Entrevista: Dyecrest





Com mais de duas décadas de carreira, os Dyecrest continuam a afirmar-se como um dos nomes mais consistentes do heavy/power metal finlandês. Depois de diferentes fases ao longo da sua história, desde os primeiros anos como Fairytale até ao regresso nos últimos anos, a banda apresenta agora Defying Gravity, um álbum que marca um novo capítulo na sua evolução, impulsionado pela entrada da vocalista Heidi Aaltonen. À conversa com a Via Nocturna 2000, os Dyecrest falaram sobre a criação do álbum, a nova dinâmica da formação e o momento atual da banda.

 

Olá, pessoal. Em primeiro lugar, bem-vindos de volta e obrigado por dedicarem o vosso tempo para falar com a Via Nocturna 2000. Com o lançamento de Defying Gravity, como é que apresentariam este novo capítulo dos Dyecrest tanto aos fãs de longa data como aos ouvintes que estão a descobrir a banda pela primeira vez?

NIKO TAKALA (NT): Muito obrigado pelo convite! Para os fãs de longa data, eu descreveria isto como um verdadeiro novo começo para a banda. Depois da Heidi se ter juntado aos Dyecrest no final de 2023, surgiu uma visão partilhada muito clara dentro da banda sobre o que queremos fazer e para onde queremos ir. Isso trouxe muita energia nova e motivação para tudo o que fazemos, tanto musicalmente quanto ao vivo. Para os novos ouvintes, Defying Gravity é provavelmente a melhor introdução possível aos Dyecrest neste momento. Combina riffs pesados, melodias fortes e uma atmosfera emocional de uma forma que nos parece muito natural. Sinceramente, sentimos que este álbum representa a versão mais forte e completa da banda até agora.

 

Defying Gravity chega três anos depois de Once I Had a Heart e parece representar um momento muito importante na evolução da banda. Olhando para trás, como foi a jornada desde as primeiras ideias até à forma final do álbum?

NT: Uma diferença importante em comparação com alguns dos nossos álbuns anteriores foi que todas as canções de Defying Gravity foram escritas especificamente para este álbum durante um período de cerca de um ano e meio. Isso deu ao disco uma identidade muito mais focada e coesa desde o início. O processo de composição também mudou bastante porque a Heidi envolveu-se profundamente na escrita das letras e das melodias vocais. O trio de compositores (Matti, Henri e Pirkka) construiu as bases musicais, enquanto a Heidi trouxe a sua própria abordagem emocional e melódica para as canções. Acho que essa combinação funcionou extremamente bem e ajudou a moldar a atmosfera final do álbum. Ao mesmo tempo, todo o processo pareceu mais descontraído e agradável do que tinha sido nos últimos anos. Todos se esforçaram ao máximo para obter as melhores atuações possíveis, mas ainda havia essa sensação positiva durante as gravações de que fazer música era simplesmente divertido novamente.

Um dos aspetos repetidamente mencionados sobre este álbum é a sua natureza altamente colaborativa, com as canções a serem desenvolvidas em conjunto na sala de ensaios, em vez de individualmente. Como é que esta abordagem influenciou a química e a identidade final do álbum? 

HENRI AROLA (HA): Sim, uma das maiores diferenças neste álbum foi o facto de as canções terem sido desenvolvidas de forma muito mais colaborativa do que antes. Normalmente, o ponto de partida continuava a ser uma base musical escrita por um dos principais compositores (Matti, Pirkka ou eu próprio) e a Heidi moldava então as melodias vocais naturalmente em torno do seu próprio estilo e voz. Em alguns casos, o compositor já tinha também ideias melódicas fortes e, se estas se adequassem à Heidi, mantínhamo-las. O que realmente influenciou a química do álbum foi o facto de termos tido a oportunidade de ensaiar, arranjar e aperfeiçoar muitas das canções juntos antes de entrarmos no estúdio, o que nem sempre foi o caso em alguns dos nossos álbuns anteriores. Também passámos mais tempo juntos em sessões dedicadas à composição, a discutir arranjos e até a afinar melodias em grupo até que soassem bem. Provavelmente, o melhor exemplo desta abordagem colaborativa é The Weight Of The Trigger. A canção começou com alguns fragmentos melódicos fortes da Heidi, que inspiraram o Matti a construir a estrutura musical à volta deles. O Matti também contribuiu com melodias vocais adicionais, enquanto eu escrevi e pré-arranjei a letra com base nas ideias melódicas existentes, com a ajuda do Niko. A canção também apresenta secções a solo do Pirkka, do Matti e de mim. De muitas formas, a faixa surpreendeu-nos a todos e mostrou o quão criativo o processo pode tornar-se quando todos contribuem naturalmente. É definitivamente algo que gostaríamos de explorar ainda mais no futuro.

 

Em termos sonoros, o álbum parece uma fusão entre as raízes do heavy metal clássico, o power metal melódico e toques mais atmosféricos ou até progressivos. Foi uma intenção consciente a vossa de expandir a paleta musical dos Dyecrest?

PIRKKA OHLIS (PO): Sim, acho que essa é definitivamente uma forma de ver as coisas. Acredito que um dos pontos fortes da banda sempre foi a capacidade de transitar naturalmente entre diferentes ambientes, sons e nuances musicais. Queríamos, sem dúvida, realçar essa versatilidade também neste álbum. Foi também uma decisão consciente não nos limitarmos demasiado a um género específico. Apesar de a base estar fortemente enraizada no heavy e no power metal, foi sempre importante para nós deixar espaço para diferentes atmosferas e até para alguns elementos mais inesperados. Ultrapassar limites e desenvolver o nosso próprio som faz parte do ADN dos Dyecrest desde o início. Quando começamos a compor novas canções, normalmente não pensamos muito sobre como elas «devem» soar em termos de estilo. O mais importante é captar o estado de espírito e a emoção exatos que se adequam a cada canção individual. Às vezes, isso significa uma abordagem mais direta e agressiva, enquanto noutras ocasiões exige algo mais melódico ou atmosférico. Talvez seja exatamente por isso que este álbum se concretizou de forma tão natural como algo que soa e se sente verdadeiramente como nós. É possível ouvir todos os diferentes lados que sempre fizeram parte da banda, mas desta vez estão talvez mais equilibrados e mais fortemente presentes do que nunca.

 

Pelo que é percetível, a chegada da Heidi trouxe uma energia renovada e uma dimensão emocional ligeiramente diferente à música. De que forma a dinâmica dentro da banda mudou com esta nova formação?

NT: A mudança foi, sinceramente, enorme para nós. A Heidi trouxe não só uma nova voz, mas também um tipo de energia completamente renovada para a banda. A colaboração começou de forma muito natural desde o início e, rapidamente, ficou claro que todos estavam novamente totalmente inspirados e motivados. A Heidi também assumiu um papel importante na composição das letras e das melodias vocais, o que, naturalmente, alterou a dinâmica da nossa composição. Faz uma grande diferença quando o cantor cria pessoalmente as palavras e as melodias que, em última análise, são transmitidas através da sua própria voz e emoções. A energia renovada também tem sido muito visível ao vivo no palco. Na verdade, 2024 tornou-se o nosso ano mais ativo em termos de concertos desde 2006, o que diz muito sobre o impulso que a banda ganhou com esta formação.

 

The Weight Of The Trigger destaca-se como a composição mais longa e ambiciosa do álbum. O que nos podem dizer sobre a criação desta faixa e por que razão se tornou uma peça tão importante no álbum? 

MATTI PASANEN (MP): Gosto de me desafiar um pouco quando estamos a compor músicas. E, ao mesmo tempo, gosto muito de música que não se entende logo à primeira, mas que se revela mais cada vez que a ouvimos. Na verdade, decidimos logo no início que queríamos fazer uma faixa um pouco mais longa, construída em torno de temas fortes. Tínhamos um monte de ideias e melodias diferentes e começámos simplesmente a juntá-las num todo maior. Lembro-me de ter dito logo no início que «esta vai ter 13 minutos». Não chegámos bem lá, mas, hey, é algo a que podemos aspirar no próximo álbum (risos). Apesar de ser mais longa do que uma faixa típica de rádio, nada nela parece desnecessário, não há preenchimento, tudo tem o seu lugar. A letra também ficou muito boa e acrescenta muito peso ao conjunto. Diria que acabou por ser uma das faixas mais fortes e completas do álbum.

 

Por outro lado, faixas como Forsaken e Enceladus apresentam um forte equilíbrio entre peso e melodia. Acham que os Defying Gravity finalmente capta o som exato que os Dyecrest têm procurado ao longo dos anos?

NT: Em muitos aspetos, sim. É claro que todos os álbuns refletem a época em que foram criados, e estamos orgulhosos de todos os nossos lançamentos (… bem, pelo menos de quase todos, rios!), mas o Defying Gravity parece especialmente equilibrado e natural como um todo. Apesar de haver muitos ambientes e influências diferentes no álbum, tudo se encaixa de forma muito orgânica. Os elementos mais pesados e sombrios combinam com o lado melódico melhor do que nunca. Sempre acreditámos que as melodias fortes são o coração dos Dyecrest, independentemente do quão pesada ou atmosférica a música se torne à sua volta. Também acho que as canções respiram de forma mais natural agora do que nos nossos álbuns anteriores, e isso provavelmente vem tanto do processo de composição como da influência da Heidi na parte vocal.

 

Forsaken contou também com participações especiais de Tuuli e Katariina, do IKINÄ, conferindo à canção uma dimensão mais crua e dramática. Como é que essa colaboração surgiu? O que é que elas trouxeram à atmosfera da faixa?

HEIDI AALTONEN (HA): A colaboração com a Tuuli e a Katariina surgiu de forma muito natural. Já nos conhecíamos há algum tempo através da cena musical, uma vez que eu participava na canção Jumalatar dos IKINÄ.  Quando Forsaken começou a tomar forma, senti que a canção precisava de um certo tipo de voz e energia que eu não conseguia criar totalmente sozinha. A Tuuli e a Katariina têm um estilo tão intenso e reconhecível que, ao envolvê-las, senti imediatamente que era a escolha certa. Quando a Tuuli e a Katariina se juntaram à faixa, trouxeram um sentido muito mais forte de contraste e drama à atmosfera. Ao mesmo tempo, a presença delas criou um diálogo poderoso entre os lados melódico e agressivo da faixa, tornando toda a experiência mais dinâmica.

 

O trabalho de produção com o Miitri Aaltonen e a masterização do Mika Jussila deram ao álbum um som muito polido, mas poderoso. Quão importante foi trabalhar com pessoas que compreenderam a visão da banda desde o início? 

NT: Foi extremamente importante. O Miitri trabalha connosco desde 2018, por isso, a esta altura, ele compreende muito bem como é que os Dyecrest devem soar. Isso cria uma atmosfera descontraída durante o processo de produção, porque já existe um forte nível de confiança entre todos os envolvidos. Ao mesmo tempo, o Miitri nunca tem medo de nos desafiar se algo puder funcionar melhor, e isso é igualmente valioso. Queríamos que o álbum soasse poderoso e moderno, mas ainda assim dinâmico e emocional, em vez de excessivamente polido. E, claro, ter o Mika Jussila a encarregar-se da masterização também foi fantástico. Ele já masterizou álbuns para tantas bandas lendárias que é sempre especial trabalhar com alguém desse calibre.

 

Os Dyecrest passaram por diferentes épocas ao longo da sua história, desde os primeiros tempos como Fairytale na década de 1990 até ao hiato e eventual renascimento nos últimos anos. Olhando para onde a banda se encontra hoje, achas que esta é a versão mais forte e confiante dos Dyecrest até agora?

NT: Sem dúvida. Essa é provavelmente a pergunta mais fácil de toda a entrevista (risos)! É claro que também houve momentos inesquecíveis no passado; conseguir o nosso primeiro contrato discográfico, fazer uma digressão pela Europa com os W.A.S.P. e os DragonForce, todas essas coisas foram experiências enormes para nós, enquanto jovens músicos. Mas, ao mesmo tempo, também passámos por períodos difíceis, frustração e até um hiato de dez anos. É por isso que nos parece especialmente significativo que agora, após mais de 25 anos como banda, nos sintamos mais fortes do que nunca. Acreditamos que Defying Gravity é o melhor álbum que já fizemos e, ao mesmo tempo, a banda está provavelmente na melhor forma ao vivo de toda a sua história. Essa combinação parece-nos bastante especial.

 

Com o álbum finalmente lançado, já existem planos para levar estas canções para o palco através de uma digressão europeia mais ampla ou atuações em festivais num futuro próximo?

NT: Esperamos sinceramente que sim! Haverá mais concertos na Finlândia ainda este ano e, ao mesmo tempo, estamos constantemente a explorar possibilidades de tocar também no estrangeiro. Temos memórias realmente fantásticas de concertos europeus anteriores, por isso, naturalmente, adoraríamos regressar aos palcos internacionais. Esperamos que o novo álbum nos abra novas portas e nos ajude a levar estas canções a públicos por toda a Europa.

 

Por fim, obrigado mais uma vez pelo vosso tempo. Gostariam de deixar uma mensagem final para os leitores da Via Nocturna 2000 e para todos os que apoiam os Dyecrest em todo o mundo?

NT: Um enorme obrigado a todos os que apoiaram os Dyecrest ao longo de todos estes anos e também a todos aqueles que nos tenham descoberto recentemente. Significa verdadeiramente muito que as pessoas ainda se identifiquem com a nossa música depois de todo este tempo. Esperamos que ouçam o Defying Gravity, nos sigam nas redes sociais e, com sorte, venham ver-nos ao vivo algures no futuro. A viagem continua!

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