Há já
vários anos que Bruno A. ocupa um lugar muito particular na música atmosférica
nacional. Depois da passagem marcante pelos Vertigo Steps, o músico consolidou
nos Soundscapism Inc. um universo sonoro cada vez mais pessoal, onde convivem rock progressivo, post-rock, ambiência e uma
forte componente cinematográfica. Agora, com A Sea Of Floating Mirrors,
Bruno apresenta um dos trabalhos mais diretos, coesos e emocionalmente intensos
da carreira do projeto. Em mais uma conversa com o músico radicado em Berlim, falamos
sobre o processo criativo, a evolução sonora dos Soundscapism Inc. e as
inevitáveis ligações ao passado com os Vertigo Steps.
Bruno, antes de mais, é
um enorme prazer voltar a conversar contigo. Como vai a vida por Berlim?
Olá, Pedro, prazer também da minha parte em falar um
pouco contigo e sobre a tua Via. Por Berlinde, tudo bem, cheguei recentemente de
3 semanas em Lisboa (onde tive oportunidade de receber os CDs do novo álbum da
nossa editora, fresquinhos da fábrica) e estou a preparar-me para a estação
estival e mais umas viagens. Mas, sobretudo, de volta ao estúdio para acabar de
trabalhar num tema novo, que será acompanhado de vídeo e que é certamente das
coisas mais catchy que alguma vez fiz…
Os leitores da Via
Nocturna 2000 já acompanham o teu percurso há vários anos, desde os tempos de
Vertigo Steps até à consolidação dos Soundscapism Inc.. Como encaras este
regresso com A Sea Of Floating Mirrors e em que ponto sentes que o projeto
se encontra atualmente?
Sinto que SInc. está bem estabelecido, após uma década
de lançamentos que têm vindo a evoluir a nível sónico, sempre com muita
abrangência de estilos e arranjos, mas desde os últimos 2 álbuns com a
determinante inclusão de bateria real. O novo álbum é certamente um dos mais
fortes e o mais bem produzido. Passei muito tempo com ele e estou satisfeito
com o resultado. E também com o trabalho de mastering, novamente pelo Dan
Grigoriu no seu estúdio no Canadá, no qual tivemos oportunidade de analisar
muita coisa ao pormenor, durante largas semanas.
Depois do muito
elogiado Staring Down On Incandescent Cities, o que desencadeou o
processo criativo que acabaria por dar origem a A Sea Of Floating Mirrors?
Penso que esteve ligado a uns plugins de
guitarra que finalmente me deram o som distorcido de que gostava e que me
fizeram compor o riff principal da Rust And Sawdust. A partir daí
foram saindo os outros temas em catadupa até ao ponto em que tinha suficientes
para um álbum compacto e não me foquei em mais nada que não neles e na sua
depuração. Depois foi deixar maturar como um bom vinho e aprimorar detalhes,
deixar as ideias respirar e assentar até que chegassem à sua forma definitiva.
Desde cedo tiveste uma
visão concreta para o álbum ou foi algo que se revelou gradualmente?
Como de costume e como acabei de referir, o caminho
foi revelando-se aos poucos. Depois vai-se formando a visão mais completa e
perfaz uma espécie de conceito global, ligado aos temas líricos, capa, etc. O
que acaba por unificar tudo e estabelecer um todo mais completo e realizado do que
a mera soma das partes individuais.
O próprio título é
bastante evocativo e cinematográfico. Que simbolismo existe por detrás desta
escolha e de que forma se relaciona com os temas abordados ao longo do disco?
Sinceramente, prefiro que cada um faça a sua
interpretação do título e da capa - enigmática e marcante como sempre. Mas está
vagamente relacionado com um sonho que tive e com ideias escapistas ligadas a
uma certa análise crítica da sociedade atual. A forma como uma miríade de
espelhos, arrastada pela forte corrente oceânica, vai continuando a refletir o
azul do céu, mesmo com o resultado visual cada vez mais difuso, impreciso e
arrastado… quase como um reality distortion field. E sim, muito em SInc.
é evocativo e cinematográfico e os títulos são uma importante parte disso.
Gosto muito de literatura e palavras, assim como de cinema, e essas são coisas
sobre as quais procuro refletir com este projeto.
Nota-se que neste álbum
tens uma abordagem mais compacta, direta e “straight to the point”. Como
decorreu a composição deste álbum e de que forma procuraste equilibrar a
vertente atmosférica habitual com esta faceta mais rock e imediata?
Isso é uma boa questão, para a qual não tenho uma
resposta definitiva. Acho que estou “condenado” a pendular entre estilos, é
tudo muito instintivo e intrínseco para mim. Tanto agarro na guitarra e me sai
um riff todo catchy e balanceado, como estou a fazer coisas mais
eletrónicas e atmosféricas, com harmonias de voz, arranjos cuidados,
sintetizadores e efeitos de guitarra. Gosto de experimentar com ideias, sons e
instrumentos diferentes. Neste álbum quis deliberadamente, como referes,
cingir-me a uma composição mais direta e “tradicional”, embora mantendo sempre
a minha linguagem musical. Penso que o álbum, contendo apenas 10 faixas e 46
mins, constitui um bom apanhado de temas de orientação rock com alguns
outros temas (ou passagens dentro deles) mais atmosféricos, emocionais,
melancólicos ou sonhadores. Para mim, trata-se de um equilíbrio natural e muito
mais orgânico do que propriamente algo pensado ou planeado.
Musicalmente, continua
a existir uma forte componente melancólica e contemplativa, mas ao mesmo tempo
notam-se um maior dinamismo e uma certa luminosidade em alguns momentos.
Consideras que este álbum reflete uma mudança na tua perspetiva pessoal ou emocional
face aos trabalhos anteriores?
Não necessariamente, mas concordo que isso está
presente. Mas de certa forma já o estava em álbuns anteriores. Já desde os
primórdios de SINC. que incorporo luz, acordes e modos maiores, a influência do
post-rock, etc. Não é tudo doom & gloom e é a
mistura que torna a coisa tão especial e única. Tanto há melancolia e nostalgia
como partes sonhadoras, como também momentos mais impactantes, com alguma
escuridão ou rock pesado. Gosto dessa versatilidade e fator surpresa,
que até nos espelha como seres humanos multifacetados; no final do dia não
somos sempre luz nem sempre trevas. O que muda é o balanço. Pessoalmente, sou
alguém que está em paz com as “trevas”, com a escuridão da alma ou melancolia
do mundo (isto no sentido de estar confortável com essa faceta, o que não quer
dizer que não haja suficiente no mundo que me revolte e enoje, sobretudo da
parte do Homem), mas que tem uma perspetiva ainda assim positiva, construtiva e
otimista qb. E isso provavelmente encontra-se espelhado na música que faço e nos
temas que abordo.
Uma vez mais,
rodeaste-te de colaboradores muito específicos. Que contributos trouxeram
Manuel Costa, Filipe “Xinês” Caeiro e Marius Friedenberg para o resultado final
do álbum? E até que ponto gostas de deixar espaço para que os convidados
acrescentem algo da sua própria identidade às músicas?
Para mim, é importante que os convidados tenham o
espaço necessário para trazerem algo seu e melhorarem o todo, caso contrário,
não faria sentido tê-los. O Manuel já colabora com SInc. há muito e dá sempre o
seu toque especial no baixo (tocado quase sempre sem palheta), além de ter
contribuído com alguns backing vocals. É preciso (literalmente)
apanhá-lo em terra, quando não está a pilotar os seus passarocos de emergência
médica e por isso temos menos tempo juntos do que seria ideal, além de Berlim
ser enorme e vivermos em zonas diametralmente opostas. Mas quando este existe,
temos uma forte química musical e aprecio muito a pica e o talento que traz.
Além da amizade e cumplicidade (e humor!) de quem se conhece desde a
adolescência. O Xinês foi uma excelente adição e deu muito gozo produzir as
suas baterias; já estivemos para colaborar antes e desta foi de vez. Ainda
recentemente me enviou as baterias para o tal tema novo, sempre a partir, e
estará no vídeo. Fiel às minhas programações, mas com o groove, detalhes
e fills dele. Já o Marius, conhecemo-nos de forma algo random, através
duma fã antiga de VS; ele estava fresco em Berlim e esteve algumas vezes no meu
estúdio. Acabou por ser natural colaborar num dos temas e adequou-se na
perfeição ao Come Hell And High Water (curiosamente o último tema que
escrevi para o álbum).
Ao longo da discografia
dos Soundscapism Inc., é possível notar uma evolução constante. Sentes que A Sea Of Floating
Mirrors representa o momento em que o projeto mais se aproxima da essência
dos Vertigo Steps?
Olha, para te ser muito sincero, se não fosse por
todas essas menções a VS por parte dos media (e alguns ouvintes), nem
era coisa que me ocorresse. De todo. Parece-me que isso é muito mais uma
curiosidade para os ouvintes do que para mim. É natural que temas como Tell
Me A Story do álbum anterior, ou alguns neste, com uma orientação mais heavy
rock e aquela melancolia e tendências progressivas, acabem por recordar
alguns ouvintes do meu passado com VS. Isto porque as melodias, tal como toda a
música e os textos, vêm do mesmo sítio, da mesma pessoa. Embora essa pessoa
também evolua e mude, não será exatamente a mesma que na década passada. A
grande diferença é que hoje, com outra maturidade, posso fazer coisas bem mais
grandiosas a nível sonoro e de composição e tenho muito menos limitações de
tempo do que com VS, até por ter o meu próprio estúdio há cerca de 9 anos. É
muito raro ouvir VS hoje em dia, mas quando acontece não deixo de me
surpreender e de estar orgulhoso do trabalho, mesmo sabendo que faria muita
coisa diferente, se tivesse tido mais tempo e capacidades de ser eu próprio a
produzir. De qualquer forma, e ainda que eu não veja as coisas assim, não tenho
qualquer problema em que fãs de VS notem neste álbum de SInc. as maiores
semelhanças entre projetos até à data. Para mim, sempre foi claro que SInc
agradaria a 90% dos (verdadeiros) fãs de VS! Por outro lado, até teria
curiosidade em que me indicassem um tema em específico que pudesse ser
confundido com VS.
Sendo tu alguém com um
percurso muito ligado ao rock progressivo, ao post-rock e à
música atmosférica, sentes que os Soundscapism Inc. continuam a ser um espaço
de exploração livre, sem grandes limitações estilísticas, ou há atualmente uma
identidade sonora mais definida para o projeto?
Já abordei um pouco essa questão acima; não sou pessoa
de limitações estilísticas e é por isso que SInc. tem desde músicas ambientais,
até outras eletrónicas e muito rock puro e duro, e ainda diversas,
talvez a maioria, com vários desses elementos misturados. Essa versatilidade
sonora está no âmago da minha composição e gostos e por isso tento não me
restringir demasiado. Se quiseres ir a um passado remoto, já em Arcane Wisdom
o meu som era extremamente variado. Aliava black metal melódico a avantgarde,
eletrónica, heavy metal tradicional e música folk. Jamais me
restringi a um só estilo musical. Por outro lado, tenho sempre em mente a
coerência sonora de um álbum, a forma como o alinhamento flui, etc. Este novo
álbum é quiçá o mais compacto e coerente que já fiz, unificado pelas minhas
vozes, melodias e arranjos, e apoiado pela seção rítmica virtuosa e produção e
masterização cuidadas. De qualquer forma, não penso continuar a tornar os
álbuns cada vez mais pesados; haverá sempre momentos com impacto e peso, mas
também outros mais épicos, orquestrados, com eletrónica e ambiência e trabalho
intricado de harmonias vocais. O maior foco é em melodias memoráveis e únicas.
O álbum apresenta
canções bastante fortes e até potencialmente mais “tocáveis” ao vivo. Alguma
vez ponderaste levar os Soundscapism Inc. para o palco de forma mais regular ou
continua a ser um projeto pensado sobretudo para estúdio?
Logisticamente seria mesmo bastante difícil, por isso
para já continuará a ser maioritária ou exclusivamente de estúdio, pese embora
os diversos convites que já recebi para atuações ao vivo.
Para terminar, Bruno,
obrigado pela disponibilidade e por mais esta conversa. Que mensagem gostarias
de deixar aos leitores da Via Nocturna 2000 e a todos aqueles que têm
acompanhado a tua trajetória desde os tempos mais antigos até este novo
capítulo?
A mensagem é a de sempre: ouçam e interiorizem a
música, mostrem a amigos, colegas e familiares e apoiem quer com o vosso feedback
quer com a aquisição de cópias físicas pelo website ou digitais pelo Bandcamp.
Obrigado pela conversa, tudo de bom para a VN2000 e até breve. É sempre
um prazer, Pedro.



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