Entrevista: Chaosaddiction

 


Antes mesmo de Kintsugi chegar ao mercado, já os Chaosaddiction o andavam a defender ao vivo. O projeto nasceu em 2018 pelas mãos de Rui Alexandre, como um espaço de liberdade criativa distante do thrash metal que o público associa aos Terror Empire, mas acabou por ganhar uma nova dimensão quando se transformou em banda no final de 2024. O resultado é um disco de estreia que cruza groove, peso e agressividade sem grandes preocupações em caber dentro de rótulos. À conversa connosco, o mentor Rui Alexandre fala sobre a formação da banda, a construção deste primeiro álbum e os próximos passos de uma estreia que, ao contrário do habitual, parece já ter arrancado a todo o gás.

 

Antes de mais, bem-vindos e obrigado pela vossa disponibilidade. Para quem ainda não conhece os Chaosaddiction, como apresentariam a banda e este primeiro capítulo materializado em Kintsugi?

Obrigado, nós! Chaosaddiction é um projeto individual transformado em banda no Porto, no fim de 2024. Comecei com o Gaspar Ribeiro (bateria), e umas semanas depois, juntaram-se o Pedro Mota e o Pedro Magalhães (baixo e guitarra, respetivamente). Começámos a compor desde o primeiro ensaio e não houve tempo a perder até gravarmos o primeiro álbum.

 

Sendo este o vosso álbum de estreia, como nasceu o projeto Chaosaddiction? Houve um momento ou ideia-chave que tenha servido de ponto de partida?

Chaosaddiction surgiu como projeto individual no fim de 2018, como uma forma de escrever música que não tinha nada a ver com Terror Empire, a minha outra banda desde 2009. Se, numa, tocava essencialmente thrash, nesta tinha carta branca para escrever o que quisesse; não havia qualquer guião ou limites (e isso não se alterou). A própria temática lírica não tinha - nem tem - nada a ver. Queria um escape criativo. Não sei precisar como começou a segunda fase de Chaosaddiction (já como banda), mas penso que foi no fim de um ensaio de Terror Empire, em que fiz uma jam com o Gaspar e vi que havia aqui muito potencial.

 

A banda reúne músicos com percursos diversos. Que background traz cada elemento ao coletivo e de que forma isso se reflete na identidade sonora do grupo? 

Eu venho do thrash, mas sempre ouvi de tudo. O Gaspar surge um bocado desfasado no tempo (acho que é a única vez que falha no tempo, na verdade…), porque tem a alma de um 90’s kid: ouve grunge, metal old-school, moderno… ele toca de tudo - e bem. Os Pedros entram de caras  nesta vibe, e resultamos todos muito bem, musical e pessoalmente. Ninguém escolheu “vamos tocar um estilo” para começarmos. Se tanto, decidi apenas fugir ao thrash, porque para isso já tinha Terror Empire. Isto é uma besta diferente.

 

O vosso som remete claramente para o metal mais cru dos anos 90, com referências a nomes como Machine Head, Pantera ou Sepultura. Até que ponto estas influências foram ponto de partida e onde procuram afirmar uma identidade própria?

Ponto de partida intencional, não foram. Como disse antes, apenas quis fugir do thrash. E isto implicou tornar os riffs mais simples, mais massivos e diretos. Portanto, é natural que soem àquelas referências que nunca tentámos esconder; fazem parte do que sempre gostámos de ouvir. A identidade própria vem da misturada que surge delas e das nossas próprias referências individuais. Musicalmente, temos muita química e as músicas surgem com uma naturalidade brutal.

 

Há uma forte componente de groove aliada à agressividade do hardcore. Como é trabalhado esse equilíbrio entre peso, ritmo e intensidade?

Temos “o riff” e depois deixamos que o novelo se desenrole para o resto da música. Vamos fazendo o que a música pede. E, muitas vezes, isto implica que vamos alternando dinâmicas musicais, para que a música não soe toda ao mesmo. Tentamos não fazer um overthink. Se soa bem, segue. Se não soa, procuramos outro caminho.

 

Kintsugi é um título carregado de simbolismo. De que forma este conceito se reflete no conteúdo lírico e emocional do álbum?

Reflete-se a 100%; as letras são um coração a sangrar. É um exercício de catarse, é quando a arte sai mais genuína. Há muitos sentimentos genuínos que serviram de mote, foram hiperbolizados e resultam nesta descarga de violência lírica e sonora que moldou o Kintsugi.

 

O tema Sinto Muito serviu como cartão de visita. O que representa esta faixa dentro do álbum e que tipo de receção têm sentido por parte do público? 

Foi o primeiro single; quisemos que a nossa música de apresentação fosse a que é cantada em português, para mostrar que não soaríamos a nenhuma das nossas outras bandas. É a nossa música mais hardcore, com um breakdown pesadão no fim. Deixa a adivinhar que isto não vai ser sempre arroz. A receção tem sido boa, mas hoje em dia nem uma gota no oceano musical somos. Há muita oferta, mesmo. Ou te vestes de personagem às bolinhas e tocas em micro-tons, ou é difícil distinguires-te a tocar géneros que - reconheçamos - estão bastante batidos.


Sendo um álbum de estreia, que desafios encontraram ao longo do processo de composição e gravação?

A composição foi super natural, super rápida. Somos mesmo muito práticos e não quisemos estar com meias medidas, se o que compúnhamos estava a soar bem. E foi sempre a andar. O maior desafio foi preparar um setlist para o concerto de estreia no lançamento dos nossos amigos Destroyers Of All - que acreditaram em nós desde o momento zero - com uns dois meses de ensaios no bucho. Tivemos de dar ao chinelo, mas só nos fez bem! Espera; o nosso maior desafio tem sido escrever bem o nosso nome. Nunca pensei que isto fosse acontecer.

 

A cena nacional tem vindo a revelar vários projetos interessantes dentro destas sonoridades mais cruas e diretas. Como veem o vosso lugar nesse panorama?

A cena nacional sempre foi muito rica. Não vou estar a falar mal; aquele discurso de coitadinhos e injustiçados. Temos uma cena nacional incrível. Grandes bandas e artistas. Podia ser melhor? Claro. Todos queremos sempre melhor. O nosso lugar é rasgar e encontrar o nosso cantinho. A fazer amigos, quando a malta é fixe, e a lidar quando não é. Não queremos roubar o lugar a ninguém. Há espaço para todos.

 

Existem já planos concretos para levar Kintsugi para a estrada? Podemos esperar datas, digressões ou presença em festivais num futuro próximo?

Kintsugi está na estrada ainda antes de ter sido lançado. Temos tocado todos os meses e assim queremos continuar - vejam as nossas datas no nosso Instagram ou no nosso site chaosaddiction.com. Queremos tocar mais e chegar a mais festivais, também. Vamos ao Arcanxo em Espanha, este julho, fora outros festivais portugueses… apareçam!

 

Olhando mais à frente, que objetivos traçam para Chaosaddiction após este primeiro lançamento? Já existem ideias a germinar para novo material? 

Posso adiantar que já estamos a compor o sucessor. Já temos três músicas praticamente feitas e mais duas já bastante avançadas. Isto vai, mas ainda queremos fazer render o Kintsugi mais um bocadinho…


Para terminar, obrigado mais uma vez pelo vosso tempo. Querem deixar uma mensagem final para quem vos está a descobrir através desta entrevista?

Procurem-nos nas plataformas de streaming e no YouTube. Espero que gostem. Se gostarem, mostrem a alguém! E venham ver-nos ao vivo, tem outra intensidade. Apoiem o underground nacional; as bandas e os festivais não começam grandes. Isto só existe convosco. E, vá, pronto… comprem-nos o CD e o merch. Precisamos de dinheiro para sustentar os vícios.

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