Reviews VN2000: TELMO PIRES; FLYIN' KINGS; JEFF AUG; COVER DE BRUXELAS; MALABOOS

 


Fado Variações (TELMO PIRES)

(2026, Independente)

Com Fado Variações, o fadista Telmo Pires revisita o universo do genial e lendário António Variações, num EP de cinco temas que funciona como homenagem, mas que não esquece o exercício de reinvenção. Isto porque estes cinco temas trazem mais que uma simples transposição para o território fadista; são interpretações que procuram abrir novas possibilidades expressivas para um repertório único e inesquecível. Com arranjos e produção a cargo de Tiago Machado, Telmo Pires apresenta leituras pessoais de canções icónicas como Estou Além, É P’ra Amanhã ou O Corpo é Que Paga, onde o fado surge apenas como ponto de partida. A presença da guitarra portuguesa, executada por nomes como José Manuel Neto e Luís Guerreiro, convive com piano, cordas e arranjos que ampliam a dimensão emocional destas composições. O resultado é um trabalho curto, mas significativo, onde a entrega vocal e a alma interpretativa de Telmo Pires respeitam o génio de Variações sem abdicar de uma identidade própria. Mais do que um EP de fado, Fado Variações revela-se um tributo sensível e abrangente à intemporalidade de um dos criadores mais singulares da música portuguesa. [81%]





Flyin’ Kings (FLYIN’ KINGS)

(2026, Independente)

Com uma identidade mais vincada, os Flyin’ Kings encerram a tetralogia dedicada aos quatro elementos com o EP Flyin’ Kings, fechando um ciclo iniciado em 2020. A base mantém-se ancorada no reggae, mas é quando o punk rock surge pincelado de ska que a proposta ganha outra vitalidade. Let’s Hit The Road evidencia isso mesmo. Segue uma via que resulta claramente melhor, sobretudo pelo uso do Hammond e dos sopros, que acrescentam corpo, balanço e uma vibração festiva ao tema. A colaboração de Mark Cain (Primitive Reason) reforça essa energia expansiva. Já Believin’ assume-se como arranque luminoso, enquanto Runnin’ e Chillin’ In The Backyard consolidam a fluidez do alinhamento. Nota-se maturidade na produção e maior confiança nas escolhas sonoras. Quando a banda aposta decididamente na fusão entre a urgência do punk, o balanço do reggae e os detalhes orgânicos do ska, o resultado é mais eficaz e envolvente. Um fecho coeso para um percurso conceptual bem estruturado. [78%]





Interim (JEFF AUG)

(2026, Timezone Records)

Interim, de Jeff Aug, é um exercício de depuração. Um homem, uma guitarra acústica e pouco mais, mas suficiente para construir um universo expressivo rico. A base é claramente o fingerstyle, algures entre o rigor clássico e a escola hispânica, mas Aug evita o academismo, preferindo miniaturas emotivas e diretas. Os temas são curtos (raramente ultrapassando os três minutos), o que reforça a ideia de esboços íntimos, pensamentos musicais capturados no momento. Ainda assim, há subtis variações tímbricas: Interim II e Interim III expandem o espectro com nuances adicionais e sugestões rítmicas próximas da percussão, enquanto o tema-título introduz ambiências mais densas e até discretamente elétricas, contrariando a austeridade inicial. As exceções instrumentais (segunda guitarra em New Day’s Dawn, cortesia de Oskar Tauber e o violino em Serenade, a cargo de Justin Ciuche) funcionam como respirações pontuais num disco essencialmente solitário. Minimalista na forma, mas emocionalmente denso, assim se pode analisar Interim. [73%]





Cover de Bruxelas Sessions – Volume II (V/A)

(2026, Lux Records)

Cover de Bruxelas Sessions – Volume II nasce do universo radiofónico da Rádio Universidade de Coimbra (RUC), mais concretamente do programa Cover de Bruxelas, durante muito tempo conduzido por Rui Ferreira e José Braga (RIP). Assumido como o programa dos 3Rs da sustentabilidade — revisitar, reciclar e reutilizar, o conceito parte de uma ideia simples, mas provocadora: “reciclagem… loucura… derrapagem — para que ouvir os originais?”. O programa comemorou recentemente 30 anos, mas este projeto teve início em 2016, quando cinco artistas foram convidados a criar três versões exclusivas para estrear em primeira mão no programa. Este segundo volume recupera esse espírito e volta a reunir cinco nomes ligados ao eixo Coimbra–Leiria (John Mercy, From Atomic, Surma, Corsage e Paul Oak) cada um contribuindo com três leituras muito próprias de repertório alheio. Entre as abordagens mais curiosas está a de John Mercy, que não faz por menos e dedica as suas três versões à mesma banda, os lendários The Parkinsons, criando um pequeno tributo dentro da compilação. Já os Corsage expandem o mapa linguístico da seleção, cruzando o português dos GNR e Rádio Macau com uma incursão pelo castelhano associado a Jeanette. O resultado é um mosaico heterogéneo, no qual a ideia de cover funciona sobretudo como ponto de partida criativo, refletindo o dinamismo da comunidade musical que gravita em torno da rádio universitária, estandarte de uma rádio livre e experimental. [80%]





Sintétika (MALABOOS)

(2026, Biruta Records)

O EP Sintétika, dos Malaboos, confirma a constante inquietação criativa do trio português e inaugura um território novo na sua discografia com o lançamento de um registo totalmente instrumental. Ao longo destas composições, a banda constrói um curioso ponto de encontro entre rock gótico, pulsação eletrónica e uma abordagem maquinal à repetição rítmica. Guitarras densas e atmosféricas cruzam-se com pianos sugestivos e texturas sintéticas, criando paisagens sonoras que oscilam entre a frieza tecnológica e uma estranha carga emocional. O título Sintétika revela-se particularmente acertado. Por aqui desfilam a artificialidade própria do universo eletrónico bem como a ideia de depuração, de música reduzida à sua essência expressiva. Sem o recurso à voz, os Malaboos apostam na força das atmosferas e na construção de ambientes imersivos, demonstrando maturidade na gestão de tensão e dinâmica. O resultado é um EP breve, mas eficaz, onde o trio reafirma a sua identidade experimental e o gosto por territórios híbridos dentro do rock alternativo mantendo a energia e a autenticidade que os caraterizam desde Nada Cénico. [76%]

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DISCO DA SEMANA VN2000 #12/2026: The Force Of Nature (EPINIKION) (Independente)

GRUPO DO MÊS VN2000 #03/2026: DISAFFECTED (Firecum Records)

MÚSICA DA SEMANA VN2000 #13/2026: Ithaca (Return Of The Eternal King) (TRIUMPHER) (No Remorse)