Entrevista: Inesh Bueno

 

Na intimidade do silêncio cúmplice do rio, Inesh Bueno encontrou um espaço onde a fragilidade não se esconde, antes se transforma em matéria criativa. My Song By The River surge como um primeiro retrato assumidamente cru e emocional, um disco que não procura respostas fáceis. Nesta conversa com a artista, falámos sobre o momento em que o privado precisou de se tornar público, sobre identidade, linguagem e vulnerabilidade, e sobre como estas músicas funcionam menos como ponto de chegada e mais como um capítulo fechado, necessário para que outros, ainda por escrever, possam finalmente nascer.

 

Olá, Inesh, como estás? Obrigado pela disponibilidade. My Song By The River é apresentado como um álbum de estreia íntimo, cru e emocional, que nasce da vontade de transformar fragilidade em arte. Em que momento sentiste que essas canções já não podiam ficar apenas no espaço privado e precisavam de ganhar forma pública?

Estas músicas durante muito tempo ressoavam em mim, estava sempre a cantá-las e acho que isso diz muito por si. Com o passar dos anos, tive algumas pessoas que insistiram comigo para as tirar das gavetas, para “fechar” esse capítulo e para dar espaço a novas criações. Acho que, ao acumular ideias e conversas, decidi retomar o caminho e tirá-las da gaveta.

 

Cada faixa funciona como uma etapa dessa caminhada emocional, como se fizesse parte de uma narrativa maior. Pensaste o álbum desde o início como um todo coeso ou as canções foram ganhando sentido coletivo apenas numa fase posterior?

Eu em 2020 comecei a criar o meu primeiro EP, cujo título era My Song By The River, exatamente como o álbum. O álbum tinha todo um conceito e foi pensado para tal. Mas perdi o meu trabalho todo (nesse EP estavam a My Song By The River e a Tell Me If I’m Wrong) e fiquei um pouco parada até o álbum surgir. O álbum em si não foi pensado com conceito, mesmo que acredite muito em álbuns e histórias, a verdade é que o álbum acabou por agarrar na minha história de uma época muito má. Com isso o conceito criou-se por si só. Só quando o álbum começou a ganhar a sua estrutura é que percebi que havia um conceito, um início e um fim.

 

Há no disco uma reflexão muito clara sobre identidade, feridas pessoais e a coragem necessária para as enfrentar. Até que ponto estas canções funcionaram também como um processo de autoanálise ou de reconciliação contigo própria?

Talvez no inconsciente, mas não senti que as minhas músicas foram soluções ou uma forma de me entender melhor. Foi sim, um abraço, uma forma de expressar algo que nem eu sabia comunicar. Na altura carregava muita dor nas músicas, talvez por ainda estar a passar pelos momentos que me as fizeram criar. Hoje em dia (até no álbum, pois quando o gravei em estúdio já estava numa fase de vida mais pacífica) canto com nostalgia e carinho.

 

A sonoridade do disco aposta numa atmosfera introspetiva e numa interpretação vocal muito exposta. Houve um cuidado consciente em evitar excessos de produção para preservar essa verdade emocional?

A parte atmosférica adveio de uma paixão pelos pads. Comecei a usar muito os sons da Arturia e com isso fiquei fascinada pela capacidade de ambientes que poderia criar. Quando agarrei nas músicas e voltei a dar-lhes vida (em 2024), estava nessa fase de reconciliação com a minha própria pessoa, os sons atmosféricos foram a sonoridade mais humilde no meio de tanta dor para transcrever a paz que, aos poucos, andava a sentir. Acho que, tendo em conta o meu estado de espírito e mental, as músicas acabaram por ser traduzidas por algo mais leve, mais íntimo ao invés de revoltante.

 

No álbum, optas por cantar em castelhano e em inglês. O que motivou esta escolha linguística?

Sempre me senti muito mais confortável a proclamar os meus sentimentos em inglês, talvez por conseguir ser mais honesta com o que sinto. Não sei explicar, talvez comunicar o que sinto sobre mim própria em português torna-se demasiado real, enquanto o inglês (sendo uma língua que fui aprendendo já numa fase “adulta”) torna-se mais distante. Ou seja, acaba por não ter aquele peso todo que poderia ter (não descartado de todo o significado ou o quão profundas as letras são para mim, mas a leveza ao transmitir é sentida de outra forma). Por outro lado, comecei a conhecer a minha voz cantada em português muito mais tarde, na altura estava numa banda de originais (os OMKA) e os meus temas em português ficaram por esses tempos. Por outro lado, o castelhano é a minha língua, digamos, original. Desde pequena que andei no instituto espanhol, reconheço-me ao cantar em espanhol, é onde me sinto mais segura de mim própria. O tema Guerrera de Mil Aguas é sobre o renascer, a aceitação de uma fé e força para além do ser. Esse sentimento não poderia ser explicado de uma forma tão sincera sem ser no meu eu pleno.

 

De que forma cada idioma te permite aceder a diferentes camadas emocionais ou narrativas?

O inglês é um escape para aquilo que não sei transmitir, enquanto o castelhano é para as minhas maiores certezas! O português ainda está numa descoberta (risos) mas sem dúvida que terá o seu espaço mais honesto.

 

Sendo este um disco de estreia que assume a vulnerabilidade como força, sentes que My Song By The River define desde já os pilares da tua identidade artística ou preferes vê-lo como um primeiro retrato, ainda em movimento?

Sem dúvida, um primeiro retrato. Gosto de muitas coisas e vejo-me a evoluir de várias formas e feitios constantemente (o que é algo rico para o ser, mas às vezes confuso). Não olho para este álbum como um “sou eu, sou assim”, mas sim um “fechei um capítulo, esta fui eu”, tanto que atualmente quando canto e apresento estes temas ao vivo, a música reconstrói-se. Acho que esse é o dom do artista. Conta uma história e reconstrói-a sempre sem desrespeitar o que foi, mas sim o que significa também no momento.

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