Reality Hits (TONES OF ROCK)
(2026, Independente)
Os Tones Of Rock
são um nome já consolidado no panorama nacional, carregando desde 2009 a chama
do glam metal e hard rock com uma forte componente visual e
performativa. Em Reality Hits, EP de quatro temas, a banda apresenta uma
nova fase, mais despida e pessoal, sem abdicar da identidade construída ao
longo de mais de uma década. Logo a abrir, Game Is On surpreende por uma
abordagem cinematográfica, revelando uma composição mais trabalhada e melódica
do que o habitual, apontando para uma evolução interessante. A seguir, Hell
Ravine, um dos destaques recentes do grupo, confirma essa maturidade: uma
grande carga melódica e um break acústico que evoca claramente o
espírito dos Led Zeppelin. Riverside Grove abre de forma mais
contida e melódica, sem distorção, funcionando como ponte entre o lado mais
clássico e a energia habitual da banda. Por fim, A War Inside aposta num
registo acústico, encerrando o EP num tom mais introspetivo. No conjunto, Reality
Hits mostra uns Tones Of Rock em transição onde menos exuberância
não é sinónimo de menor qualidade. Pelo contrário. Reality Hits traz-nos
quatro novas e grandes canções. [85%]
Grace In Decay (SPIRAL FRACTURE)
(2026, Wormholedeath
Records)
Os Spiral Fracture
são um projeto ainda em afirmação dentro do metal contemporâneo,
construindo gradualmente a sua identidade através de lançamentos que revelam
uma clara ambição estética e conceptual. Oriundos de Richmond, Virginia, e já
no seu terceiro longa-duração, com Grace In Decay, álbum que marca a sua
entrada na Wormholedeath Records, a banda dá um passo mais seguro na
consolidação desse percurso. O álbum afirma-se como um exercício de tensão
controlada, onde a instabilidade emocional serve de motor criativo e onde a bem
demarcada demonstração técnica assenta na construção de atmosferas. Há também
uma dimensão conceptual subtil, inspirada na ideia da espiral de Fibonacci, que
sugere um equilíbrio entre caos e ordem e ajuda a estruturar o discurso
musical. Musicalmente, a base progressiva sustenta uma fusão entre peso e
ambiência, com riffs incisivos e, muitas vezes, pouco óbvios. Mas também
há dialética entre agressividade e contemplação, como fica demonstrado em
faixas como Soul Allegiance ou Scars, que ajudam a estruturar o
fluxo emocional do disco. E é por isso que este terceiro registo dos
norte-americanos, cada vez mais próximo do prog e mais longe do death
metal que caraterizou o início da sua carreira, torna-se interessante pela
sua densidade expressiva. Desta forma, afirma-se como um registo envolvente e
maduro, embora nem sempre muito fácil de entrar. [72%]
The
Underworld (EVILDEAD)
Os Evildead
nasceram praticamente como um supergrupo underground da cena thrash
de Los Angeles. O guitarrista Juan Garcia já vinha dos Agent Steel,
enquanto outros membros tinham passado por projetos como Abattoir e Terror.
The Underworld foi lançado originalmente em 1991 (praticamente ao mesmo
tempo que surgia a explosão do grunge impulsionada por álbuns como Nevermind
dos Nirvana) pela Steamhammer, e mostrava uma banda em expansão
estética, reforçando o seu ADN de thrash crossover com fraseados vindos
do rap, sem abdicar do nervo cortante de riffs rápidos e de uma
secção rítmica impetuosa. Esta reedição surge como um oportuno resgate de um
disco que permanece um documento sólido da vitalidade do thrash metal do
início dos anos 90. Entre momentos particularmente curiosos destaca-se a versão
de He’s A Woman/ She’s A Man, clássico dos Scorpions,
reinterpretado com a agressividade e velocidade típicas da banda. A nova edição
apresenta o álbum remasterizado por Bill Metoyer e inclui ainda bónus
interessantes como versões ao vivo de The ’Hood e Darkness. Esta
última com um detalhe peculiar: nunca chegou a existir uma gravação de estúdio,
já que o tema foi originalmente composto para integrar a banda sonora de um
filme de terror, um projeto cinematográfico nunca concretizado, o que torna
esta reedição particularmente relevante para colecionadores pois é
provavelmente a única forma “oficial” de ouvir este tema. [85%]
As I Wait For Death (BEHIND BARS)
(2025, Deathwake
Records)
Os belgas Behind
Bars apresentam em As I Wait For Death, o seu novo trabalho, um
exercício de força direta, sem rodeios nem pretensões de reinventar o género.
Este EP de 5 temas em pouco mais de 17 minutos assenta num cruzamento eficaz
entre hardcore, groove metal e apontamentos thrash,
privilegiando riffs compactos, breakdowns musculados e uma
postura vocal que aposta mais na intensidade do que na nuance. O que o quarteto
nos propõe é energia crua e física pensada para o impacto imediato, para o mosh
e para o confronto emocional. Não há, de facto, grandes surpresas estruturais,
mas há consistência, coesão e até mais inspiração do que no seu longa-duração
de 2023 All In Due Time. A acompanhar, a produção é suficientemente
robusta para potenciar o peso das composições. As I Wait For Death não
redefine fronteiras, mas cumpre com competência aquilo a que se propõe:
intensidade, atitude e solidez. Um trabalho honesto, eficaz e bem executado
dentro do seu espectro estilístico. [75%]
Loss (GAEREA)
(2026, Century Media
Records)
Loss,
novo registo dos Gaerea, que assinala a estreia da banda pela Century
Media e que mantém a cadência regular de dois em dois anos entre
lançamentos, surge como um ponto de rutura tão ousado quanto calculado. Longe
da névoa opressiva que definiu obras anteriores, o coletivo portuense mergulha
numa abordagem mais híbrida, onde o black metal cede espaço a estruturas
mais ambientais, surgindo agora associado a territórios mais acessíveis. Falamos
de uma aproximação ao metalcore melódico, com breakdowns, refrões
e maior acessibilidade, bem como da inclusão de vocais limpos e estruturas mais
“canção”, provavelmente o elemento mais disruptivo. Loss deixa evidente
que na banda há ambição e uma clara vontade de expansão. Este conjunto de nove
temas respira emoção, vulnerabilidade e um dramatismo contemporâneo. Mas essa
abertura é também o seu maior risco. Para nós, sem margem para dúvidas de que
se trata de uma evolução natural e corajosa, embora seja percetível que a banda
irá ser acusada de uma diluição evidente de caráter. Ainda assim, mesmo
controverso, o álbum mantém uma carga expressiva relevante. E, na realidade, é
ao não conseguir gerar consenso que o álbum apresenta a sua força. [84%]





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