Com uma carreira iniciada no início dos anos 90 e uma
discografia que ajudou a consolidar o nome dos The Quill como uma das
referências mais consistentes do heavy rock
escandinavo, a banda sueca regressa agora com Master Of The Skies, onde continua
a construir o seu percurso. Nesta conversa com Roger Nilsson, revisitámos o
universo da banda para falar sobre o processo criativo por detrás de Master
Of The Skies e sobre as novas dinâmicas de composição numa era cada vez mais
dominada pela artificialidade.
Olá, Roger, em primeiro
lugar, bem-vindo de volta e obrigado por teres dedicado o teu tempo para falar
com a Via Nocturna 2000 mais uma vez! É sempre um prazer voltar a contactar os
The Quill depois de todos estes anos. Como estão as coisas na banda neste
momento, especialmente com o lançamento de Master Of The Skies?
As coisas estão ótimas no campo do The Quill
neste momento. Estamos num estado de espírito muito bom. Uma mistura de
entusiasmo, pânico moderado e aquela clássica sensação de «será que nos
esquecemos de alguma coisa?» que se tem sempre antes de lançar um novo álbum.
Estamos a preparar-nos para uma série de concertos pela Suécia e Dinamarca, e
subir ao palco com material novo é sempre fantástico. As primeiras críticas têm
sido muito positivas, o que é um grande alívio. Nunca se sabe realmente como as
pessoas vão reagir até a música ser lançada, por isso ouvir coisas boas
ajuda-nos definitivamente a dormir à noite.
Master Of The Skies parece ser mais
um passo forte e confiante na evolução dos The Quill. Qual foi a faísca inicial
ou a mentalidade que acabou por levar ao nascimento deste álbum?
Não houve propriamente um único momento de «inspiração
repentina». Estamos sempre a compor. Normalmente, demora cerca de duas semanas
após terminarmos um álbum até que alguém envie um novo riff, uma ideia
estranha ou um refrão a meio da noite, às 2 da manhã. É como uma esteira
transportadora criativa sem fim. Felizmente, nunca sofremos de bloqueio
criativo. Se há algum desafio, é acompanhar todas as ideias que andam por aí.
Referiram que as
canções puderam desenvolver as suas próprias identidades naturalmente. Em termos
práticos, o processo de composição diferiu dos álbuns anteriores?
Sim, bastante. O nosso baterista Jolle mudou-se para
Estocolmo há alguns anos (a cerca de quatro horas de distância do resto de nós),
o que significa que já não ensaiamos juntos com tanta frequência. Em vez disso,
tornámo-nos uma banda digital nas fases iniciais: todos gravam ideias em casa e
enviam-nas ao Magnus, que começa a dar forma às melodias vocais. Depois,
reunimo-nos, ligamos os instrumentos e vemos o que sobrevive à transição de «demo
fixe» para «a banda a tocá-la a sério». Algumas ideias traduzem-se lindamente…
outras morrem de forma rápida e misericordiosa.
Aparentemente, este
álbum surgiu de forma mais coletiva enquanto banda. Esse sentido mais forte de
colaboração também trouxe novos desafios ou dinâmicas criativas inesperadas
para o estúdio?
Sim, sem dúvida. Somos todos criativos, temos opiniões
fortes e somos teimosos, cada um à sua maneira encantadora. Por isso,
apresentar ideias no estúdio pode tornar-se animado. Não violento, mas digamos
«energicamente apaixonado». O lado positivo é que, depois de todos estes anos,
conhecemo-nos bem o suficiente para perceber quando alguém acredita realmente
numa ideia. Quando isso acontece, o resto de nós costuma recuar e deixar essa
pessoa conduzir. É um pouco como diplomacia musical.
No entanto, desta vez
também houve mais experimentação no estúdio. Houve alguma ideia, som ou
abordagem invulgar que, surpreendentemente, tenha acabado por se tornar parte
essencial do álbum?
Sem dúvida. Adicionámos algumas faixas mais curtas e
leves que funcionam como pausas para respirar entre as canções mais pesadas.
Para nós, o contraste é essencial. Um álbum deve parecer uma viagem, não apenas
dez faixas de rock pesado empilhadas como tijolos. Esses pequenos
desvios ajudam os grandes riffs a terem ainda mais impacto.
Há um contraste muito
interessante ao longo do álbum: musicalmente, os The Quill continuam a abraçar
aquele espírito caloroso e vintage do rock pesado, mas o álbum evoca imagens
futuristas ou distópicas. Quão consciente foi esse contraste entre o som retro
e a atmosfera futurista?
Bastante consciente, na verdade. Com o estado do mundo
hoje em dia, é difícil não sentir tanto nostalgia pelo que já foi, como
curiosidade ou preocupação, com o que está por vir. A capa capta isso na
perfeição: o «mestre» como um piloto a tentar escapar em direção a algo melhor,
enquanto velhos demónios se agarram à cabina de pilotagem pelo lado de fora. É
o rock retro a encontrar-se com a ansiedade do futuro.
Trabalharam mais uma
vez com o Erik Nilsson nos 491 Studios. Nesta fase, regressar a um ambiente de
estúdio familiar ajuda a preservar a identidade dos The Quill, ou na verdade
incentiva-vos a experimentar mais livremente?
Trabalhar com o Erik nos 491 Studios é como
voltar para casa com alguém que sabe exatamente quando te dar uma cerveja e
quando te dizer para parar de brincar. Ele já nos conhece tão bem que
consegue perceber quando uma ideia precisa de mais tempo, ou quando é hora de
seguir em frente antes que a estraguemos. Nunca nos faltam ideias, mas o Erik é
o tipo que diz: «Pronto, já chega, a próxima.» Todas as bandas precisam de
alguém assim.
Olhando para as nossas
conversas anteriores, uma coisa que sempre se destacou foi a honestidade da
banda e a recusa em seguir tendências. No panorama musical atual, achas que se
tornou ainda mais importante manter a autenticidade e confiar nos teus próprios
instintos?
Sem dúvida. Com a música gerada por IA a tornar-se
cada vez mais comum, a autenticidade e a emoção verdadeira vão ser ainda mais
importantes. As pessoas têm um detetor de tretas incorporado; conseguem
sentir a diferença entre algo criado por humanos com suor e coração verdadeiros
e algo montado por um algoritmo. As imperfeições fazem parte do que dá vida à
música.
Após uma carreira tão
longa e respeitada, o que ainda motiva os The Quill criativamente? É a química
entre vocês os quatro, o amor pelo heavy rock em si, ou o desejo de
continuar a ultrapassar os vossos próprios limites?
É a alegria de criar juntos. Sempre tivemos este
desejo de fazer com que a próxima canção fosse melhor do que a anterior. Claro,
nunca nos tornámos a banda que vende milhões de discos (embora não nos
tivéssemos queixado), mas a verdadeira recompensa continua a ser o processo
criativo. E quanto mais envelhecemos, mais apreciamos o facto de termos mantido
esta banda viva através de tendências em mudança, tempos em mudança e entradas
no cabelo em mudança.
Com o novo álbum disponível,
já existem planos concretos para uma digressão? Os fãs podem esperar uma
intensa atividade ao vivo em torno de Master Of The Skies? E datas em
Portugal?
Adoraríamos sair por aí e tocar o máximo possível, mas
as digressões tornaram-se um verdadeiro desafio. O negócio mudou drasticamente
após a pandemia e, com a economia atual, é difícil fazer as contas baterem
certo. Mas estamos a trabalhar nisso e, se tudo correr bem, adoraríamos levar Master
Of The Skies também a Portugal.
Que mensagem final gostariam de deixar para os vossos fãs de longa data e para todos aqueles que se preparam para entrar no mundo de Master Of The Skies?
Obrigado por nos terem acompanhado todos estes anos. Significa mesmo tudo para nós. Esperamos que gostem de Master Of The Skies tanto quanto nós gostámos de o criar. E, com sorte, vemos-nos em digressão em breve.



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