até Dominium atacar, por isso, para enganar a espera, ou para fazer baixar o ritmo cardíaco, conforme o caso, os primeiros a chegar aproveitam para carregar o chip da sua pulseira cashless. Novidade deste ano: o festival deu, de facto, o passo e equipou-se com esta tecnologia, hoje amplamente difundida nos grandes festivais.

Nos dois ecrãs laterais do palco, sucedem-se cartazes de digressões futuras. Entre duas datas, os mais atentos podem reparar que os passes de três dias para 2027 já estão disponíveis em pré-venda early bird. Contudo, não há data anunciada e, salvo erro, a aplicação ainda não permite comprá-los, uma vez que apenas os de 2026 continuam disponíveis. Vasculhando as stories da conta oficial de Instagram, percebe-se que o cobiçado passe deve ser levantado no banco cashless n.º 2, ao preço de 135 €, contra 185 € da tarifa normal, o que representa uma bela poupança. No entanto, não é mencionado qualquer nome; a compra será, portanto, às cegas, mas uma coisa é certa: a história do HWD continuará no próximo ano. Estão lançados os prognósticos para os futuros cabeças de cartaz!

O ambiente fica a cargo do talentoso Mathieu David, que dispensa apresentações. Com grandes malhas criteriosamente escolhidas e misturadas como pano de fundo, vestiu para a ocasião as suas flamejantes calças vermelhas. O exercício transforma-se em karaoke com os meus vizinhos de pit, o tempo passa depressa e as 17h30 já espreitam. Com rigor e pontualidade bem germânicos, os membros dos Dominium tomam os seus lugares. Desta vez, é mesmo a sério.

 

Dominium (pronuncia-se Dominoum!)


Diga-se desde já: este vosso escriba nunca tinha visto este grupo em palco. Tinha ouvido vagamente o segundo álbum, lançado no fim de 2024, The Dead Don’t Die, mas sem guardar dele uma recordação muito precisa. Também não estive presente na sua última passagem por Paris, quando vieram como suporte dos Battle Beast ao Elysée Montmartre, em outubro de 2025. Pois bem, erro grave, porque puseram o recinto a arder! Poder-se-ia pensar que ser o primeiro grupo do fim de semana seria uma desvantagem; pelo contrário, colocaram a fasquia muito alta logo à entrada. Com uma cenografia simples mas muito eficaz (algumas lonas em modo zombies, que, aliás, combinavam bastante bem com o cenário de Avantasia já instalado), os três músicos mascarados parecem sair diretamente do túmulo, prontos para nos transformar num dos seus. A horda é liderada pelo vocalista Felix Heldt, no papel de Dr Dead e com os seus assumidos ares de cientista louco. São-lhe atribuídos 40 minutos de set para nos fazer aderir à sua demanda por um mundo melhor, e ele vai tirar deles o máximo. A setlist, inevitavelmente compacta, pesca singles dos dois álbuns já editados, antes de sacar The Circus Is In Town, do terceiro trabalho, que sairá este verão. Uma homenagem ao primeiro morto-vivo da História, Frankenstein, antes de interpretar pela primeira vez ao vivo Thriller, de Michael Jackson. Como se fosse óbvio. E, para quem duvidasse, Dr Dead proclama-o alto e bom som: o rei da pop adorava crowd surfers; portanto, assim seja. É divertido, é fresco, Felix e as suas lentes de contacto desencontradas são magnéticos, o entusiasmo dele é contagiante e, no fim de Immortalis Dominum, as opiniões dos vizinhos confirmam-no: foi mesmo muito bom! Este cocktail surpreendente funciona e dá muita vontade de acompanhar de perto a evolução do grupo. Aliás, estarão em digressão no fim de 2026 com a Night Is Calling Tour, desta vez como headliners. Encontro marcado a 24 de novembro na La Machine du Moulin Rouge para os que ficaram convertidos!

 

Avantasia


Depois de uma pausa rápida de meia hora, apenas o tempo de limpar o palco e pôr em destaque as grades de Avantasia, chega a vez da ópera metal de Tobias Sammet. Antes do Olympia de março de 2025, já fazia seis anos que o alemão e toda a sua troupe não pisavam solo francês. As oportunidades são raras, manifestamente, e esta é também uma estreia para mim; por isso, nada de desperdiçar a oportunidade de descobrir. O público é acolhido calorosamente neste Creepshow e, para quem é estranho ao conceito, as surpresas chegam logo ao segundo tema. Será um desfile fantástico de convidados ao longo da hora seguinte. Kenny Leckremo, dos H.E.A.T, Tommy Karevik, dos Kamelot, Bob Catley, dos Magnum, ou ainda Ronnie Atkins, dos Pretty Maids, vêm emprestar as suas vozes à de Tobias. Herbie Langhans e Chiara Tricarico também ganham destaque num magnífico Farewell. A mecânica está perfeitamente oleada, os artistas encaixam na perfeição e sente-se uma verdadeira cumplicidade entre toda esta gente, que tem um prazer real em evoluir em palco. O frontman acaba mesmo por confessar: tocar em França sempre foi maravilhoso e ele está ali a viver a sua melhor vida. Todo contente, senta-se ao piano para tocar Lucifer, avisando previamente que nada está gravado e que todos os falhanços serão mesmo dele. Quando põe literalmente fogo ao instrumento, o público fica conquistado!

Uma última brincadeira na introdução de Lost In Space (um puro tema de heavy metal dos primórdios do grupo, antes deste abraçar uma carreira mais mercantil!) e chega o grande momento final, com o regresso de todos os que participaram na festa. Impressionante.

Tobias e a sua orquestra deixam esta noite o Hexágono para uma digressão de festivais pela República Checa, Itália, Bulgária, Alemanha e Suíça, mas ele prometeu: I will always come back to France!

 

Savatage


Nova pausa de meia hora, bem necessária para recuperar das emoções. Desta vez, o palco é totalmente despido para o set dos Savatage, o que contrasta fortemente com a quarentena de fotógrafos acreditados que se amontoam no pit, apesar de este ter bom tamanho, prontos para metralhar a banda de Zachary Stevens com disparos. O grupo não regressava às nossas paragens desde o Hellfest do ano passado e, antes de os reencontrarmos no Alcatraz em agosto próximo, aproveitemos esta passagem por Nancy… Ou talvez não.

Formado no fim dos anos 70 pelos irmãos Oliva, abalado pela morte de Criss em 1993 num acidente de viação, levado por Jon até 2002 antes deste se dedicar aos Trans-Siberian Orchestra ou ao seu projeto paralelo Jon Oliva’s Pain, o grupo conheceu altos e baixos. Após o anúncio-surpresa de uma reunião para o Wacken 2015, nada volta a acontecer durante os dez anos seguintes, e é preciso esperar por 2025 para ver a máquina relançar-se com Stevens na voz.

Em palco, aqueles que são vistos como pioneiros do metal progressivo, preferido ao heavy metal dos seus primórdios, claramente não se poupam a esforços. Os músicos ocupam bem o espaço, tocam e interagem muito com o público; tecnicamente, é um absoluto sem falhas e de grande precisão… mas, à minha volta, a coisa simplesmente não pega. Falta aquele grão de loucura que Dominium e Avantasia souberam espalhar. A prestação também é prejudicada pelos vídeos no ecrã gigante, que, na ausência de outro cenário, serve de único backdrop. Sim, é muito colorido quando não é completamente psicadélico, mas é sobretudo gerado por IA à pressa e nota-se demasiado. Ao ponto de me fazer bloquear o cérebro e desligar.

Mesmo o momento emotivo em Believe, com a difusão de um vídeo do Mountain King himself, Jon Oliva, ao piano, não parece resultar. Os meus vizinhos não o reconhecem e até o confundem com um Colin Farrell maquilhado de Pinguim, o Némesis de Batman na série com o mesmo nome.

Duro e injusto…, mas, no fim de contas, representativo de uma banda elogiada pela profissão, influente, de culto para alguns, mas que muitas vezes passou ao lado do grande público.

 

Sabaton


Última mudança de cenário para preparar a chegada do exército sueco. Também aqui, o palco surpreende pelo seu “minimalismo”. Para quem já viu Sabaton ao vivo, não ver arame farpado, dentes de dragão ou ouriços checos, nem sacos de areia, é suspeito! Muito suspeito mesmo. Também não há castelo medieval no horizonte, cenário que, no entanto, tinha servido na digressão em sala do inverno passado para o lançamento do álbum Legends. Mal se distinguem lagartas escondidas sob panos e uma grande massa ao centro, sobre a qual repousa a bateria. Manifestamente, a pirotecnia — essa — está prevista: os homens da segurança no pit recebem a instrução estrita de avançar mais para a frente e, visto o número de extintores preparados, deste lado a coisa não deve ser para brincadeiras.

22h00: as luzes apagam-se e, quando se reacendem, o público dá por si frente a um tanque absolutamente gigantesco. Joakim, todo sorrisos, exibe os seus clássicos óculos e dispara logo à entrada um Ghost Division monstruoso, recebido por fãs em abstinência (a música tinha desaparecido estupidamente da digressão de 2025). Não há tempo para respirar: a banda encadeia uppercutsYamato, The Red Baron, The Last Stand, Great War — até a um Stormtroopers dantesco. Os slammers fazem a festa, bem recuperados por uma segurança atenta e ágil. Um grande bravo a vocês, rapazes, por este primeiro dia. Entre morteiros, lança-chamas e explosões nas vossas costas, não é todas as noites que se tem a sorte de apanhar um vendedor ambulante de bebidas com mochila a sair do caos pelos ares!

Pequena acalmia com Christmas Truce e Soldier Of Heaven, temas em que os seis coristas da Legendary Orchestra se juntam ao grupo. A pausa foi curta: rapidamente Joakim saca orgulhosamente o primeiro tema tocado do álbum Legends, Crossing The Rubicon.

Depois de Night Witches, César vê-se confrontado com outro imperador, este bem francês. Napoleão Bonaparte está, de facto, presente e regressa em carne e osso! Cada vez mais à vontade em palco, lança-se num verdadeiro one-man-show e despede Joakim com um pontapé no traseiro. As Marseillaise surgem espontaneamente; ele já nem precisa de as pedir!


The Attack Of The Dead Men, o sólido Bismarck, o apreciado Hordes Of Khan: os suecos desfilam um verdadeiro best-of de malhas pesadas, e a noite transforma-se em karaoke em Templars, graças às letras projetadas no ecrã. Mágico! Já em Primo Victoria, pelo contrário, não é preciso ajuda: essa, toda a gente à minha volta a sabe de cor.

O cronómetro avança e a hora e meia atribuída parece, infelizmente, estar a chegar ao fim… Acabaremos por aqui? Nada disso: seria conhecer mal estes canalhas, que vão esticar o tempo para nos brindar com Swedish Pagans e a sua sacrossanta batalha do Oh-oh-oh mais forte entre os dois lados da frente de palco. Antes de partir, Albert Severin Roche também é homenageado quando ressoa The First Soldier. Se Napoleão tivesse tido homens desta têmpera, nunca teríamos ouvido falar daquele Water-putain de-loo!, reconhece ele, exaltado!

O que poderia ter sido uma belíssima conclusão ainda conhece uma reviravolta inesperada. A última munição será um To Hell And Back de loucura, surgido do nada, que leva tudo à frente.

Depois de lançadas as últimas palhetas, Napoleão parte com uma esplêndida bandeira francesa logotipada para autografar. A banda, essa, não teve piedade e regalou-nos. No caminho de regresso ao parque de estacionamento, todos continuam a entoar os Oh-oh-oh a plenos pulmões e a opinião geral é unânime: mesmo com um cenário mais minimalista, com poucos ou quase nenhuns trajes de época, Sabaton encontrou forma de nos deixar de rastos. Verdadeiros patrões do género!

Enquanto se aguarda a sua vinda ao Hellfest este ano, os sortudos poderão reencontrá-los no cenário soberbo das Arenas de Nîmes, pouco antes. A não perder!

Reportagem a cargo de Matthieu Chatenay

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