Ao longo das anteriores entrevistas concedidas à Via Nocturna
2000, os australianos The Neptune Power Federation foram revelando um universo
próprio onde o hard rock clássico, a
teatralidade sci-fi e a mitologia da Imperial Priestess coexistem de
forma cada vez mais coesa. Com Mondo Tomorrow, a banda regressa com
aquele que descreve como o seu capítulo mais selvagem e excêntrico até à data. Nesta
terceira conversa com Via Nocturna 2000, Mike Foxall ou Inverted CruciFox, fala
sobre essa mudança estética e conceptual e a forma como Mondo Tomorrow
se integra na mitologia crescente dos The Neptune Power Federation.
Olá, Pedro! Temos andado a
trabalhar sem parar, bastante ocupados nos últimos 12 meses a gravar dois
álbuns (Mondo Tomorrow e a regravação do nosso primeiro álbum, Mano A
Satano, desta vez com a Priestess nos vocais) e a preparar-nos para
mais uma digressão europeia.
Mondo Tomorrow pode ser descrito
como o capítulo mais selvagem e estranho na trajetória da banda. Na tua
perspetiva, o que distingue este álbum de Goodnight My Children e dos
discos anteriores?
Goodnight My Children foi o culminar dos nossos esforços
para celebrar o pop/rock polido dos anos 70 que adoramos (Cheap
Trick, Meatloaf, Heart, etc.), por isso, com este álbum,
decidimos afastar-nos disso e torná-lo um pouco mais sujo e excêntrico.
Provavelmente está um pouco mais próximo do nosso som ao vivo, com a banda a
inclinar-se mais para a sua zona confortável de biker rock e a atuação
da Priestess um pouco mais descontrolada.
Mencionaste
que «o tempo viaja nos dois sentidos» ao referires-te ao conceito do álbum.
Podes aprofundar essa ideia? Como é que isso molda a direção narrativa desta
vez?
A Sacerdotisa Imperial sempre
trouxe a sua energia de bruxa viajante no tempo para a banda, mas isso
geralmente manifestava-se em relíquias do passado, desde a sua moda da era
vitoriana até aos temas de muitas das canções. Desta vez, estamos puramente focados
no futuro e nas suas experiências lá.
A banda tem explorado
frequentemente as aventuras da Sacerdotisa Imperial através de diferentes
épocas. Desta vez, o foco desloca-se para os perigos da tecnologia. O que
inspirou esta mudança temática?
Provavelmente apenas o que está a
acontecer no nosso mundo real! Sempre adorei ficção científica distópica,
embora esteja a aproximar-se de forma desconfortável do futuro em que estamos
prestes a viver. Tal como muitas pessoas, olho para os magnatas tecnológicos
bilionários que influenciam as nossas vidas e o futuro do planeta e não estou
convencido de que tenham os melhores interesses de todos no coração.
Faixas como Mind Controller e Cybernetic
Times sugerem uma distopia retrofuturista. Até que ponto procuraram
conscientemente equilibrar a nostalgia do rock clássico com uma visão mais
moderna e até mesmo cautelosa?
Gosto que os álbuns tenham um mundo
coeso em que se inscrevem, como um filme imaginário. Por isso, é uma tentativa
muito consciente de ligar a música a uma linguagem visual que as pessoas possam
compreender.
Musicalmente, nota-se uma
injeção renovada de energia punk a par da vossa base de hard rock já
estabelecida. Foi este um regresso deliberado às vossas raízes, ou surgiu
naturalmente durante o processo de composição?
Foi uma decisão consciente ligada
àquela progressão natural que culminou no último álbum que mencionei acima. É
bom haver uma distinção entre os álbuns, mesmo que tenhamos uma vibração geral
que se mantém em tudo. Todos nós viemos de um passado punk, por isso
essa abordagem mais rápida e agressiva é provavelmente a nossa configuração
padrão.
O
álbum foi gravado na vossa «casa espiritual», a Pet Food Factory em Sydney, e
posteriormente misturado por Lachlan Mitchell. Esta combinação de ambiente
familiar e contribuição externa influenciou o som final?
Gravamos todos os nossos álbuns na Pet
Food Factory e depois usamos diferentes engenheiros de mistura. Este foi o
nosso primeiro álbum com o Lachlan e ficámos encantados com o que ele fez. Ele
está presente na cena metal australiana há décadas e produz sempre um
excelente trabalho. Ele permite realmente que o som autêntico da banda se
manifeste sem ser muito esculpido. Um toque leve que faz com que tudo soe
pesado!!
Os The Neptune Power
Federation sempre tiveram um forte sentido de identidade e mitologia. Após sete
álbuns, como mantêm esse universo em evolução?
É um pouco desafiante! No entanto,
acrescentar à mitologia é divertido e é o que mantém tudo interessante, torna-o
mais do que «apenas uma banda», se é que me entendem. Sou uma pessoa visual,
por isso, ter a música a interagir com a arte e os filmes imaginários que estou
sempre a criar permite que as ideias continuem a fluir.
Olhando para a discografia
mais ampla, desde Mano
A Satano até Mondo Tomorrow, vês este novo álbum como uma
continuação, uma reinvenção ou um pouco de ambos?
Vejo cada álbum como algo distinto,
mas a partir de Memoirs Of A Rat Queen fiz um esforço consciente
para ligar cada «capítulo» num todo coeso. Se me dessem umas bebidas e algum
tempo, provavelmente conseguiria ligar os antigos também!
Já têm uma digressão
europeia marcada para 2026, incluindo atuações em festivais. O que podem os fãs
esperar destes concertos e como pretendem transpor o material do Mondo Tomorrow para o palco?
Já incluímos várias canções do Mondo
no alinhamento aqui na Austrália e correram muito bem, encaixam na perfeição no
nosso estilo de atuação ao vivo. Também há algumas do Mano A Satano no
alinhamento. Estamos ansiosos por partilhá-las com os nossos amigos europeus!
Por fim, Mike, obrigado mais uma vez pelo teu tempo; é sempre um prazer. Há alguma coisa que gostasses de dizer aos teus ouvintes e àqueles que vão descobrir os The Neptune Power Federation através deste novo álbum?
Saudações, Pedro! Obrigado pelo apoio de todos, espero ver-vos num concerto.



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