Entrevista: A Dream Of Poe

 


Sete anos depois de The Wraith Uncrowned, A Dream Of Poe regressa com Katabasis: A Marriage Among Ashes, um álbum marcado pela perda, pela reconstrução e pela superação. Nascido na sequência do incêndio que destruiu a casa e grande parte do material de Miguel Santos, o novo trabalho transforma uma experiência profundamente traumática numa obra intensa, emocional e cinematográfica. À conversa com o Via Nocturna, Miguel Santos fala sobre o longo caminho até este regresso, a evolução de A Dream Of Poe e o significado de um álbum que surge, literalmente, das cinzas.

 

Antes de mais, Miguel, obrigado por estares à conversa connosco no Via Nocturna. Sete anos depois de The Wraith Uncrowned, regressas com Katabasis: A Marriage Among Ashes. Como estás a viver este momento e o que representa para ti este novo capítulo de A Dream of Poe?

Antes de mais, obrigado eu pelo convite e pelo interesse em A Dream Of Poe. Estou a viver este momento com uma mistura de emoções, algo difícil de resumir. Há naturalmente um enorme sentimento de realização, porque depois de sete anos sem lançar um álbum e tendo em conta tudo o que aconteceu pelo meio, conseguir finalmente chegar aqui já é, por si só, uma vitória. Mas ao mesmo tempo existe também um grande alívio. Este álbum acabou inevitavelmente associado a um dos períodos mais difíceis da minha vida, por isso durante todo o processo houve sempre uma carga emocional muito forte ligada ao disco. Não foi apenas escrever e gravar música; houve toda uma reconstrução pessoal e material que teve de acontecer primeiro. Sinto que Katabasis: A Marriage Among Ashes representa, de certa forma, um novo capítulo para A Dream Of Poe. Não necessariamente uma rutura com o passado, porque existe uma continuidade clara com aquilo que fui construindo ao longo destes anos, mas talvez uma transformação. Sinto este álbum como uma versão mais madura, mais exposta e mais honesta daquilo que A Dream Of Poe sempre procurou ser.

 

O disco nasce de uma experiência profundamente traumática, marcada pelo incêndio que destruiu não só a tua casa, mas também grande parte do material que tinhas composto. Até que ponto esse acontecimento redefiniu a identidade emocional e artística do álbum?

Quando algo dessa magnitude acontece, é impossível não ser transformado por isso. Não foi apenas perder material ou equipamento; foi perder casa, estabilidade, memórias, anos de trabalho e uma certa sensação de segurança. Naturalmente, tudo isso acabou por infiltrar-se na música. Este álbum tornou-se mais cru, mais vulnerável e emocionalmente mais exposto. Não houve qualquer tentativa consciente de “fazer um álbum sobre tragédia”, mas seria impossível passar por algo assim e isso não contaminar aquilo que escrevo. No fundo, Katabasis acabou por se tornar quase um reflexo involuntário desse processo de descida, perda e reconstrução.

 

No texto de apresentação refere-se que apenas The Lament Of Phaethon sobreviveu ao incêndio. Como foi emocionalmente voltar a compor quase tudo de raiz depois de perder tanto material?

Durante algum tempo, honestamente, a música nem sequer era prioridade. Havia coisas muito mais urgentes para resolver: garantir que eu, a minha namorada e os nossos gatos estávamos seguros, com um teto, estabilidade mínima e alguma sensação de normalidade. Estando fora do nosso país, longe da nossa rede de apoio, família e amigos, tudo isso ganha um peso ainda maior, não só na parte prática, mas também emocionalmente. E nesse aspeto, tivemos muita sorte em não estar sozinhos. Houve uma onda de apoio que ainda hoje me marca: amigos, conhecidos e até pessoas completamente desconhecidas que se disponibilizaram a ajudar, seja financeiramente, com comida, roupa ou simplesmente com apoio. Sem isso, muito provavelmente este álbum ainda estaria, de certa forma, por acontecer. Só depois dessa fase é que comecei a pensar em reconstruir o lado musical da minha vida. Voltar a comprar equipamento, montar um novo setup de gravação, um computador, interface, microfones, colunas, uma guitarra nova, porque a minha também ficou danificada no incêndio. Só quando tudo isso começou a estar minimamente de pé é que voltei ao processo criativo. E quando voltei a compor, percebi rapidamente que não fazia sentido tentar recriar o que tinha sido perdido. Esses temas pertenciam a um momento que já não existia. Não só porque tinham sido destruídos fisicamente, mas porque emocionalmente esse capítulo tinha mudado para sempre. A abordagem acabou por ser muito simples: pegar na guitarra e deixar as coisas acontecerem de forma natural, sem forçar direções ou tentar recuperar o passado. Não vou dizer que foi um processo doloroso enquanto estava a compor, pelo contrário, havia até uma certa excitação por voltar a estar ativo, a criar novamente. A dimensão mais emocional veio depois, quando comecei a ouvir o resultado final e percebi que, inevitavelmente, estes temas acabaram por refletir um dos períodos mais difíceis da minha vida. Mas nessa altura já não era sobre reviver o que aconteceu, era sobre dar forma a isso através da música.

 

Passaram sete anos desde o álbum anterior. Para quem acompanha A Dream Of Poe, este hiato parece enorme. Quando sentiste que este era o momento certo para regressar?

2023 era, de facto, o ano que eu tinha definido para o regresso. Eu não gosto de passar muito tempo sem compor, normalmente isso acontece em ciclos de um ou dois anos, sobretudo quando estou focado noutras coisas, como foi o caso das celebrações dos 15 anos de A Dream Of Poe em 2020, mas depois todos sabemos o que aconteceu nesse ano. O COVID acabou por parar tudo. Devido à paragem forçada pelo COVID, estava precisamente numa fase em que queria começar a trabalhar em novos temas, mas acabei por me deparar com um problema bastante inesperado: a minha guitarra estava danificada, a ponte tinha partido, e como não tinha outro instrumento disponível e não podia sair de casa para a levar ao luthier, fiquei completamente bloqueado nesse processo. Só mais tarde, já em 2021, consegui contornar isso com a compra de um teclado MIDI, e foi aí que comecei a esboçar algumas ideias. Pouco tempo depois a guitarra ficou finalmente reparada e o primeiro tema que surgiu nessa fase foi precisamente The Lament Of Phaethon. Portanto, de certa forma, tudo estava a encaminhar-se para que o final de 2023 fosse o momento natural para lançar um novo trabalho. Claro que depois aconteceu o incêndio, e isso mudou completamente o contexto. O processo passou de um “regresso planeado” para algo muito mais profundo, quase de reconstrução total, não só do ponto de vista musical, mas de vida. A partir daí, houve uma espécie de corrida contra o tempo. Não no sentido de pressa externa ou pressão da editora, mas sim interna. Havia uma necessidade quase instintiva de voltar a compor, terminar o álbum e lançá-lo. Queria que tudo fosse concluído o mais rapidamente possível, gravação, mistura, masterização etc., sem nunca comprometer a qualidade do processo, claro. Essa urgência não vinha de fora. Vinha de dentro. E está muito ligada a um tipo de trauma que ficou comigo: o medo de voltar a perder tudo, de ver novamente o trabalho destruído por uma catástrofe, mesmo sabendo racionalmente que hoje existe redundância, backups e várias cópias em cloud. Mas emocionalmente, esse medo ficou lá. E acabou por influenciar a forma como este álbum foi vivido do início ao fim.

 

Durante estes anos mudaste-te dos Açores para o Reino Unido, mais concretamente para a Escócia. De que forma essa mudança geográfica e cultural influenciou a tua visão criativa e a sonoridade deste trabalho?

Viver fora durante tanto tempo dá inevitavelmente outra perspetiva. Existe uma distância, não só física, mas também emocional, em relação ao lugar onde cresci, à família, aos amigos e às referências culturais que me moldaram. Isso acaba por gerar uma certa nostalgia e introspeção que, de forma quase inevitável, se infiltra na forma como escrevo e como sinto a música. Ao mesmo tempo, viver na Escócia trouxe-me também um contacto muito forte com outro tipo de ambiente e sensibilidade estética. É um país com uma atmosfera muito própria, o clima, a paisagem, a luz, até o silêncio, tudo isso reforça bastante um lado mais contemplativo e melancólico que já existia em A Dream Of Poe, mas que aqui acaba por ganhar outra dimensão. Não diria que isso muda a essência do projeto, mas influencia a forma como essa essência se manifesta.

 

Existe algo na paisagem, clima ou atmosfera escocesa que tenha acabado por se infiltrar no espírito de Katabasis?

Acho difícil não existir. O clima, a arquitetura, as paisagens, a luz e a própria atmosfera geral da Escócia têm algo de muito particular e bastante compatível com a estética emocional de A Dream Of Poe. Não diria que escrevi de forma consciente a pensar na Escócia, mas é inegável que viver aqui acabou por alimentar esse lado mais contemplativo, sombrio e cinematográfico que já fazia parte do projeto. E depois há um detalhe importante: o clima. Eu sou dos Açores, por isso há aqui uma certa familiaridade, as paisagens são, em parte, bastante semelhantes, e essa instabilidade constante do tempo até me faz, por vezes, sentir “em casa”. Mas ao mesmo tempo, as temperaturas mais frias, o facto de mesmo no verão raramente ultrapassar os 15 ou 16 graus durante o dia acabam por ter um efeito mais pesado ao longo do tempo. E isso, claro, também influencia o estado de espírito. Não vou romantizar demasiado, há momentos em que isso se torna mesmo um pouco opressivo, sobretudo quando estás longe há muitos anos e as saudades começam a apertar. Nessas alturas é inevitável questionar algumas escolhas, ou pelo menos refletir sobre o caminho que foi feito a nível pessoal. Mas no fundo, acho que tudo isso, as experiências boas e más, acaba sempre por se infiltrar no trabalho, de uma forma ou de outra. Não é algo que se consiga controlar totalmente. E no caso de A Dream Of Poe, isso acaba por ser parte essencial da própria identidade da música.

 

Apesar de A Dream Of Poe continuar enraizado no doom metal, sente-se aqui uma abordagem muito mais sinfónica, cinematográfica e monumental. Esta evolução surgiu naturalmente ou foi uma decisão consciente desde o início da composição?

Foi algo natural que foi surgindo com o tempo. Algumas das minhas influências vêm da música clássica e de uma variedade de bandas que foram marcando a minha evolução como músico, especialmente aquelas que incorporam elementos sinfónicos na sua linguagem. Sempre existiu em mim essa vontade de trazer esse tipo de elementos para A Dream Of Poe, mas, como tudo, primeiro aprendes a andar e só depois a correr. E de certa forma foi exatamente isso que aconteceu com o projeto. Desde muito cedo senti a necessidade de adicionar camadas orquestrais, coros, alguns pianos aqui e ali, elementos que, ao início, eram mais discretos. Com o tempo e com cada lançamento, esses elementos foram ganhando mais espaço e mais importância dentro da estrutura dos temas. Foi com The Wraith Uncrowned que senti, pela primeira vez, que já tinha maturidade suficiente enquanto músico e produtor para começar a integrar uma componente sinfónica mais assumida, sem que isso colocasse em causa a identidade da banda. Porque esse sempre foi o ponto essencial: nunca houve intenção de reinventar A Dream Of Poe, mas sim de a fazer evoluir de forma orgânica. No fundo, esta evolução está muito ligada à minha própria evolução como músico. Não é algo separado do que eu sou ou do que vou aprendendo ao longo do tempo, é tudo parte do mesmo percurso. Neste novo álbum, essa vontade de continuar a expandir e aprofundar essa identidade mantém-se bem presente. É mais um passo dentro de um caminho que existe desde 2005, onde tudo vai sendo construído de forma gradual, consistente e, acima de tudo, coerente com aquilo que o projeto é. Portanto, sim, começou como algo natural, mas com o tempo tornou-se também uma escolha consciente de direção artística.

 

Em vários momentos, o álbum aproxima-se de uma banda sonora trágica, com um enorme peso orquestral e emocional. Que compositores, bandas ou referências ajudaram a moldar esta faceta mais sinfónica?

A minha ligação a esse universo mais sinfónico vem de há muitos anos atrás. Posso dizer, sem problema algum, que antes de me envolver mais profundamente no metal, ouvia bastante Andrea Bocelli, sobretudo os álbuns mais clássicos como Viaggio Italiano, Aria: The Opera Album ou Sacred Arias. Essa fase teve um impacto muito grande na forma como comecei a entender a música, especialmente no que toca à importância da melodia, da dinâmica e da carga emocional. De certa forma, isso moldou bastante o meu gosto musical e, inevitavelmente, também o meu percurso como músico. Quando mais tarde entrei no universo do metal, senti-me naturalmente atraído por bandas que davam um grande destaque às linhas melódicas e que integravam elementos sinfónicos na sua linguagem. Ao nível de bandas que ajudaram a cimentar esse gosto, posso referir Dimmu Borgir, Therion e Lacrimosa, entre outras. Todas elas, de formas diferentes, mostraram-me como é possível cruzar intensidade, atmosfera e elementos orquestrais sem perder identidade ou impacto. No fundo, essa fusão sempre fez parte do meu “vocabulário” musical, mesmo antes de começar a compor de forma mais séria. A Dream Of Poe acabou por ser o espaço onde tudo isso pôde finalmente convergir de forma mais natural e pessoal.

 

Sendo este um projeto maioritariamente conduzido por ti, como decorreu o processo de composição, arranjos e produção? Trabalhas tudo de forma muito metódica ou deixas espaço para espontaneidade durante a criação?

A fase inicial da composição tende a ser muito orgânica. Normalmente tudo começa com uma ideia simples, normalmente um riff na guitarra ou uma melodia. Nessa fase tento não pensar demasiado nem racionalizar excessivamente o processo. Gosto de deixar as coisas acontecerem de forma natural, quase como se estivesse apenas a seguir aquilo que a música me vai pedindo. No caso específico deste álbum, isso foi ainda mais evidente. Depois de tudo o que aconteceu, senti necessidade de ser menos controlador nessa fase inicial e simplesmente deixar fluir. Muitos riffs e estruturas acabaram por surgir de forma bastante espontânea e, curiosamente, muitos deles sofreram muito poucas alterações relativamente à sua forma original. A partir do momento em que tenho a estrutura-base de um tema, torno-me bastante metódico e até, por vezes, algo obsessivo com detalhes. Aí começa todo o trabalho de arranjos, orquestrações, dinâmica, escolhas tímbricas e equilíbrio entre todos os elementos. Como neste álbum a componente orquestral assumiu um papel ainda mais central, houve naturalmente um cuidado enorme em garantir que tudo coexistisse de forma orgânica. Não queria simplesmente “colar” orquestração em cima de riffs de guitarra. Queria que tudo respirasse como uma linguagem única, onde guitarras, vozes, bateria e elementos sinfónicos servissem o mesmo propósito emocional e narrativo. A produção acaba por ser quase uma extensão da composição. Para mim não são propriamente processos separados. Muitas decisões de composição continuam a acontecer já em contexto de produção, mistura e até por vezes muito perto da masterização. Sou bastante exigente comigo próprio nesse sentido e não tenho qualquer problema em destruir, reconstruir ou rearranjar secções inteiras se sentir que algo não está ao nível que procuro. Portanto, diria que até há bastante espaço para espontaneidade, mas sempre enquadrado por uma fase posterior muito analítica e detalhista. Talvez seja precisamente esse equilíbrio entre instinto e obsessão pelo detalhe que acaba por definir bastante a forma como trabalho em A Dream Of Poe.

 

O conceito do álbum foi escrito por Paulo Pacheco. Como surgiu esta colaboração e de que forma trabalharam em conjunto a narrativa filosófica e mitológica de Katabasis?

O Paulo não escreve simplesmente letras; ele constrói universos. Desde o início de A Dream Of Poe que os conceitos dos álbuns partem dele, e isso acaba por ser uma peça muito importante na identidade do projeto. Ele dá à música uma espinha dorsal narrativa e conceptual muito forte. No caso de Katabasis: A Marriage Among Ashes, isso voltou a acontecer. O conceito surgiu da mente dele, como acontece habitualmente, e acabou por encaixar de forma quase assustadoramente natural com aquilo que eu estava a viver e com tudo o que aconteceu em 2023. Inicialmente, não era suposto existir uma ligação tão direta entre a narrativa conceptual e a minha experiência pessoal, mas inevitavelmente essas duas realidades acabaram por se fundir de uma forma muito orgânica. Isso acabou por dar ao álbum uma camada adicional de profundidade e significado. Em termos de processo, não existe propriamente uma fórmula rígida entre nós. Às vezes componho primeiro e ele reage musical e emocionalmente ao que ouve. Outras vezes acontece precisamente o contrário. Há também momentos em que ambos os processos acontecem quase em paralelo, de forma relativamente independente, acabando depois por convergir naturalmente. Acho que isso funciona porque partilhamos muitas referências, sensibilidades e uma visão artística bastante alinhada. Existe muito diálogo entre nós, mas acima de tudo existe confiança total. Nunca encaramos isto como duas funções isoladas, alguém que faz música e outro que escreve letras, mas sim como duas perspetivas complementares a trabalhar para o mesmo objetivo emocional e narrativo. No fundo, A Dream Of Poe sempre viveu muito desse equilíbrio entre música e narrativa, e a contribuição do Paulo é absolutamente fundamental para que esse universo exista da forma como existe.

 

O uso do português não é novidade em A Dream Of Poe, mas continua a conferir uma identidade muito própria ao projeto. O que sentes que a língua portuguesa acrescenta à carga emocional da música? 

No meu caso, isso talvez seja ainda mais evidente por estar fora de Portugal há cerca de 14 anos. Inevitavelmente cria-se uma relação diferente com a língua. Acaba por haver uma componente quase nostálgica ligada às origens, à família, aos amigos, às memórias e até a pequenas coisas do quotidiano que vais deixando para trás. Embora A Dream Of Poe seja maioritariamente cantado em inglês, até pela própria natureza internacional do projeto e pela forma como sempre comuniquei musicalmente, sinto que quando surge um tema em português, ele carrega imediatamente uma identidade diferente. Há uma ligação mais visceral e pessoal. Não é algo que eu procure forçar ou utilizar apenas como elemento diferenciador. Tem de acontecer de forma natural e fazer sentido dentro do contexto do álbum e do próprio tema. Foi precisamente isso que aconteceu com À Medida de Damastes. No fundo, o português acrescenta uma camada emocional diferente à música. Não necessariamente mais intensa, mas certamente mais próxima de quem eu sou e das minhas raízes. E acho que isso acaba inevitavelmente por se refletir também na interpretação e na forma como a música é recebida.

 

À Medida de Damastes é talvez um dos exemplos mais fortes dessa identidade lusófona. Consideras importante preservar essa ligação à tua cultura dentro de um género tradicionalmente dominado pela língua inglesa?

Sim, considero importante, mas de forma bastante natural e nunca como uma obrigação ou estratégia. A Dream Of Poe sempre comunicou maioritariamente em inglês, muito por influência das bandas que me moldaram musicalmente e também pela própria vontade de tornar o projeto mais acessível a um público internacional. Sendo um género como doom metal, isso acaba por ser também algo relativamente natural. Mas ao mesmo tempo, nunca senti necessidade de me desligar completamente da minha identidade cultural ou linguística. Pelo contrário. Acho até que trazer ocasionalmente esse lado mais português para A Dream Of Poe ajuda a enriquecer ainda mais a personalidade do projeto e torna-o, de certa forma, mais autêntico. No caso de À Medida de Damastes, isso aconteceu de forma muito orgânica. Foi um pequeno desafio que lancei ao Paulo Pacheco. Disse-lhe algo muito simples, quase casualmente: se te apetecer escrever algo em português, estás completamente à vontade. E ele acabou por me surpreender com uma letra que encaixou de forma perfeita no conceito e na atmosfera do álbum. Acabou por ser também um reflexo de algo mais pessoal. Estando fora de Portugal há tantos anos, há inevitavelmente uma relação emocional diferente com a língua e com tudo aquilo que representa. Por isso, mais do que uma questão de preservar algo de forma deliberada, vejo-o como uma extensão natural de quem sou e do percurso que me trouxe até aqui. Se isso também acaba por conferir uma identidade mais própria ao projeto dentro de um género tão dominado pela língua inglesa, melhor ainda.

 

Este álbum conta com vários músicos convidados, desde Kaivan Saraei e João Melo nas vozes até Ruben Correia, Gualter Couto, Nuno Carreiro e António Neves. O que procuraste em cada um deles para integrarem o universo de Katabasis?

Procurei, acima de tudo, pessoas em quem confio musical e pessoalmente, e que percebessem realmente o universo de A Dream Of Poe. Quando convido alguém para participar num álbum, não é apenas pela qualidade técnica, embora isso seja obviamente importante, mas também pela capacidade de compreender a atmosfera, a emoção e a identidade do projeto. No caso das vozes, tanto o Kaivan Saraei como o João Melo já são peças fundamentais no universo de A Dream Of Poe há bastante tempo. O Kaivan acompanha-me há mais de uma década e conhece profundamente a linguagem da banda. Para além de ter uma voz extremamente característica, há uma ligação artística e uma cumplicidade que fazem com que trabalhar com ele seja algo muito natural. Ele percebe intuitivamente o que procuro, o que facilita imenso todo o processo criativo. O João Melo, por outro lado, traz uma energia e uma identidade muito próprias. Tem uma entrega muito intensa e uma presença vocal bastante marcante, o que acaba por acrescentar outra dimensão a certos momentos do álbum. Gosto dessa dualidade entre os dois, porque permite explorar nuances diferentes dentro da mesma linguagem emocional. Em relação aos restantes músicos, cada um entrou porque senti que podia acrescentar algo específico ao álbum. O António Neves, por exemplo, já colaborou comigo noutras ocasiões e é alguém em quem deposito enorme confiança enquanto guitarrista e vocalista. Tem muito bom gosto, grande sensibilidade melódica e uma capacidade de interpretação que me permite dar-lhe espaço criativo sem receio, não fosse ele um dos responsáveis dos açorianos In Peccatum. O Rúben Correia teve uma participação particularmente importante neste disco. Para além de gravar solos e violino, acabou também por coescrever The Wail Of Gaea, o que foi uma experiência bastante positiva. É um músico extremamente completo e versátil. Trabalhar com ele foi um processo muito orgânico. O Gualter Couto e o Nuno Carreiro, na bateria e no baixo, respetivamente, também foram escolhas naturais. São músicos experientes, muito competentes e que percebem bem o peso e a dinâmica que A Dream Of Poe exige. Num género como doom metal, onde muitas vezes menos é mais, essa sensibilidade é essencial. No fundo, mais do que “músicos convidados”, vejo todas estas pessoas como amigos e colaboradores que ajudam a dar vida ao álbum. Embora A Dream Of Poe seja um projeto muito pessoal e eu acabe por assumir grande parte da composição, arranjos e produção, estes contributos humanos são fundamentais. Cada pessoa deixa inevitavelmente a sua marca, e isso ajuda a fazer com que a música respire para lá de mim próprio.

 

Ruben Correia acaba por ter uma participação particularmente relevante, tanto nas guitarras solo como no violino e até na composição de The Wail Of Gaea. Como descreves a importância dele neste disco?

O Rúben Correia tem, sem dúvida, um papel muito especial neste disco. Não apenas pela quantidade de contributos, mas sobretudo pela forma como esses contributos se integraram de maneira muito natural no universo de Katabasis e A Dream of Poe no geral. Ele é alguém com uma sensibilidade musical muito apurada e uma abordagem bastante “musical” no sentido mais puro da palavra. Não está preso a formatos ou a egos, e isso torna o processo com ele extremamente fluido. Quando lhe pedi para participar, já sabia que não iria receber apenas “partes gravadas”, mas sim ideias com vida própria, e foi exatamente isso que aconteceu. Nas guitarras solo, trouxe sempre uma leitura muito emocional e melódica, que respeita a identidade de A Dream Of Poe, mas ao mesmo tempo acrescenta algo novo. Não é um guitarrista que tenta impor-se sobre a música, mas sim alguém que a serve, e isso para mim é fundamental. Os violinos feitos por ele também acabaram por ter um papel muito importante em certos momentos do álbum, ajudando a reforçar essa componente mais cinematográfica e trágica que Katabasis exige. Há ali uma dimensão quase narrativa que encaixa perfeitamente no conceito do disco. E depois há The Wail Of Gaea, que talvez seja o ponto mais claro da importância dele neste trabalho. O facto de termos coescrito o tema mostra bem o nível de confiança e abertura no processo. Ele trouxe uma ideia inicial muito interessante e, em vez de a “adaptar à força”, trabalhámos em conjunto para encontrar um equilíbrio entre a sua visão e a linguagem de A Dream Of Poe. Isso resultou num tema que mantém a identidade da banda, mas que também tem uma assinatura muito dele. No fundo, a importância do Rúben neste disco não está apenas no que ele tocou ou escreveu, mas na forma como ajudou a expandir o espaço criativo do álbum sem o desvirtuar. Ele foi, em muitos momentos, uma extensão natural daquilo que eu queria expressar em Katabasis.

 

Produziste, misturaste e masterizaste o álbum no The Tell-Tale Studios. Sentiste necessidade de assumir controlo absoluto sobre a sonoridade do disco por ser um trabalho tão pessoal?

Sim, há aqui várias razões que se cruzam e que acabam por fazer sentido dentro da realidade de A Dream Of Poe. A primeira, e talvez a mais pragmática, é a questão financeira. Num projeto com uma banda tradicional, com cinco ou seis elementos, os custos de gravação, mistura e masterização acabam por ser divididos. No meu caso, sendo essencialmente um projeto individual ao nível da composição e produção, esses custos recaem praticamente todos sobre mim. E quando falamos de um álbum desta dimensão, com uma componente orquestral tão presente e um nível de detalhe elevado, isso torna-se um fator muito significativo. Foi precisamente por isso que comecei, ainda em 2003, a dar os primeiros passos na gravação e produção. Nessa altura ainda não existia A Dream Of Poe, mas já existia a consciência de que queria construir um caminho onde pudesse ter autonomia suficiente para concretizar as minhas ideias sem depender completamente de estruturas externas. Depois há também uma questão de identidade artística. Quando estás tão envolvido em todas as fases da criação, composição, gravação, arranjos, acaba por fazer sentido que a mistura e masterização também façam parte desse mesmo processo. Não no sentido de controlo pelo controlo, mas porque ninguém conhece melhor a intenção emocional de cada tema do que quem o criou. Sabes exatamente o que deve estar em primeiro plano, o que deve recuar, onde é preciso mais espaço ou mais densidade. Dito isto, tenho plena consciência das minhas limitações. Não me coloco ao nível de engenheiros como o Daniel Cardoso, Karl Daniel Lidén ou Jens Bogren, nem perto disso. São outros patamares de experiência e qualidade. Mas também não é esse o objetivo. O objetivo nunca foi atingir um trabalho “perfeito”, mas sim um resultado honesto, onde a produção serve a música e não o contrário. No meu caso, isto ganha ainda mais peso porque o próprio estúdio passou também por essa história. Na altura chamava-se SPS Studios, mas após o incêndio de 2023 e com a destruição de praticamente todo o equipamento, senti necessidade de fechar esse capítulo e recomeçar. Foi aí que surgiu o The Tell-Tale Studios, não apenas como uma mudança de nome, mas como uma forma simbólica de reconstrução e de seguir em frente depois de um período muito complicado. Se o ouvinte conseguir abstrair-se da parte técnica e focar-se na música e na emoção, então sinto que o objetivo está cumprido.

 

A entrada para a Meuse Music Records marca também uma nova etapa para A Dream Of Poe. Como surgiu esta ligação à editora e o que te levou a confiar neles para este lançamento?

A ligação à Meuse Music Records surgiu de forma bastante natural, quase orgânica. Não foi algo que tenha sido procurado de forma agressiva, nem uma decisão tomada apenas numa lógica “estratégica”, foi mais uma questão de afinidade e de perceber que havia aqui uma visão comum para o projeto. Tive contacto com a editora numa fase em que o álbum ainda estava a ganhar forma, e desde cedo senti que havia uma abordagem muito honesta e direta da parte deles. Não houve promessas exageradas, nem aquela visão demasiado comercial ou desconectada da realidade do projeto. Pelo contrário, houve uma compreensão bastante clara do que é A Dream Of Poe, da sua identidade e também das suas limitações e características muito próprias. Ao longo do processo senti que havia respeito pelo trabalho artístico e também espaço para que as decisões criativas permanecessem do meu lado. Para mim, isso é essencial, porque é um álbum muito pessoal e muito ligado a tudo o que aconteceu nos últimos anos. Depois, claro, há também a parte prática. Uma editora independente como a Meuse Music Records consegue oferecer suporte real dentro das suas possibilidades, sem que isso implique abdicar da identidade do projeto ou perder controlo sobre o resultado final. E isso, num disco como Katabasis: A Marriage Among Ashes, era algo inegociável. No fundo, foi uma combinação de fatores: confiança, respeito artístico e uma visão alinhada sobre o que este álbum representa.

 

Embora os concertos de A Dream Of Poe sejam raros, descreves essas atuações como verdadeiras celebrações do doom metal. Existe a possibilidade de uma tour ou de alguns concertos especiais para apresentar Katabasis: A Marriage Among Ashes ao vivo?

Existe essa vontade, sim, e diria até que é uma vontade bastante real e partilhada por todos os envolvidos no projeto. Uma das coisas que ficou muito clara para mim depois de tudo o que aconteceu em 2023 é que quero, cada vez mais, fazer aquilo que realmente gosto, e tocar ao vivo com A Dream Of Poe é claramente uma dessas coisas. Pode não parecer, olhando para a nossa pouca atividade ao vivo, mas cada concerto que fizemos foi vivido de forma muito intensa, e para mim em palco é onde esta música ganha outra dimensão. Dito isto, a realidade prática é sempre mais complexa. Coordenar músicos que também têm os seus próprios projetos, alinhar agendas e sobretudo lidar com os custos associados não é fácil. Ainda assim, neste momento existe uma intenção clara de regressar aos palcos entre o final de 2026 e 2027, e já estamos a trabalhar nesse sentido. Claro que tudo depende de vários fatores, desde logística até às oportunidades reais que surjam. Gostava muito que isso incluísse não só apresentações fora dos Açores, mas também, idealmente, em Portugal continental, algo que, apesar dos mais de 20 anos de história da banda, ainda nunca aconteceu.

Pensando no percurso iniciado em 2005 em Ponta Delgada, sentes que Katabasis representa o culminar da identidade de A Dream of Poe ou antes o início de uma nova fase criativa?

Acho que é um pouco das duas coisas, e talvez seja essa dualidade que melhor define Katabasis. Por um lado, sinto que este álbum representa uma espécie de culminar natural de tudo o que A Dream Of Poe foi construindo desde 2005. Há aqui todos os elementos que sempre fizeram parte da identidade da banda, o lado doom, a componente emocional muito forte, a dimensão mais cinematográfica, a ligação à literatura e a esse imaginário mais trágico e inevitável. Nesse sentido, é um disco que “fecha” um certo percurso, no sentido em que leva essas ideias mais longe do que alguma vez foram levadas até agora. Mas, ao mesmo tempo, não o vejo de todo como um ponto final. Pelo contrário, sinto que abre portas para uma nova fase criativa. A forma como a orquestração está integrada, a maturidade na escrita, a própria “liberdade” com que tudo foi feito… tudo isso cria espaço para que A Dream Of Poe possa evoluir noutras direções daqui para a frente. Eu vejo o percurso da banda como algo muito ligado à minha própria evolução enquanto músico e enquanto pessoa. E nesse sentido, cada álbum não é apenas uma continuação, é também uma redefinição. Katabasis não foge a isso. É ao mesmo tempo um reflexo de quem eu sou hoje e um ponto de partida para o que vier a seguir. Por isso diria que não é nem apenas um culminar, nem apenas um início, é mais um momento de transição. Uma espécie de descida e, ao mesmo tempo, de transformação dentro desse mesmo universo.

 

Para terminar, obrigado pelo teu tempo e parabéns por este regresso tão intenso e pessoal. Queres deixar uma última mensagem para os leitores do Via Nocturna e para todos aqueles que têm acompanhado A Dream Of Poe ao longo destes anos?

Antes de mais, queria agradecer-vos pelo espaço e pela atenção ao trabalho de A Dream Of Poe. Para quem nos acompanha há muitos anos, só posso dizer obrigado pela paciência, pela lealdade e por nunca deixarem de estar desse lado, mesmo nos períodos mais longos de silêncio. Sei que este não é um projeto “regular” no sentido tradicional, e por isso o apoio ao longo do tempo ganha ainda mais valor para mim. Katabasis: A Marriage Among Ashes é um disco muito pessoal, nascido de um período difícil, mas também de reconstrução. E se há algo que gostava que ficasse desta experiência, é precisamente isso: a ideia de que, mesmo depois da perda e do vazio, é possível voltar a criar algo. Se este álbum conseguir tocar alguém, seja de forma profunda ou apenas num pequeno momento, então já cumpriu o seu propósito. Obrigado por tudo!

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