Reviews VN2000: LUÍS CAPITÃO COM LEONARDO PISCO; A TREE HOUSE WAIT; THE PAGES/THE NEURAS; AMAROK; ZURRAPA
Vida Dupla (LUÍS CAPITÃO com LEONARDO PISCO)
(2024, Independente)
Luís Capitão (dever-se-ão lembrar da última temporada do
programa Got Talent Portugal), junta-se a Leonardo Pisco e
apresenta o seu álbum de estreia, Vida Dupla. O duo junta as cordas da
viola e da guitarra portuguesa, navegando entre tons de fado, da música étnica
e de sonoridades muçulmanas, cabo-verdianas e andinas. Dos sete temas, apenas
três trazem vocais, entre as quais uma excelente versão do lendário fado Povo
Que Lavas No Rio e uma incursão pelo hip hop que não se revela muito
bem conseguida. Acontece em Casa Incerteza, um tema com uma letra muito
interessante, mas que merecia uma melhor vocalização. Além das cordas, outros
instrumentos mais ou menos exóticos preenchem este imaginário multicultural que
parte da tradição e projeta para a contemporaneidade. [78%]
Kaleidoscope (A TREEHOUSE WAIT)
(2024, Volkoren)
O projeto sueco que junta a
cantora/compositora Jenny Gajicki e o produtor/compositor Emil
Sydhage e que dá pelo nome de A Treehouse Wait, apresenta-nos o seu
segundo álbum, Kaleidoscope onde se vestem de uma pop negra de
melancolia nórdica. A eletrónica está presente de forma soft e sobre ela Jenny
vai interpretando personagens com a sua voz cristalina e tocante. O cenário criado
em Kaleidoscope é, ainda, composto e enriquecido por alguns elementos folk
e por subtis dance beats. Este sucessor de Interlude (trabalho de
estreia de 2016) está claramente orientado para o campo vocal e para as
melodias por ele criadas, sempre apoiado pelos referidos elementos eletrónicos
que, refira-se, nunca se sobrepõem. Ocupam o seu espaço e deixam espaço para
que sejam as melodias catchy a conduzir as canções. [74%]
A New Scene (THE PAGES)/The Neuras (THE NEURAS)
(2024, Lux
Records)
Os The Pages nascem em 2023, como forma
de homenagear os Secret Affair. E A New Scene, o seu primeiro EP
traz esse sentimento mod revival/power pop. São seis temas
imersos numa eletrizante energia punk que busca as influências nos nomes
míticos do movimento britânico do passado. Um coletivo que faz da simplicidade
dos arranjos e da pureza do som os seus pontos fortes. Quanto aos The Neuras,
são espanhóis e estão ativos desde 2021. E a sua onda é ligeiramente diferente.
Menos enérgica, mas mais solarenga. Menos simplicidade, mais cuidado nas
harmonias vocais. A pop cheia de swing dos anos 60 anos anda por
aqui e não se mascara. Nem precisa porque The Neuras tem alguns momentos
memoráveis, como sejam os dois temas finais. A conjugação dos dois nomes e dos
dois estilos resulta bem num disco revivalista e de fácil audição. [74%/77%]
Hope (AMAROK)
(2024, OSKAR Records)
O trono do prog rock da Polónia tem
estado, há muitos anos, ocupado pelos Riverside, mas isso não impede que
outros coletivos tenham vindo a demonstrar vontade de seguir as pisadas dos
seus compatriotas. Um dos melhores exemplos são os Amarok, banda antiga,
mas que nem sempre tem estado ativa. Hope é o seu mais recente registo e
onde mostra toda a sua panóplia de influências e toda a sua maturidade. O
coletivo lida perfeitamente com momentos atmosféricos à lá Pink Floyd,
mas também se sente à vontade em utilizar programações e elementos eletrónicos
que os catapultam para o campo do progressivo da escola Leprous. Os loops
sucedem-se, as evoluções também e há espaço para elementos cinematográficos e
até para alguma influência gótica britânica dos anos 80, pelo menos ao nível
dos sintetizadores. Hope é um excelente disco de art rock/prog rock
com muito para oferecer e para descobrir. [86%]
Manual de Incitação a uma Vida Boçal (ZURRAPA)
(2024, Independente)
Imparáveis e completamente insanos, os Zurrapa
voltam aos discos com Manual de Incitação a uma Vida Boçal. Um registo
onde a banda ganha outra dimensão quando deixa um pouco de lado a javardice. OK,
são punks, logo alguma coisa tem que lá estar, mas neste novo álbum,
surge, não só mais controlada, como também com mais fineza! Senão, repare-se,
por exemplo, no texto introdutório ou na poesia de Sem Saia Nem
Soutien! Mas, o que mais se destaca neste Manual é que os temas estão mais
elaborados tanto ao nível rítmico (bateria e baixo, provavelmente com o seu
melhor desempenho), quanto melódico, apresentando uma série de hinos punk
que, seguramente, perdurarão e serão cantados até a voz doer… ou até cair para
o lado! De resto, mantém-se a acidez deste agreste produto vínico, apontam-se
baterias aos lendários problemas nacionais e ainda sobra tempo para uma
homenagem aos seminais Motörhead. Ou seja, um disco a sério e não apenas
um conjunto de macacadas! [77%]
Excelente texto! Os Zurrapa são de facto mordazes!
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