Entrevista: Maria León

 

Maria León regressa com Brumas do Luar – Lisboa, Mar e Alma, um trabalho marcado por uma forte dimensão poética e contemplativa, onde a cidade, o mar e a memória cultural portuguesa se cruzam com uma escrita intimista. Nesta conversa, a artista fala sobre a génese do disco, o papel da noite e do silêncio no processo criativo, a presença da tradição trovadoresca e a forma como este trabalho reflete uma fase de maior maturidade e autenticidade no seu percurso artístico.

 

Olá, Maria, obrigado pela tua disponibilidade! Brumas do Luar – Lisboa, Mar e Alma carrega um título muito imagético e poético. Em que momento percebeste que este seria o nome capaz de sintetizar a atmosfera e a essência emocional do álbum?

O título nasce dessa fonte interior que se manifesta sobretudo à noite. É no silêncio que encontro maior concentração para escrever e compor. Num sentido figurado, as “Brumas” são essas canções que nasceram à noite e que emergem desse luar imaginário, como que de uma neblina poética de inspiração, onde os sentidos se tornam mais apurados e as emoções mais sensíveis. São um espaço de contemplação interior onde aquilo que sentimos ganha forma. Lisboa é a minha raiz. Foi a cidade onde nasci e vivi também grande parte da minha vida adulta e onde fui muito feliz. Há nela um romantismo mítico e cultural que sempre me marcou, uma cidade de poetas e criadores que atravessam gerações, desde Fernando Pessoa e os seus heterónimos, até Mário de Sá-Carneiro, o modernismo visionário de Almada Negreiros ou mais recentemente a inquietação noturna de Al Berto, pois independentemente de onde eu viva, Lisboa estará sempre no meu coração. O mar é o horizonte que nos fascina e nos recentra enquanto portugueses. Não há português que não sinta uma ligação profunda ao mar ou, no caso de Lisboa, ao Tejo. Ele simboliza a nossa identidade coletiva, a nossa história, e como escreveu Sophia de Mello Breyner: “O mar é a nossa pátria inteira…”. Para mim, o mar também sonho, poesia, viagem, memória, regresso… cada um sente o horizonte à sua maneira. E a “Alma” é esse sentir invisível, único português que oscila entre melancolia, saudade e esperança. O fado é uma herança preciosa, mas a alma portuguesa vai mais além de um género musical que nos caracteriza. Daí que sinto o que chamamos “Alma Portuguesa”, uma essência interior à forma como amamos, recordamos, rimos e choramos, muitas vezes de maneira profunda e silenciosa. Penso que o artista genuíno contemporâneo de raiz portuguesa, é apenas mensageiro criativo dessa dimensão coletiva mais íntima, se assim se propor a expressar o que deveras sente sobre o mundo onde vive e sonha. Quando reuni estes três elementos, as “Brumas, Lisboa, Mar e Alma”, senti que o disco tinha finalmente encontrado o seu nome.

 

Este trabalho pode ser visto como um reflexo da tua maturidade artística e da procura de autenticidade. Que diferenças sentes entre a Maria León deste disco e a dos teus álbuns anteriores?

Vejo este disco como uma continuidade natural do meu percurso. É um reflexo da minha vida pessoal e artística, um espelho da experiência acumulada ao longo dos anos, que hoje se traduz numa maturidade mais consciente das minhas inclinações estéticas. O nosso passado artístico faz sempre parte da nossa história, tudo o que fazemos traz-nos sempre uma verdade sobre nós. Daí que nos discos anteriores, independentemente de ser escritora de canções, como entidade artística a solo, e trabalhando em equipa, houve ainda uma certa procura do que eu queria fazer artisticamente, ou seja, tentei sempre ir ao encontro do que me fazia sentir bem, e sabia bem que não queria esteticamente falando ou o que artisticamente não combinava comigo. Este álbum sem dúvida que reflete uma segurança em relação ao que queria fazer, e senti a necessidade de criar algo que dialogasse com o meu estado de espírito atual, com uma linguagem simultaneamente clássica e contemporânea. Neste trabalho há uma liberdade interior diferente. Pois naturalmente assumi a direção artística deste trabalho em todas as suas dimensões. Desde a escolha do material das canções, ao conceito, ao visual e à mensagem artística que queria transmitir com o meu trabalho. Hoje não procuro provar nada, apenas ser fiel a mim mesma. Para mim, ser artista é simplesmente dar de ti aos outros, a tua Obra como uma extensão do teu ofício que tanto amas fazer, oferecer o que sabes criar, para também inspirar, emocionar ou fazer sonhar. Se alguém se reconhecer numa das minhas canções, como se estivesse a ler um livro ou a encontrar-se numa personagem, já terei cumprido a minha missão. No fundo, cada tema são pequenas personagens literárias com a sua própria história, contadas em forma de música. Tantas vezes eu própria ouço um tema de outro artista e de outro género de música, que me acrescenta e me faz sentir também parte daquela música, porque de alguma forma me emociona, porque a letra até pode ter a ver com algum momento da minha história de vida.

 

A noite, a lua e o silêncio atravessam o imaginário lírico do disco. O processo de composição noturno influenciou também a estrutura musical ou apenas o universo poético?

Sim, influenciaram-se na interação criativa, que existe entre o escrever da poesia e a própria estrutura melódica ou musical, dentro de um certo espírito criativo mais noturno. A noite traz uma escuta mais interior mais profunda, talvez pelo silêncio e pelo espaço criado interiormente, que parece não ser igual às horas diurnas, que facilmente podes sentir que tens de interromper a sessão por alguma razão necessária ou mesmo involuntária e de força maior e isso reflete-se na concentração e também na construção musical. Há talvez durante a noite uma contemplação mais inspirada, no sentido de que tens uma predisposição interior para estar sensível a criares algo original, ou escreveres em estado de inspiração o que sentes no momento ou as ideias chegam mais facilmente ao teu coração, por conseguinte, à tua criatividade natural. Daí que sim, para mim a noite acompanha esse estado de sensibilidade interior. Daí que não é apenas um processo de criatividade aleatória, é intencional, como abrir uma porta dos sentidos para algo mais especial que pode acontecer à noite, um sentir poético e estrutural nessa mágica atmosfera, com uma respiração própria.

 

Há no álbum referências às cantigas de amor e de amigo e à tradição trovadoresca. De que forma procuraste equilibrar essa herança ancestral com uma abordagem contemporânea?

Interessa-me a ideia da cantiga de amor e de amigo como narrativa emocional. Gosto de chamar “Trovas Modernas” a esta forma de cantar ao amor, que não se encaixa nos géneros habituais, pois não é música ligeira, nem pop, nem rock, nem fado. Talvez se aproxime de um folk urbano, onde tradição e modernidade se abraçam num espírito antigo voltado para o futuro. Trouxe essa herança cultural como essência, não como forma rígida ou expressão ultrapassada. As histórias de quem parte, espera ou ama em silêncio continuam profundamente atuais. A modernidade está na linguagem harmónica, na produção orgânica e na forma como essas histórias são cantadas hoje. Estas “Trovas Modernas” habitam um universo feminino, mas também urbano e natural, cidade e natureza em diálogo sensível. No fundo, é tradição reinventada com consciência contemporânea. Porque o nosso passado cultural, na verdade, é uma herança que de alguma forma, nunca deixa de ser atual. São as nossas raízes, transformadas pelo tempo, que nos dão identidade, na música como em qualquer arte.

 

O tema Miragem, coassinado com Rodrigo Leão, e as composições de Carlos Maria Trindade aproximam-te simbolicamente do universo Madredeus. Sentiste que estas colaborações ajudaram a consolidar uma identidade sonora específica para o disco?

Sem dúvida. São artistas profundamente ligados a uma estética portuguesa intemporal. Carlos Maria Trindade trouxe um lado clássico e contemplativo, tanto nos arranjos como nas autorias. Rodrigo Leão acrescentou esse sentimento de um universo paralelo conceptual e atmosférico, na música que ambos trabalhámos em parceria, e onde este tema Miragem é um exemplo desse diálogo artístico, que faz sentido com o meu imaginário. O Carlos Maria Trindade, em termos de arranjos e sensibilidade, soube interpretar esse espírito contemplativo e universal da composição. Ambos contribuíram para a linguagem emocional e artística, que eu queria transmitir neste álbum. Houve, sem dúvida, entre nós uma empatia natural que consolidou a identidade sonora do disco.

 

A presença de instrumentos como piano, violoncelo, flautas, guitarra clássica e percussões confere ao álbum uma dimensão orgânica muito particular. Era importante para ti criar este som despido de excessos?

Era essencial. Quis que os instrumentos soassem naturais, principalmente o piano, o violoncelo, a guitarra e a voz sem excessos de produção. Vivemos numa era de sobreposição e artificialidade. Eu quis regressar à essência: à palavra cantada, à melodia e à verdade interpretativa. Simplicidade acima de tudo.

 

Incluis Presságio, tema com um poema de Fernando Pessoa. O que te atraiu nesse poema e como foi o processo de o transformar em canção sem perder a força literária original?

Fernando Pessoa faz parte do meu imaginário desde sempre. O poema tem uma inquietação espiritual que dialoga profundamente com o disco. Ao musicá-lo, procurei respeitar o ritmo interno das palavras, como se já existisse ali uma música implícita. O desafio foi não interferir demasiado e deixar que a força literária conduzisse a composição.

 

Os temas A Sós e Meu Grande Amor, compostos com o teu irmão Pedro León, foram pensados como um pequeno universo que chamas de Lisboa Bossa. Como nasceu essa ideia e que ligação emocional existe aí à música brasileira da tua juventude?

Nasceu da nossa infância. Crescemos a ouvir vários géneros, mas especialmente MPB. O meu irmão Pedro sempre teve essa inclinação natural. Quando começámos a trabalhar juntos, os instrumentais que ele me enviou tinham uma essência muito ligada à bossa nova. Achei interessante criar essa ponte cultural entre Lisboa e essa memória afetiva da música brasileira. A Sós e Meu Grande Amor são capítulos intimistas sobre o que chamamos de um típico amor feminino, que, apesar de magoada, perdoa tudo e quer continuar a viver esse amor mesmo em desvantagem de sentimentos. Lisboa Bossa é esse cruzamento cultural entre as nossas raízes e a sonoridade que marcou a nossa juventude.

 

O single Barquinho de Papel evoca infância e maternidade com delicadeza. Consideras que este tema funciona como chave de leitura emocional para o álbum?

De certa forma, sim. É um tema muito pessoal, inspirado no nascimento do meu primeiro filho. Fala desse amor incondicional e do reencontro com a nossa própria infância quando nos tornamos pais. O Barquinho simboliza essa viagem interior, sensível e cheia de sonho, onde nós como adultos também nos reencontramos, ao sentir naturalmente o encanto da infância na inocência dos olhos de quem mais amamos. É também uma metáfora para a nossa própria travessia emocional.

 

Depois de uma jornada musical que atravessa várias décadas e diferentes contextos artísticos, da pop-rock aos palcos de teatro, passando pela formação lírica, que papel ocupa este disco na narrativa maior do teu percurso?

É um ponto de consolidação. Depois de atravessar diferentes universos e experiências, este disco representa uma síntese. Sinto-me mais próxima da minha essência enquanto cantautora portuguesa. É um trabalho consciente e assumido.

 

Obrigado, Maria! Queres acrescentar mais alguma coisa?

Acredito profundamente na música como espaço de identidade e resistência cultural. Este disco é o meu contributo para uma ideia de portugalidade cultural consciente e contemporânea. A arte não serve apenas para entreter, serve para nos fazer sentir, pensar e, às vezes, chorar. E isso também é felicidade.

 

Comentários

DISCO DA SEMANA VN2000 #10/2026: Buried Blue (FOR MY PAIN...) (Rainheart Productions)

GRUPO DO MÊS VN2000 #03/2026: DISAFFECTED (Firecum Records)

MÚSICA DA SEMANA VN2000 #10/2026: Scorched (BLACK FLARE) (Anti-Corpos Records)