Com
mais de três décadas de percurso, os Booby Trap permanecem como uma entidade
inquieta dentro do underground
nacional, recusando fórmulas fixas e reafirmando, a cada lançamento, uma
identidade construída precisamente sobre a mutação. Tendo por base o lançamento
do novo álbum L(i)mbo, Pedro Junqueiro fala-nos sobre o presente da
banda, a forma como este trabalho se inscreve na sua discografia e a
continuidade de uma postura artística que privilegia liberdade criativa,
frontalidade lírica e resistência estética.
Olá, Pedro, como estás?
E como tem sido a vida dos Booby Trap desde a última vez que conversámos?
Os Booby Trap continuam em
forma, fazemos o que queremos, quando queremos e como queremos, tocamos a música
de que gostamos e continuamos a tocar ao vivo regularmente entre os álbuns que
vamos lançando.
L(i)mbo é um título
carregado de significados. Sentes que este álbum habita deliberadamente num
limbo estético e conceptual, nomeadamente entre o metal e o punk,
mas também entre o colapso e a celebração da vida?
Limbo representa uma dualidade, entre o
bem e o mal, o certo e o errado, o branco e o preto, por mais que o mundo se
esteja a arrastar para o precipício, cabe-nos a nós e à nossa própria
moralidade decidir o que é o correto, não devemos seguir o que os outros nos
tentam enfiar pela goela abaixo, antes sermos felizes enquanto trilhamos o
nosso próprio caminho.
Ao sexto álbum, optam
pela primeira vez por cantar exclusivamente em português. O que vos levou a
tomar essa decisão agora e de que forma a língua materna alterou ou aprofundou
a forma como escrevem e comunicam as vossas mensagens?
Não foi algo premeditado, já tínhamos
algumas músicas em português nos álbuns anteriores, foi apenas mais uma ideia
que eu tive quando começámos a escrever para este disco, a primeira música saiu
em português e eu decidi que esse deveria ser o caminho desta vez.
A verdade é que sentimos que o simples facto de as novas músicas serem cantadas
na nossa língua materna afetou a nossa escrita, se por um lado em termos
líricos me obrigou a ser mais cuidadoso, por outro lado, em termos musicais o
português puxou-nos para o lado mais punk rock e hardcore.
As habituais reflexões
sobre o quotidiano humano e a justiça social dão aqui lugar a um registo mais
pessoal. Este é um disco de quem já nada deve? Houve uma libertação criativa
associada a essa consciência?
Penso que isso se deveu ao facto de
as letras terem sido cantadas em português, fez com que inconscientemente elas
fossem mais pessoais e contassem partes da minha vida, situações pelas quais eu
ou pessoas que me são próximas viveram e continuam a viver.
A inclusão de Antissocial,
clássico dos Trust, funciona quase como manifesto. Por que sentiram que este
tema fazia todo o sentido neste álbum e neste momento específico da vossa
carreira?
Tanto eu como o Azevedo temos uma
ligação já há muitos anos com essa música, mas na versão dos Anthrax, na
verdade, a letra desta música representa muito bem aquilo que nós somos, um
pouco antissociais no aspeto de que não gostamos de seguir modas ou tendências
e só fazemos aquilo que realmente nos dá prazer.
Ainda sobre Antissocial: como
foi o processo de adaptação da letra para português? Procuraram uma tradução
fiel ao original ou uma reinterpretação alinhada com a vossa realidade e
discurso?
Foi um pouco de ambos, estudei a
letra original dos Trust assim como a adaptação dos Anthrax,
peguei em ideias dessas duas versões e colei-as com as minhas próprias ideias.
Em muitos temas, o
discurso surge particularmente direto e sem filtros. Esta abordagem continua a
ser, para vocês, uma ferramenta de resistência e denúncia eficaz em 2025?
Sempre! A música alternativa sempre
foi uma forma de resistência. Resistência contra a opressão, contra o
autoritarismo, contra a monotonia é uma forma de sermos ouvidos, de transmitir
ideias e de fugir ao marasmo do dia a dia. Num mundo cada vez mais radicalizado
e de extremos é necessário mais do que nunca denunciar abusos.
Musicalmente, o álbum
soa cru, urgente e despojado, mas ao mesmo tempo maduro. Como foi o trabalho
com o produtor Paulo Vieira na definição deste equilíbrio entre intensidade e
clareza?
O Paulo Vieira tornou-se o
sexto elemento dos Booby Trap, já é o terceiro trabalho seguido que
fazemos com ele, há uma sinergia de ideias entre banda e produtor, ele percebe
bem onde queremos ir e faz com que lá cheguemos facilmente.
Na entrevista de 2023,
falavas da importância de manter a identidade intacta apesar do tempo e das
mudanças. L(i)mbo é a confirmação dessa coerência ou representa uma
rutura consciente com o passado?
Nós temos uma identidade muito
própria ao não manter uma identidade marcadamente definida, o nosso som é sem dúvida
crossover, mas não nos limitamos à fórmula metal/hardcore, sempre fundimos outros géneros
mantendo uma linha musical lógica, para qualquer pessoa que nos acompanhe há
muito tempo consegue perfeitamente distinguir todos os nossos álbuns, mas
identificá-los como sendo o puro som Booby Trap.
Com mais de 30 anos de
percurso, que lugar ocupa L(i)mbo na discografia dos Booby Trap?
É o mais recente e por isso o mais
importante. Cada álbum reflete uma certa fase da banda e dos seus integrantes,
enquanto músicos e enquanto pessoas, se por um lado cada álbum transmite aquilo
que cada um de nós mete no disco musicalmente, ao mesmo tempo reflete o estado
emocional em que cada elemento estava naquela fase da sua vida.
Por fim, lançar este
álbum em CD e LP através da Firecum Records é também uma afirmação de
resistência num mercado cada vez mais digital. Que importância continua a ter o
objeto físico para vocês e para o vosso público?
É uma posição que defendemos com
unhas e dentes, somos do tempo do analógico e o facto de insistirmos em lançar
os nossos álbuns sempre em formato físico é mais uma vez uma forma de
resistência contra o caminho que o mundo segue.
O que têm em vista em
termos de promoção deste álbum ao vivo?
Neste momento já fizemos dois
concertos de lançamento, um no Porto e outro em Lisboa, temos já mais uma mão
cheia de concertos agendados e pretendemos continuar a levar o nosso som pelo
país fora.
Obrigado, Pedro! Queres
acrescentar mais alguma coisa?
Apareçam nos nossos concertos, ouçam
e comprem os nossos discos e apoiem o underground de uma forma geral.



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