A editora Spectral Works, uma subsidiária da influente Ethereal Sound Works, anunciou a
assinatura de contrato com os Os Vultos, enigmático coletivo de drone,
noise e experimental sediado em Bergen, na Noruega, colocando um ponto
de viragem num percurso iniciado há mais de duas décadas e que, até agora,
permanecia praticamente invisível fora do seu círculo mais próximo. Formados em
2005, em Bergen, os Os Vultos nasceram de uma confluência improvável de
trajetórias pessoais e artísticas. O português Abel Van Pires, natural
de Trás-os-Montes, cruzou-se com Jens GT Rolfsens na biblioteca local,
num encontro fortuito motivado por gostos culturais partilhados. A esse núcleo
juntaram-se Greta Spyd Gabler e Per Bølger Gyunt, completando um
quarteto cuja identidade se construiu tanto fora como dentro da música. Antes
mesmo de assumirem formalmente o nome, já eram uma presença reconhecível na
cena cultural de Bergen, sendo habituais em concertos no Landmark, eventos no BIT
Teatergarasjen ou performances da Carte Blanche. A convivência intensificou-se
quando passaram a viver juntos num kollektiv em Sandviken, junto ao
fiorde, cimentando uma dinâmica criativa espontânea e despreocupada. Ignorados
pela maioria dos destinatários a quem enviaram as primeiras gravações, os Os
Vultos optaram por um caminho singular, tornando-se uma banda “para si
próprios”, afastada de validação externa e movida por uma criatividade
silenciosa e obstinada. Ao longo dos anos, continuaram a gravar e a expandir o
seu universo sonoro, sempre à margem de qualquer circuito convencional. Duas
décadas depois, surge finalmente a decisão de editar esse vasto arquivo. As
razões permanecem envoltas em mistério, algo coerente com a própria aura da
banda. Certo é que a parceria com a Spectral Works promete trazer à
superfície um corpo de trabalho até agora desconhecido, que poderá revelar-se
uma peça singular no espectro mais subterrâneo da música experimental europeia.

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