Entrevista: Anifernyen

 

Sete anos depois de Augur, os nacionais Anifernyen regressam com Ex Tenebris Lvx, um trabalho ambicioso que aprofunda a identidade atmosférica e conceptual da banda dentro do universo extremo, inspirando-se no imaginário obscuro de The Ninth Gate e pelas gravuras de De Umbrarum Regni Novem Portis. À conversa com o Via Nocturna 2000, Luís Ferreira e Daniel Lucas revelaram os bastidores deste novo capítulo, o impacto das mudanças internas na banda e a forma como a escuridão continua a servir de portal para novas explorações criativas.

 

Olá, pessoal, obrigado pela disponibilidade! Para começar, podem apresentar os Anifernyen aos nossos leitores e contextualizar o percurso da banda até este segundo álbum Ex Tenebris Lvx?

LUÍS FERREIRA (LF): Anifernyen nasce da vontade de criar música extrema com uma forte componente atmosférica e conceptual, sempre com uma identidade muito própria dentro do universo do black e death metal. Desde o início, a banda procurou construir algo que fosse além da simples agressividade sonora, dando igual importância à narrativa, à ambiência e ao peso emocional de cada composição. Depois do lançamento de Augur, em 2019, houve naturalmente um período de transição, muito marcado pela pandemia e pela necessidade de reorganização interna da banda. Embora a atividade ao vivo tenha abrandado e a dinâmica tenha mudado, o processo criativo nunca parou. Esse tempo acabou por ser fundamental para consolidar ideias e dar forma ao conceito de Ex Tenebris Lvx, que surge agora como um trabalho mais maduro, coeso e ambicioso.

 

Ex Tenebris Lvx surge, então, como o vosso segundo longa-duração. De que forma sentem que este trabalho representa uma evolução em relação ao álbum de estreia?

LF: Ex Tenebris Lvx representa uma evolução natural de tudo aquilo que começámos a construir em Augur. Se o primeiro álbum serviu para afirmar a identidade da banda e estabelecer as bases do nosso som, este segundo trabalho surge com uma visão muito mais definida e coesa, tanto musicalmente como a nível conceptual. Há uma maior maturidade na composição, uma preocupação mais forte com a fluidez e dinâmicas entre os temas e uma construção mais consciente da atmosfera geral do disco. Sendo um álbum conceptual, tudo foi pensado como parte de uma experiência única e não apenas como um conjunto de faixas isoladas. Isso trouxe também uma maior profundidade na abordagem lírica e uma ligação mais forte entre música, narrativa e componente visual.

 

Este é um álbum conceptual, inspirado na obra O Clube Dumas, de Arturo Pérez-Reverte. Como nasceu esta ligação literária e de que forma foi transposta para o universo sonoro da banda?

DANIEL LUCAS (DL): Não é tanto inspirado no romance O Clube Dumas como mais uma exploração metafórica do livro dentro do livro, o MacGuffin dentro da obra, De Umbrarum Regni Novem Portis. O filme A Nona Porta deixou uma marca indelével na altura em que o vi em 1999 e pouco tempo depois adquiri o livro que ainda mais me interessou. Escrevi uma série de textos sobre o tema que ficaram arquivados durante anos. Após a saída do Augur e por altura de criação de novos temas, falei com o Luís sobre o assunto e decidi desenterrar os textos. Foram trabalhados e moldados de forma que não perdessem o conteúdo e significado, de forma a integrar nas músicas.

 

Cada faixa representa uma das nove portas do Reino das Sombras. Houve uma preocupação em criar uma narrativa contínua ao longo do disco ou cada tema funciona como uma entidade autónoma dentro desse conceito?

DL: Sim. Houve esse cuidado, mas não de uma forma de narrativa linear. Mas essa ideia também partiu de um detalhe que aparece tanto no livro como na sua adaptação cinematográfica. No entanto, o resultado final tem essa capacidade ambivalente, de cada tema funcionar sozinho, com a sua narrativa única, mas também como uma experiência por inteiro onde até algumas letras se ligam umas às outras. Mas são detalhes para quem tiver o vagar de estar com atenção.

 

Musicalmente, o vosso som continua a fundir elementos de black e death metal. Que nuances ou novas abordagens procuraram introduzir neste álbum para reforçar essa identidade?

LF: Embora a base continue assente nesta fusão entre black e death metal, neste álbum houve uma preocupação maior em explorar a componente atmosférica e a dinâmica emocional das músicas. Procurámos trabalhar melhor os contrastes entre agressividade e melodia, entre peso e ambiência, dando mais espaço para que cada tema respirasse e servisse o conceito do disco. Também houve uma atenção especial às texturas e aos detalhes de arranjo, desde harmonizações mais trabalhadas até momentos mais ritualísticos e contemplativos, que ajudam a reforçar a narrativa de cada faixa. O objetivo nunca foi seguir fórmulas de género, mas sim usar essas linguagens como ferramentas para construir uma identidade própria e mais imersiva.

 

Duas faixas surgem cantadas em português, com Frustra a assumir-se totalmente na língua materna. O que vos levou a dar esse passo e que impacto pretendem alcançar com essa escolha?

DL: Foi de forma natural. O poema Frustra já estava escrito em português, e na altura deve ter sido escrito assim porque me apeteceu. Quando ouvi a demo da canção e procurei o encaixe métrico, já lá estava. Na Ditesco Mori a parte cantada em português também derivou daquilo que a música estava a pedir. O texto original era em inglês, mas aquele refrão fez-me repensar e quis criar algo que me desse vontade de berrar em português.  E com sorte algo que daqui a uns tempos, mais gente cante também. A língua materna é mais uma ferramenta de expressão. Não é por um sentimento de portugalidade ou algo que se pareça. É apenas por sentir que é certo. Já no Augur temos algumas linhas em francês e também aconteceu por consequência do que fazia sentido na altura do processo de escrita.

 

Frustra inclui ainda um coro. Podem falar-nos um pouco sobre esse processo e sobre como essa dimensão mais coral contribui para a atmosfera do tema?

DL: Não sei se quero ou não estragar a “mística” ao redor do coro, mas a ideia surgiu por querermos um momento apoteótico naquele final e foi a partir dessa vontade que procuramos soluções. Mas posso dizer que tivemos um coro à semelhança do que os Type O Negative tiveram nos seus álbuns.

 

Contam também com a participação especial de Sara Antunes (Earth Drive) em Virtue Lies Defeated. Como surgiu esta colaboração e o que trouxe ao resultado final?

DL: A Sara veio-nos recomendada pelo nosso produtor, Pedro Mau, que trabalhou com os Earth Drive. Procurávamos uma voz feminina, mas com um registo mais rockeiro, na falta de melhor definição. E a Sara, que aceitou prontamente o desafio, mesmo assim teve de sair da sua zona de conforto para entregar as linhas com o registo que queríamos. A Sara e o Hermano foram impecáveis em todos os aspetos. Profissionais e abertos a sugestões, visto que o processo foi todo feito à distância, com trocas de ficheiros e conversas por chats. O resultado final foi excelente.

 

Outro elemento interessante prende-se com o facto de todas as ilustrações terem sido desenhadas à mão, inspiradas nas gravuras de De Umbrarum Regni Novem Portis. Até que ponto a componente visual é indissociável da experiência do álbum?

DL: Outra colaboração que ocorre por um feliz acaso. O conceito inicial esteve sempre idealizado com as gravuras, pois são um elemento fundamental na narrativa quer do livro, quer do filme, cada uma representando também uma das Portas. E era muito importante que isso também se refletisse na arte do álbum. E calhou encontrarmos no Gonçalo Sousa, guitarrista nos Painted Black (a minha outra banda), um fantástico artista gráfico amador; ele também é grande fã tanto do livro como do filme nos quais nos fomos inspirar. E foi ouro sobre azul. Fizemos-lhe a proposta, com as nossas ideias para as ilustrações e para a capa, deixámo-lo trabalhar à sua vontade. E o que o Gonçalo entregou foi acima da expectativa. Não por não confiarmos no seu talento, mas pelos esforços a que ele se deu para chegar ao resultado final.

 

Desde o primeiro álbum houve uma mudança na formação, nomeadamente com a entrada do guitarrista David Silva. De que forma esta alteração influenciou a composição e a dinâmica interna da banda?

LF: A entrada do David aconteceu já numa fase avançada do processo, mas acabou por ser muito importante para fechar o ciclo do álbum. Com a saída do Diogo, surgiu naturalmente essa necessidade de reorganização e o David trouxe não só uma nova energia como também uma perspetiva diferente dentro da banda. Musicalmente, acabou por contribuir diretamente com a última faixa que faltava para completar o disco, o que ajudou a consolidar ainda mais a identidade final de Ex Tenebris Lvx. Houve também uma sólida participação em cada um dos temas já compostos com inputs que valorizaram o álbum no seu todo. Em termos internos, trouxe também uma renovação saudável da dinâmica de grupo.

 

Em termos de composição, houve diferenças no método de trabalho entre este álbum e o anterior? O processo tornou-se mais colaborativo ou mais focado numa visão central?

LF: Houve algumas diferenças claras. Embora o processo de composição em Anifernyen seja naturalmente colaborativo, neste álbum acabou por existir uma visão mais centralizada, principalmente porque grande parte da composição aconteceu durante o confinamento de 2020. Isso afetou inevitavelmente a dinâmica habitual de ensaios e de construção coletiva em sala e levou a que a maioria das bases fosse desenvolvida inicialmente por mim. Ao mesmo tempo, isso acabou por tornar o processo mais focado e coeso, especialmente porque já existia um objetivo conceptual muito definido desde o início. Depois dessa fase inicial, os temas foram apresentados à restante banda, trabalhados em conjunto e ajustados com os contributos de todos, até chegarem à sua forma final.

 

Existem planos concretos para levar Ex Tenebris Lvx para a estrada? Podemos esperar datas em Portugal ou fora do país ou até presença em festivais?

LF: Sem dúvida. O principal objetivo agora é, precisamente, levar Ex Tenebris Lvx ao palco e dar vida a estas músicas no contexto para o qual também foram pensadas. Já temos algumas datas confirmadas e estamos a trabalhar para garantir mais oportunidades ao longo do ano, tanto em Portugal como, se surgir a oportunidade certa, fora do país. Festivais são sempre uma possibilidade interessante, especialmente porque permitem chegar a públicos diferentes e mostrar a dimensão mais completa da banda ao vivo. Nesta fase, o foco está muito em fazer o álbum respirar fora do estúdio.

 

Considerando o crescimento da banda, sentem que este é um momento de afirmação dentro do panorama do metal nacional?

LF: De certa forma, sim, embora tentemos não olhar para isso numa perspetiva competitiva. Sentimos que este disco representa um passo importante na consolidação da identidade de Anifernyen e que há agora uma maior maturidade, tanto musical como conceptual. Se isso se traduz numa afirmação dentro do panorama nacional, será algo que o tempo e o público dirão melhor do que nós. O nosso foco continua a ser criar música honesta, consistente e com significado, e se isso encontrar cada vez mais pessoas pelo caminho, então estaremos certamente no rumo certo.

 

Para terminar, querem deixar uma mensagem de agradecimento a quem tem acompanhado os Anifernyen e convidar os ouvintes a mergulhar neste novo capítulo?

LF: A todos os que têm acompanhado Anifernyen ao longo dos anos, o nosso sincero obrigado. Sabemos que o caminho nem sempre foi rápido nem fácil, mas tudo o que fazemos é construído com total dedicação e verdade. Ex Tenebris Lvx é um disco muito especial para nós, não apenas pelo tempo que levou a nascer, mas por tudo o que representa artisticamente. A quem já nos conhece, esperamos não ter desiludido. A quem ainda não nos ouviu, este é talvez o melhor momento para entrar neste universo. Abram as portas, mergulhem na escuridão e procurem a vossa própria luz.  

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