Entrevista: Testemunhas de Jeová

 


Testemunhas de Jeová é um novo e muito interessante projeto nacional. Criado originalmente como projeto paralelo dos Ancharge e com a intenção de ser apenas uma entidade de estúdio, Reino de Satã é o disco de estreia que já corre por aí. Corre e tem feito miséria por onde tem passado, com os fãs e a crítica rendidos. Já sem o seu vocalista, que saiu já depois do lançamento do disco, o agora, duo juntou-se para falar com Via Nocturna.

 

Olá, pessoal, antes de mais podem apresentar-nos este novo projeto, Testemunhas de Jeová? Quando começaram e com que objetivos?

O projeto Testemunhas de Jeová nasceu em 2018. Em 2019, paralelamente aos ensaios de Ancharge, esta nova ideia ganhou forma. O objetivo era gravar algo na onda de VIVO de Ratos de Porão: rápido, curto, intenso. Os nossos objetivos, como sempre, passam por registar/gravar. Mal sabíamos que, algumas semanas depois, esta merd* ia fechar toda. Simultaneamente, ocorreu-nos que tínhamos material gravado (esqueletos) e que podíamos tentar gravar durante esse período.

 

Que nomes ou movimentos mais vos inspiram ou influenciam?

Ouvimos de tudo, consumimos toda a arte, por assim dizer. Daí termos vários projetos, de vários estilos. Mas o thrash/punk ou crossover-thrash, são transversais aos elementos de Testemunhas. Também a língua Portuguesa teve aqui um desempenho importante, linhas escritas em português incisivo, mordaz e, por vezes, impiedoso. A língua, a simplicidade agressiva, a comunicação. Não é só fazer 'barulho'!

 

Porque Testemunhas de Jeová e porque Reino de Satã? A (s) religião (ões) é (são) o vosso tema predileto de crítica?

E porque não 'Testemunhas de Jeová'? Por vezes, o óbvio está logo ali, à mão de semear e não exige muita reflexão. É uma forma que nós também encontramos de nos desconstruir, não levar muito a sério estas coisas. Teremos as nossas relutâncias acerca de sistemas, neste caso, o religioso, mas as letras são da exclusiva autoria do ex-vocalista.

 

Numa sociedade tão politicamente correta onde tudo é visto como ofensa, não temem reações ao vosso nome? Ou já tiveram?

Andamos na casa dos 50 e, sinceramente, nesta altura, já nada tememos. E, muito menos, qualquer reação, venha ela donde vier. As próprias Testemunhas de Jeová (culto) são uma brincadeira. É um jogo com regras subvertidas, uma anedota, uma limitação auto-imposta por ordem de terceiros. Lá está, por terceiros! Afinal, o que mais importa é o ser humano e toda a sua liberdade e isso, poucos defendem, seja qual for o sistema pelo qual te deixes capturar: religioso, político, financeiro.

 

Mas muita fonte de inspiração não foi usada, pois não? Os temas ainda são anteriores às últimas polémicas na Igreja, pelo que será de supor que rapidamente voltem a testemunhar?

Sempre atual! As letras evocam personagens históricos e acontecimentos seculares. Neste caso, a Igreja, os arautos da religião cristã sempre estiveram metidos em merd*, pior que agora. Basta relembrar a Inquisição e o Santo Ofício. "Galileu Galilei" é um desses exemplos! Mas a sua letra é, facilmente, transposta para os dias de hoje: se discordas do rebanho e vais contra o 'patriarcado', podes ser queimado! Galileu não foi, literalmente.

 

O vosso primeiro trabalho já está cá fora com o selo Selvajaria Records. Quando se cruzaram os vossos caminhos?

Não tem mistério nenhum. Na altura, o Hugo Rebelo (responsável pela Selvajaria Records) colocou-nos a questão, se podíamos lançar Testemunhas pela sua editora, à data, ainda no início. Como era o vocalista do projeto, concordámos nessa parceria.

 

As reviews têm sido fantásticas. Estavam à espera de uma receção destas?

Desde o instrumental que sabíamos ter uma boa base. Com a voz, coros e em português, o resultado final agradou-nos. Portanto, essa é a parte mais importante. Tens de gostar, de sentir que, possivelmente, as pessoas vão gostar também. No geral, tem sido uma agradável surpresa o feedback que vamos tendo, recompensador, mas, de certo modo, até inesperado na homogeneidade (pela positiva) da crítica.

 

Parece que há uma história engraçada a propósito do vosso logo (espetacular, por sinal). Querem partilhar?

Quando fizemos a proposta para a capa do álbum, queríamos garantir que toda a essência estava lá, todos os ingredientes para uma mistura de sucesso e, como podem ver, o resultado foi bem além das espetativas mas, basicamente, queríamos prestar uma homenagem a uma das nossas grandes influências musicais, os Death, e parece que o resultado fala por si. E é aqui que entra o logo... O Victor Costa (ilustrador) desenhou a capa [(a sua estreia P.O.V. (point of view)], alguém a olhar do interior de sua casa pelo monóculo. Na altura, ficámos só com essa 'bola'. Não tínhamos logotipo, portanto, o logo nasceu para se adaptar ao artwork existente. O Paulo Serra, responsável pelo logo, fez um trabalho brilhante!


Porque escolheram um tema dos brasileiros Olho Seco para uma versão?

Principalmente para prestar homenagem a uma das mais influentes bandas da cena brasileira, mas também pelo conteúdo das suas letras, elas espelham bem a interrogação que existe no fundo de nós, será que com o estado deste geóide podemos pensar que vamos ter um amanhã?

 

Uma das críticas que vos tem sido apontada é a muito curta duração do álbum. Mas faz parte do cardápio do género, não é? Ainda assim, estão a ponderar aumentar uns segundinhos a cada canção no próximo álbum?

Sem dúvida que a duração das músicas e do álbum, no seu todo, é pouco extensa, mas nada disso foi propositado. Fizemos as músicas como quisemos, com a duração que achámos melhor na altura, mas se virmos bem, a força e energia que tem este álbum, faz com que ele tenha tudo na proporção certa, e acerca de acrescentar uns segundos por música no próximo álbum, nós preferíamos juntar esses segundos e apresentar mais 3 ou 4 músicas que este Reino de Satã.

 

Como decorreram os trabalhos em estúdio?

Bem, sempre com a boa disposição que nos carateriza e a trabalhar no duro. Brincar a sério, como sempre.

 

E palco? O que tem acontecido e o que há previsto para o futuro?

A nível de palco, não tem acontecido nada porque, inicialmente, não era esse o objetivo, seria um projeto de estúdio apenas. Mas nunca viramos a cara a qualquer desafio que nos lancem, por isso nunca se sabe…

 

E por falar em futuro, quais são os vossos objetivos enquanto Testemunhas de Jeová?

O nosso principal objetivo como Testemunhas será passar a palavra ao maior número possível de “crentes” no maior espaço de tempo possível, ou seja, será fazer música rápida, agressiva e com letras cáusticas e de dedo apontado para o que achamos serem os podres deste mundo durante muitos anos. Por isso, podem contar com, pelo menos, mais um versículo da palavra, o resto logo se verá.

 

Obrigado, pessoal! Querem acrescentar mais alguma coisa?

Só queríamos finalizar dizendo que este é apenas o primeiro capítulo da palavra que iremos espalhar pelos lares deste mundo, mais novidades virão!

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DISCO DA SEMANA VN2000: Demonology (MELODIUS DEITE) (Art Gates Records)

MÚSICA DA SEMANA VN2000: As Above, So Below (HARTLIGHT) (Kvlt und Kaos Productions)

GRUPO DO MÊS VN2000: Alpha Warhead