Pequena Sorte (CAVALHEIRO)
(2025, Independente)
Em Pequena Sorte, Cavalheiro arrisca uma viragem estética. Logo a abrir, Dança Macabra torna-se marcante por um trabalho rítmico e de baixo a evocar o rock nacional dos anos 90 e a herança de Delfins, Clã e afins. Os versos finais, retirados da icónica inscrição da Capela dos Ossos, em Évora, acabam por ter um simbolismo que promete mais densidade do que aquela que o disco acabará por apresentar. O álbum oscila entre guitarras ásperas e diretas e o ADN de cantautor, expandindo-se através de colaborações que elevam várias faixas. Os vocais femininos etéreos sobre guitarras ondulantes aproximam o disco do indie rock mais atmosférico, enquanto temas de estrutura acústica e minimalista reforçam a vertente introspetiva. Esta multiplicidade de vozes e registos cria um mosaico íntimo e partilhado, revelando um Cavalheiro mais aberto e mais arriscado. [77%]
Soul Is The Key (EREWÄN)
(2025, FTF Music)
Depois de uma longa
introdução instrumental, Greetings From Slumberland, marcada por uma
atmosfera contemplativa bem conseguida, Soul Is The Key começa por
prometer um percurso sólido no cruzamento entre rock progressivo, folk,
música celta e trovadoresca. Erewän é um projeto essencialmente a solo,
idealizado por um único músico que recorre a convidados pontuais para
enriquecer o espectro instrumental e vocal. Essa lógica colaborativa resulta em
ganhos claros ao nível da guitarra. Neste particular há solos de muito bom
nível espalhados pelo disco. No entanto, o principal problema de Soul Is The
Key são os vocais. Mesmo temas com potencial evidente, como o belíssimo Revealing
Walls, que poderia ser um dos pontos altos do disco, acabam comprometidos
por este fator. Quando surgem vozes convidadas, o panorama melhora
substancialmente. Estilisticamente, o álbum evoca com frequência o universo de Blackmore’s
Night, sobretudo nos momentos eletroacústicos, nas melodias folk e
nos climas celtas, sendo Blackening Sky um dos exemplos mais claros
dessa filiação estética. Soul Is The Key é um disco de ideias
interessantes e bons momentos instrumentais, mas profundamente desequilibrado,
onde a qualidade da escrita e da execução instrumental acaba por ser
sistematicamente travada por fragilidades vocais difíceis de contornar. [73%]
A Viagem Vai a Meio (SAL)
(2025, Independente)
A Viagem Vai a Meio, o
segundo álbum dos SAL, apresenta uma travessia sonora que expande a
identidade que a banda foi esculpindo desde a estreia Passo Forte
(2021), entre rock, folk e música popular portuguesa. Com a
espetacular A Meta como ponto alto, a banda equilibra variações de rock
inspirado no legado de António Variações com uma aproximação à canção popular.
Como, aliás, melhor se percebe em De Onde Vem. Mas também tece ritmos
que evocam cantautores de referência como Sérgio Godinho e José Mário
Branco, sem perder a sua própria voz. Um Milhão É Só Um Milhão junta
a essa tapeçaria elementos jazzísticos, experimentais e psicadélicos. É um
dos momentos mais ousados em composição. Transbordo expande esse
universo para a world music, Pedaço de Sal confirma o seu sabor rock’n’roll,
enquanto a profundidade lírica de Mentira Viral sublinha a ambição
poética do disco. O álbum encerra com Homem Lirio, cujo uso de percussão
tradicional e aproximações ao cante alentejano oferece uma conclusão
contemplativa a uma viagem que está claramente “a meio”, como o título indica. [83%]
Imperfect Silence (ENIGMATIC SOUND MACHINES)
(2025, Progrock.com’s
Essentials)
Imperfect Silence, terceiro
álbum da carreira dos Enigmatic Sound Machines, move-se no território do
prog/space rock atmosférico, mas fá-lo sem recorrer a grandes
exercícios de virtuosismo ou a progressões exuberantes. Aqui, o foco está
claramente nos ambientes, na criação de paisagens sonoras esotéricas e
contemplativas, muito assentes na exploração tímbrica de diferentes tipos de
maquinaria e texturas analógicas. As referências a Pink Floyd e Focus
surgem de forma reconhecível, sobretudo na forma como o espaço e o reverbe
são usados como motores narrativos, para além dos elementos mais distintivos,
que são os apontamentos de flauta e saxofone. Os dois temas instrumentais que
abrem e fecham o álbum afirmam-se como dos momentos mais conseguidos do
alinhamento, enquadrando de forma eficaz o conceito global. Um caminho que
deveria ser mais explorado, sobretudo face às evidentes falhas no capítulo
vocal. Pelo meio, Hallow sobressai pelo arranjo, pelo groove
envolvente e por uma aura simultaneamente espiritual e tribal. Imperfect
Silence não é um álbum de impacto imediato ou de demonstração técnica. É uma
proposta de imersão sonora e discreta. E é neste âmbito que deve ser ouvido. [70%]
Falso Infinito (PASSO REAL)
(2025, Independente)
Em Falso Infinito,
os Passo Real apresentam um retrato confessional e melancólico, nascido
dos devaneios de Hugo Formiga, algarvio radicado no Porto. A matriz
sonora cruza metalcore emocional com um lado alternativo assumido, abrindo
ainda espaço para ambiências pop e paisagens indie. O álbum
move-se entre momentos calmos e hipnóticos e súbitas explosões de guitarras ferozes
e claustrofóbicas a contrastar com uma voz que preserva sempre um certo elan
de doçura. A secção rítmica revela trabalho e cuidado nos ritmos e compassos,
enquanto a inclusão pontual de coros acrescenta peso emocional a um álbum que,
nesse campo, se revela particularmente intenso em Cansado. Apesar de
recorrer com frequência à mesma fórmula estrutural, este álbum de estreia
mantém coesão e impacto, fazendo com que a vulnerabilidade lírica e a
intensidade instrumental convirjam de forma particularmente eficaz. As
referências a Linda Martini, Placebo, Ornatos Violeta ou Deftones
são filtradas por uma identidade claramente pessoal, confirmando o potencial do
projeto e a sua capacidade de transformar inquietação pessoal em catarse
sonora. [77%]






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