Quando um Fio S’ensarilha (SEGUE-ME À CAPELA)
(2026, Independente)
Quando um Fio
S’ensarilha confirma o regresso de Segue-me à Capela
após uma década de silêncio discográfico, reafirmando um projeto onde a
tradição é uma matéria viva e em constante reconfiguração. Assente numa
abordagem polifónica, o septeto constrói um tecido sonoro, onde sete vozes se
entrelaçam como fios de um mesmo tear, explorando a metáfora do “nó”. Partindo
de recolhas tradicionais e arranjos originais, o álbum percorre geografias
sonoras pela ruralidade portuguesa, por vezes com ressonâncias mouriscas,
insinuando uma memória coletiva onde o sagrado e o profano coexistem. Por isso
não serão de estranhar passagens onde emerge um certo ocultismo, ligado ao
imaginário lendário e às sombras da tradição oral. A participação de Amélia
Muge na produção musical, bem como os contributos dos convidados Stereossauro
e Sebastião Antunes, acrescentam subtileza ao conjunto, sem desvirtuar a
centralidade da voz. Quando um Fio S’ensarilha é um exercício de
reinvenção, um disco que honra a ancestralidade enquanto a projeta para um
presente inquieto. [73%]
Os Melros (MIGUEL DA SILVA E CONVIDADOS)
(2026, Independente)
A relação entre música e palavra é o eixo estruturante de Os Melros, e é a partir dessa premissa que Miguel da Silva constrói um disco coeso na intenção, ainda que diverso nas formas. A viola de fado assume um papel central, um elemento identitário e motor composicional que sustenta quer os momentos mais despidos quer os arranjos mais densos. Por outro lado, a alternância entre a declamação dos poemas de João Monge e peças instrumentais revela uma arquitetura pensada. As intervenções de Pedro Lamares e Maria João Luís destacam-se pela precisão interpretativa e pela forma como moldam o ritmo interno das peças, enquanto Zeca Medeiros introduz um tom mais ambíguo e teatral. Já Irmão com Sandro Feliciano evidencia uma abertura a texturas menos convencionais, onde a eletrónica e a fragmentação também têm o seu espaço. Os instrumentais funcionam como pontos de equilíbrio dentro da narrativa, reforçando o papel expressivo da guitarra. Por fim, o fecho com a versão coral do tema de abertura (também ele já com excelentes arranjos corais) sublinha a dimensão coletiva do projeto. Sem cair em excessos, Os Melros afirma-se como um exercício consistente de articulação entre composição, palavra e identidade sonora contemporânea. Que tanto vale pela componente musical, como pela força dos poemas. [76%]
Wednesday (DAYMOON)
(2026, OOB)
A meio caminho entre
a composição erudita e a linguagem do rock progressivo, Wednesday
afirma o projeto internacional sedeado em Portugal, Daymoon, como um
projeto cada vez mais distante de convenções. Este quinto trabalho revela uma
identidade que privilegia a textura, o detalhe e a construção atmosférica em
detrimento da forma canção tradicional. Sob a direção de Fred Lessing, o
álbum desenha-se como uma peça cinematográfica, onde a escolha estética
consciente da ausência de bateria acaba por limitar bastante o resultado. Por
outro lado, é verdade que o espaço sonoro se torna mais amplo, permitindo que
sopros, cordas e subtis camadas acústicas ganhem protagonismo. No centro, Lavínia
Roseiro conduz com segurança um registo vocal simultaneamente delicado e
expressivo, reforçado por um trabalho coral particularmente inventivo, embora
longe do tecnicamente perfeito. Apesar da inegável riqueza instrumental e
criatividade, nem tudo se traduz em impacto imediato. Algumas faixas
aproximam-se mais de estudos sonoros do que de composições memoráveis, o que
dilui a capacidade de retenção. Ainda assim, Wednesday impõe-se como um
objeto artístico ousado e pouco acomodado, mais para ser absorvido do que
simplesmente ouvido. [75%]
Dr Space´s Wicked Sonic Bulls (DR. SPACE)
(2026, Independente)
Aqui não há dúvidas. Dr.
Space’s Wicked Sonic Bulls, um dos mais recentes exercícios de Dr. Space
(Scott Heller), entra a meio da combustão, como se o ouvinte tivesse
aberto a porta de uma sala já tomada por ondas analógicas e pulsos cósmicos em
plena ebulição. O álbum nasce de uma sessão única, sem overdubs, onde
tudo se decide no momento. Ecos de Hawkwind, Gong e Øresund
Space Collective atravessam estas longas peças, mas sem se deixar afetar
por uma onda de mero revivalismo. Shouldn’t You Do It?, com cerca de 18
minutos, abre o desfile de forma a criar bastante impacto. Sempre em constante
mutação e sustentado por uma base rítmica firme, o caminho vai sendo percorrido
sem saturação nem deriva. Por outro lado, Splashing, Lashing, Flashing, surpreende
ao insinuar uma cadência dançável, algo raro no universo do artista. Entre Mellotron,
sintetizadores modulares e uma secção rítmica solta, mas coesa, o destaque
acaba por recair sobre a guitarra de Tom Ashurst (Here and Now,
Ex-Hawklords, China Shop Bull), capaz de criar os mais estranhos
desenhos. Dr. Space’s Wicked Sonic Bulls condensa-se em quatro
temas com durações a variar entre os 11 e os 30 minutos e afirma-se como um
organismo em movimento. Cru, hipnótico e estranhamente magnético. [74%]
Balderdom (TUSMØRKE)
(Karisma Records)
Com Balderdom,
os noruegueses Tusmørke voltam a mergulhar nesse território onde o prog
setentista, o folk escandinavo e um psicadelismo algo ritualista
coexistem sem pedir licença. O álbum, composto por cinco temas extensos,
nasce de uma reflexão mitológica sobre ciclos (luz e trevas, morte e
renascimento) e evoca figuras como Balder e o eterno retorno das estações. Há
uma forte sensação de comunhão pagã, especialmente em momentos como Svensk Drøm,
onde o coletivo e o fogo simbólico são centrais. Mas também há esse lado mais
errático e mutante, tão típico da banda. Musicalmente, Balderdom oscila
entre o encantamento e a dispersão. Na verdade, tanto brilha em passagens
hipnóticas e imaginativas como se perde em divagações menos consequentes. Ainda
assim, quando resulta, e o épico Lidskjalv, é prova disso, o disco
atinge um estado transcendental, num alinhamento entre tradição,
experimentalismo e misticismo. Não é um trabalho linear, mas é essa irregularidade
que desenha um ritual imperfeito, porém genuinamente vivo. [72%]






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