Entrevista: Grain Of Pain



Com raízes profundas no doom metal melancólico e uma forte ligação à cena nórdica, os Grain Of Pain regressam com Behind Us All, sucessor do aclamado The Moon Lights The Way. Mais maduro, coeso e emocionalmente intenso, o novo álbum reforça a identidade da banda através de melodias sombrias, atmosferas envolventes e uma abordagem profundamente humana à composição. E para nos falar deste álbum, estivemos à conversa com Timo Solonen e Lars Eikind.

 

Para começar, obrigado pelo vosso tempo e parabéns pelo lançamento de Behind Us All. Para quem ainda não vos conhece: como apresentariam os Grain Of Pain e a essência por trás do vosso som e visão?

TIMO SOLONEN (TS): É um prazer, obrigado. Acho que os Grain Of Pain são um grupo de doom metal melancólico e melódico, com algumas influências de prog e death. Para mim, a música é a forma como tento sobreviver neste mundo maravilhoso e, espero, também possamos transmitir esperança aos outros. Trata-se principalmente das lutas da vida, mas com pequenos vislumbres de luz na escuridão.

 

O vosso segundo álbum, Behind Us All, marca uma continuação de The Moon Lights The Way. De que forma acham que a banda evoluiu entre estes dois discos?

LARS EIKIND (LE): Behind Us All é, na minha opinião, um produto mais maduro. Estamos mais familiarizados com as qualidades uns dos outros como músicos e compositores. Por isso, temos mais espaço para interpretar as canções nos nossos instrumentos individuais sem medo de entrar em conflito. E também estamos muito mais familiarizados com todo o conceito da música dos Grain Of Pain em geral. Acho que é um álbum mais coerente estruturalmente, de certa forma.

 

Qual é o núcleo conceptual ou emocional que une estas canções?

LE: Para mim, como cantor, tudo se resume à narrativa e à forma de contar a história. Temos de nos colocar na mente da pessoa ou das pessoas que estão a contar a sua história.

 

Timo, como principal compositor, como é que a tua abordagem composicional se desenvolveu desta vez, em comparação com o álbum de estreia?

TS: Esta foi a primeira vez que enviei versões realmente cruas de melodias, riffs, partes de músicas e outras ideias ao Juho. Tudo foi gravado no meu telemóvel e, por vezes, sem amplificadores ou efeitos.  Portanto, material realmente cru. O Juho ouviu imensos ficheiros e selecionou as melhores ideias para o novo álbum. Normalmente, pego na minha guitarra e deixo o meu subconsciente falar. Mais tarde, nas sessões de demo, escolhemos essas ideias e começámos a fazer arranjos com base na ideia do tipo de álbum que queríamos fazer. Também decidimos logo que o álbum não devia ser demasiado longo, porque há fãs que queriam ter o álbum em vinil e fazer um álbum duplo é simplesmente demasiado caro.  Uma grande diferença foi também que, desta vez, sabíamos desde o início que o Lars iria cantar no álbum, o que ajudou a manter o álbum mais focado e coerente.

 

O álbum equilibra uma intensidade esmagadora com melodias inesquecíveis. Quão consciente foi esse contraste dinâmico durante o processo de composição e arranjo?

TS: Acho que é a forma como escrevemos e arranjamos as canções. É uma forma muito natural de o fazermos e adoro contrastes, porque são importantes para criar atmosferas nas canções. 

 

Lars, os teus vocais limpos conferem uma camada emocional muito distinta ao material. Como foi a tua abordagem neste álbum?

LE: A minha abordagem vocal em Behind Us All foi manter as canções alinhadas entre si, para que tivéssemos uma longa viagem musical em vez de apenas muitas canções separadas sem qualquer ligação real. Os meus vocais em todo o álbum foram gravados numa única sessão, sem ter lido as letras de antemão. Este é um método de composição que tenho usado na maioria dos álbuns em que cantei. Isso elimina a possibilidade bastante perigosa de pensar demais e produzir em excesso e deixa uma abordagem mais direta e genuína ao material. Ouço a música e leio as histórias e canto exatamente o que me vem à mente instantaneamente após essa primeira impressão.

 

Voltaram a trabalhar com um círculo de músicos nórdicos altamente experientes, incluindo membros associados a bandas como os Swallow The Sun. Como é que este ambiente colaborativo moldou o resultado final? 

LE:  Embora tenhamos origens diferentes, continuamos muito ligados. O Juho e o Juuso tocam juntos nos Swallow The Sun e o Juho e eu tocámos juntos nos Before The Dawn. Por isso, cheirar as meias sujas uns dos outros num autocarro de digressão durante muitos anos tem as suas vantagens.

 

O próprio Juho Räihä ficou encarregado da produção, gravação, mistura e masterização na SoundSpiral Audio. O que o fez a pessoa certa para supervisionar toda a identidade sonora do álbum?

LE: O Juho é a escolha lógica. Não só tem uma vasta experiência com o Juuso e comigo como colegas de banda, como também é o melhor engenheiro de som e produtor da Finlândia. E não digo isto apenas porque é um bom amigo meu. A sua capacidade de transformar o caos em estrutura é bastante surpreendente. O Juho tem uma visão clara e sabe como a colocar num contexto musical.

 

O álbum conta com várias participações especiais, como Pekka Olkkonen, Eemeli Bodde e Kirsten Jørgensen. Como é que estas colaborações surgiram e o que é que cada um deles trouxe para as respetivas faixas?

TS: Depois de termos as nossas músicas de demo mais ou menos prontas, eu estava a pensar em como tornar tudo ainda mais interessante. Eu já sabia que adoraria ter a Kirsten a participar no álbum, se houvesse um bom espaço para ela. Depois de escrever as letras, começámos a pensar com o Juho em qual das músicas ela seria perfeita e, rapidamente, decidimos qual seria. Tenho acompanhado os Evig Natt e adoro as suas músicas e finalmente tive coragem de lhe perguntar. A voz dela é incrível e encaixa na perfeição na atmosfera da música. Além disso, queria ter uns growls realmente poderosos em The Offering, mas não queria ser eu a fazê-los. Entrei em contacto com a nossa amiga comum, a Johanna, e perguntei-lhe se ela podia perguntar ao Eemeli se ele estaria interessado em participar na música. Graças a Deus, ele quis experimentar e o resultado é incrível. Neste álbum há mais solos de guitarra e pensámos que seria ótimo se alguém de fora da banda gravasse um solo numa música para dar algo de novo à música. O Juho tinha alguns nomes em mente e decidimos contactar o Pekka. O solo é tão bom como esperávamos e dá para reconhecer que é o Pekka a tocar.

 

Também há elementos adicionais notáveis, tais como arranjos de violoncelo e paisagens sonoras. Quão importantes foram estas texturas para expandir a profundidade emocional do álbum?

TS: Muito importantes. Por exemplo, quando fizemos os arranjos para Dance With Me, ouvi violoncelo na minha cabeça quase imediatamente. Tentei tocar um solo de guitarra na primeira parte, mas simplesmente não funcionou. Só ouvia violoncelo na minha cabeça e já sabia quem gostaria que fizesse o arranjo e tocasse violoncelo na música. Estou muito feliz pelo Teemu Mastovaara ter tido tempo para o fazer. Além disso, estávamos a pensar com o Juho se devíamos experimentar paisagens sonoras adicionais em duas canções e perguntámos ao Aleksanteri Kuosa se ele gostaria de o fazer. O trabalho dele é fantástico e adorámos os resultados. Tanto o trabalho do Teemu como o do Ale foram muito importantes e deram mais profundidade emocional. Recomendo vivamente estes tipos; eles sabiam exatamente o que procurávamos.

 

O artwork de Gogo Melone e a apresentação visual refletem uma atmosfera forte. Quão intimamente ligada está a identidade visual à própria música?

TS: Acho que o artwork capta bem a atmosfera do álbum.  O álbum é bastante sombrio e assombroso, diria eu, por isso a arte é excelente para isto. Bastante simples, mas eficaz, tal como a música, mas com detalhes agradáveis.

 

Olhando para o futuro, quais são as vossas expectativas em relação aos concertos ao vivo? Os fãs podem esperar espetáculos ou até planos de digressão para promover Behind Us All?

TS: Neste momento, não sabemos quando poderemos tocar ao vivo.  O pessoal está muito ocupado e o Lars também vive na Noruega, por isso a coordenação de horários é bastante difícil, mas nunca se sabe.

  

Por fim, ao lançarem este novo capítulo ao mundo, o que esperam que os ouvintes levem consigo depois de ouvirem Behind Us All? E para onde acham que os Grain Of Pain se dirigem a seguir?

LE: Espero que o álbum permita aos ouvintes apreciar o doom metal de uma forma nova ou diferente, e também espero que possam mergulhar nas histórias que são contadas através das letras e talvez se identifiquem com elas, talvez até se relacionem com elas e encontrem algum encerramento ou alívio nas suas próprias vidas. Espero, e acho, que Behind Us All seja um álbum que as pessoas vão querer ouvir novamente depois da primeira audição. Quanto ao futuro, nada está definido, mas é claro que vamos continuar a fazer música e a gravar álbuns. Esse é o nosso presente para o mundo.

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