Entrevista: Marla

 

A verdade é que o panorama musical português está cada vez mais plural e aberto a vozes singulares. Nesse sentido, Marla afirma-se como mais um nome de qualidade a juntar a tantos outros, embora se situe num território à parte: sombrio, visceral, íntimo e magneticamente sedutor. Sombra & Sangue, o seu álbum de estreia, marca um regresso a si mesma depois de anos a navegar entre projetos que não a refletiam por completo. Nesta conversa, falamos sobre a génese do projeto, a construção de uma identidade sonora e visual coerente e os desafios e revelações que acompanharam esta estreia. Uma viagem por entre sombra e luz.

 

Olá, Marla, como estás? Para começar, podes apresentar um pouco este teu projeto?

Obrigada pelo convite. Marla nasceu de uma constante insatisfação com o que andava musicalmente a fazer. Por mais bonitos que fossem, os projetos não me refletiam. Sentia-me um pouco “músico de sessão” que escrevia para algo feito num estilo não necessariamente meu. Sou muito camaleónica e adapto-me sempre, mas ao fim de algum tempo qualquer pessoa sente necessidade de um regresso a si. Marla é isso mesmo.

 

No título do álbum Sombra & Sangue, identificamos aí duas imagens fortes: a escuridão e o visceral. Como surgiram essas duas ideias e que repertório simbólico tu queres que o álbum evoque com esse contraste?

O álbum é uma expressão da própria existência e das pulsões que nos movem. Por um lado, a corrente de vida que nos dá ânimo, por outro, o que reprimimos e negamos em nós mesmos. O belo assumido e o (igualmente) belo que são as nossas tempestades internas. Essas ideias não tiveram que surgir porque sempre estiveram presentes na minha forma de ver o mundo, de modo dual e dicotómico.

 

Falemos de influências: que artistas ou géneros musicais mais marcaram o arranque deste projeto e de que forma se refletem nas tuas composições?

A minha composição é simples e crua. Talvez reflita mais uma vibe Nick Cave ou Johnny Cash. Mas na produção, pedi ao Bruno Celta que as transformasse em algo mais técnico, mais complexo em texturas tipo Nine Inch Nails ou Marilyn Manson. Ele conseguiu de forma exímia reproduzir no plano material o que eu tinha apenas na cabeça enquanto conceito.

 

A produção do álbum está a cargo de Bruno Celta (da Prima Donna Recordings) e a masterização de Rui Dias (Estúdio Mister Master). Como foi o processo de escolha da equipa técnica e de que modo a sua intervenção ajudou a concretizar a tua visão sonora?

A escolha foi simples. Já trabalhava como manager do Bruno desde o final de 2023, acompanhei todas as etapas do lançamento do seu álbum A Catarse Não é o Fim e achei-o extraordinariamente bem tocado, bem misturado e produzido. Pedi para fazer o meu sem sequer pensar noutra hipótese. Nunca houve outro plano. O Rui Dias também foi uma escolha muito fácil, pois é o rei da masterização em Portugal. Para além de ser uma pessoa fantástica, disponível e pedagógica. Não há plano B.

 

Bruno Celta, que também tocou todos os instrumentos. Por que optaste por uma versão tão reduzida de músicos?

Porque Marla… sou eu. Todas as outras pessoas que possam aparecer eventualmente em palco são músicos e pessoas espetaculares que me acompanham, mas Marla há só uma. E o Bruno toca na perfeição todos os instrumentos, compõe todas as linhas e faz os arranjos necessários para depois orientar os músicos em palco. Equipa que ganha não se mexe e é muito mais fácil trabalhar assim do que gerir egos e disponibilidades de uma equipa de 5 ou 6. Já tive a experiência.

 

O álbum assenta num universo sonoro sombrio, mas magnético, onde a força do rock se entrelaça com a sensualidade do pop alternativo. Podes explicar mais detalhadamente como tens vindo a definir essa “essência” e que traços da tua identidade artística se revelam no álbum?

Acho que comecei a estar mais segura de mim e a ter menos problemas em assumir quem sou, como mulher e como artista. Estou mais confortável em explorar a minha sensualidade e energia feminina acompanhada dessa sombra ou lado mais pesado que sempre senti. Se é o mais mainstream? Não. Se me preocupa? Também não.

 

Antes deste álbum, tens o single de estreia The Beginning Of The End e assinaste contrato com a editora Farol. Como foi para ti passar do single para o álbum completo e que aprendizagem mais significativa tiraste dessa transição?

Quando lancei o single, o álbum completo já estava a ser produzido. A única coisa que mudou foi passá-lo de inglês para português. O que foi relativamente simples e até mais impactante. Aprendi imensas coisas sobre produção com o Bruno e até coisas tão simples como eu achar que não conseguia fazer certas coisas e ele me pôs constantemente à prova e confiou nas minhas capacidades.

 

O panorama da música portuguesa contemporânea abre espaço para vozes diferenciadas. Como vês o lugar da Marla dentro desse panorama e que tipo de audiência pretendes alcançar?

A audiência que pretendo alcançar é a que me quiser ouvir. Com Marla canto em português, tenho músicas mais ou menos pesadas sempre dentro do alternativo, mas com lugar para jovens e para seniores. Acho que a faixa que mais me ouve vai dos 30 aos 55, no entanto, sei que se outras faixas etárias ouvirem, irão gostar. Tudo depende de se consigo chegar aos seus ouvidos ou não. É tudo uma questão de oportunidade. Quanto ao lugar de Marla, é o que for. É o que me derem e o que eu quiser ocupar.

 

Em termos de imagem, arte gráfica e identidade visual,qual foi o mote para a capa do álbum e como procuraste que o visual refletisse o conteúdo musical?

O diretor, não apenas musical, mas criativo, é o Bruno Celta. A ideia foi sempre evidenciar sensualidade e algum misticismo. O visual é a música estarão sempre juntos a par e passo. Se há uma coisa que diferencia Marla do que se vê habitualmente no meio musical, é a coerência artística.

 

Quais foram os momentos mais desafiantes durante a criação do álbum, quer a nível de composição, produção ou até emocional, e qual foi o momento mais gratificante até agora?

Os desafios passaram por eu ser uma rebelde que antes de dizer que sim, gosta primeiro de dizer que não. Então, com um produtor exigente e uma artista chata e opositora, às vezes chocávamos. Acabei sempre por lhe dar razão, mas não sem espernear antes. Para mim o mais gratificante é ouvir o álbum e sentir que faria tudo igual se fosse hoje.

 

Depois de Sombra & Sangue, qual é o teu desejo ou planos futuros, nomeadamente ao vivo?

Ao vivo dar cada vez mais concertos, sempre fortes e marcantes musical e visualmente. Dia 29 abrirei o Le Cabaret Rock dos Custom Circus e dia 31 de janeiro farei a abertura do Área 9 Fest. Mas há mais planos para um outro álbum… que ainda estão em segredo.

 

Obrigado, Marla. Queres acrescentar mais alguma coisa?

Apareçam nos concertos. É só isso que qualquer artista deseja. Apoiem ao vivo!

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