Antes de mais, há algo de particularmente satisfatório quando
uma banda regressa não apenas para recuperar um nome do passado, mas para
concluir um percurso que ficou interrompido demasiado cedo. Os italianos
Dominance pertencem a essa categoria. Quase três décadas depois da estreia e
após anos de ausência, os Dominance regressam com ...But The Thorns Remain, um álbum que assume sem rodeios o
papel de continuação espiritual do seu primeiro registo. Nesta conversa,
percorremos a longa história dos Dominance e o resultado é o retrato de uma
banda que, passados 27 anos, encontrou finalmente a oportunidade de gravar o
álbum que sentia ter ficado por fazer.
Em primeiro lugar,
sejam bem-vindos e obrigado por dedicarem o vosso tempo para falar connosco.
Para aqueles que possam estar a descobrir os Dominance através deste novo
capítulo, como apresentariam a banda e o seu legado?
DAVIDE TOGNONI: Obrigado, Pedro, pela oportunidade! Para responder a esta
pergunta, tenho de recuar bastante no tempo, até 1992, e contar-vos um pouco da
nossa história. Os Dominance formaram-se em Rolo, na província de Reggio
Emilia, em 1992. Eua na bateria e Massimo Baroni na guitarra fundaram a
banda com a intenção de fazer death metal intransigente. Em 1995,
completou-se a formação que viria a tornar-se a formação «histórica» da banda: Mauro
Bolognesi nos vocais, Saverio Rossi no baixo e Alessandro Zanotti
na guitarra juntaram-se ao grupo. A partir desse momento, a banda embarcou numa
intensa digressão ao vivo pelo norte e centro da Itália, aperfeiçoando um som
que combina violência rítmica, velocidade e aberturas melódicas de inspiração
escandinava, com Dissection e At The Gates como principais
referências e as lições dos Death sempre presentes. Em 1999, lançámos
pela Scarlet Records o nosso álbum de estreia, Anthems Of Ancient
Splendour, que recebeu excelentes críticas tanto da imprensa musical
italiana como internacional. Nesse mesmo ano, abrimos os concertos de Malevolent
Creation, Krabathor e Master em Biella, no norte da Itália.
Este foi o momento de maior visibilidade, mas uma crise estava mesmo ao virar
da esquina: em 2001, ambos os guitarristas saíram, marcando o início de um
longo período de mudanças na formação que iria alterar gradualmente o som da
banda. Mais dois álbuns, Echoes Of Human Decay (2009, Kolony Records)
e XX: The Rising Vengeance (2016, Sliptrick Records), foram bem
recebidos, mas estavam longe das raízes de Anthems. Em 2016, eu também
deixei a banda. Pouco tempo depois, os Dominance deixaram de existir. Em
2019, no entanto, aconteceu algo novo e inesperado: três membros da formação
original de Anthems deram por si a tocar juntos, sem um projeto definido,
apenas por diversão. Juntaram-se a nós Maurizio Bandiera no baixo (ex-Morbus,
uma banda com a qual partilhámos praticamente tudo nos anos 90) e Alessandro
Simeoni na guitarra (Genital Grinder, ex-membro dos Mind Phaser):
dois amigos de longa data e «veteranos do metal»! Com o tempo, começámos
a compor novas canções novamente, e devo dizer que o resultado final nos surpreendeu
até a nós, pois conseguimos recriar os sons que tinham marcado os nossos
primeiros dias, mas com mais maturidade e equilíbrio. As canções que surgiram
desses ensaios remetem naturalmente para o som dos Anthems: foi a
confirmação de que tinha chegado a hora de recuperar o nome Dominance. A
21 de março de 2026, ...But The Thorns Remain foi lançado pela editora underground
portuguesa Maledict Records, precedido pelo single The Revenge Of
Steel. Com este álbum, a banda regressa às suas raízes: blackened death
metal feito de velocidade, violência sónica e atmosferas sombrias, fundido
com as aberturas melódicas e épicas que caraterizaram a nossa estreia em 1999.
Consideramo-lo a verdadeira continuação espiritual de Anthems. O álbum
que devíamos ter feito naquela altura, fizemos hoje. 27 anos depois.
…But The Thorns Remain marca um
regresso significativo. O que representa este álbum para vocês, pessoal e
coletivamente?
MAURO BOLOGNESI: Representa muitas coisas ao mesmo tempo. É a prova de que
algumas histórias nunca terminam verdadeiramente; apenas foram interrompidas,
fazem uma pausa (eu saí da banda em 2013) e depois retomam quando menos se
espera. É a prova de que o laço entre nós — musical e humano — permaneceu
intacto apesar dos anos de silêncio. Musicalmente, é o álbum que devíamos ter
feito logo a seguir a Anthems: reconecta esse fio partido, com uma
maturidade composicional que obviamente nos faltava naqueles anos. Há também
algo mais pessoal nestas letras: falam de certezas que se desmoronam, de
feridas que são invisíveis, mas nunca saram, do que resta depois do rugido ter
acalmado. Tínhamos 25 anos na altura, hoje temos o dobro dessa idade, tanta
coisa aconteceu, entretanto...
Há um silêncio de uma
década desde XX: The Rising Vengeance. Quais foram os principais fatores
por trás deste longo hiato e o que, em última análise, despertou a vontade de
regressar agora?
DAVIDE TOGNONI: A pausa não foi uma escolha, foi uma consequência. Deixei
os Dominance em 2016 devido a uma combinação de fatores: problemas
físicos num braço que consegui resolver com cirurgia e fisioterapia, o
nascimento do meu segundo filho e algumas divergências sobre a gestão da banda.
Após a minha saída, a banda continuou por algum tempo com outros músicos, tendo
depois cessado toda a atividade em 2019. Eu também tinha parado de tocar, mas,
passado menos de um ano, o apelo do death metal era demasiado forte.
Toquei sozinho por algum tempo e depois com o Maurizio (o baixista) e outros
amigos da casa onde temos a nossa sala de ensaios desde 1992. Depois, peguei no
telefone: liguei ao Mauro (o vocalista), com quem partilhei 18 anos de metal
(de 1995 a 2013), e ao Massimo (o guitarrista), com quem não tocava há 18 anos.
O Maurizio ligou ao Alessandro (o guitarrista) a dizer que já há algum tempo
que falavam em fazer algo juntos, mais cedo ou mais tarde. Todos aceitaram
imediatamente. Acredito que a paixão, a perseverança e a determinação são a
base deste regresso, para além da amizade que nos une. Nunca desistam!
Tendo regressado com
uma formação que se reconecta fortemente com as vossas raízes, como foi a
química no estúdio em comparação com os vossos primeiros tempos?
MASSIMO BARONI: Surpreendentemente natural. Certos mecanismos foram
reativados num curto espaço de tempo, apesar da passagem do tempo. Descobri a
forma de compor músicas como se não tivessem passado tantos anos desde que
parei de tocar death metal (em 2001). O Davide praticamente nunca parou
de tocar bateria, o Mauro pegou no microfone com uma intensidade renovada, o
Maurizio, que com os Morbus era literalmente nosso vizinho de sala de
ensaio nos anos 90, e o Alessandro Simeoni, que conhecemos há décadas,
integraram-se na perfeição, trazendo as suas contribuições pessoais e
essenciais. O Alessandro também fez um excelente trabalho na pré-produção do
álbum, gravando e editando todas as faixas de guitarra e baixo. Para as
gravações de bateria e voz e o reamping de guitarra e baixo, bem como a
mistura e masterização, regressámos ao Studio 73 em Ravenna com o Riccardo
Pasini, que já tinha trabalhado com a banda anteriormente. Tudo foi feito
sem tensão. O atrito dentro da equipa é algo que não nos preocupa.
O álbum é dedicado a
Alberto Davolio (1972–2017). Podem falar-nos mais sobre a sua importância e
como a sua memória influenciou este disco?
MAURIZIO BANDIERA: O Alberto «Zava» era tantas coisas, difíceis de
descrever em apenas algumas frases: era um amigo íntimo, um músico muito
conhecido na nossa região. Tocou em várias bandas (do hard rock ao death
metal): líder do grupo de death metal Morbus entre os anos 90
e 2000, vocalista dos Genital Grinder no final dos anos 2000, depois
baixista e vocalista da banda de stoner rock Zener. Era um
motociclista apaixonado pela vida na estrada, tendo a amizade como valor
fundamental. Era uma pessoa genuína e cristalina, sem filtros nem hipocrisia,
alguém em quem se podia sempre confiar. Por esta razão, e graças ao seu grande
carisma, era frequentemente o ponto de referência e a força motriz incansável
por trás de muitas iniciativas: desde concertos até festas (algumas das quais
foram memoráveis e serão sempre motivo de recordações e histórias). A sua morte
foi um grande choque para todos nós, bem como para a pequena cidade onde
vivemos (4.000 habitantes). Zava é um de nós, o sexto membro dos Dominance.
Este álbum é dedicado a honrar, mais uma vez, a sua memória e a nossa amizade
eterna. Também a ele devemos o que somos.
Musicalmente, o álbum
apresenta faixas notavelmente longas, permitindo espaço para explorar
diferentes atmosferas e nuances. Foi uma decisão consciente ir além da pura
agressividade e abraçar uma forma mais expansiva de contar histórias?
ALESSANDRO SIMEONI: A culpa é do Massimo e da sua veia poética (estou a
brincar, risos). O que descreves sempre esteve no ADN dos Dominance
desde Anthems. Aqui também, estávamos interessados em construir algo,
criar um caminho dentro de cada música que combinasse violência e melodia,
agressão e construção. Músicas longas não eram um objetivo em si mesmas: são
uma consequência natural. Quando uma peça precisa de um certo espaço para se
desenvolver, ela toma esse espaço. Nunca nos impusemos limites quanto à
duração. A minha jornada musical (tal como a do Maurizio) vem de um contexto
diferente; com os Genital Grinder, por exemplo, toco grind-core.
Reunimos todas estas influências para contribuir para o resultado final.
Como é que o processo
de composição evoluiu em comparação com os vossos trabalhos anteriores,
especialmente tendo em conta a reunião de membros fundamentais do passado da
banda?
MAURO BOLOGNESI: Como o Davide mencionou anteriormente, tudo foi feito sem
tensão nem pressa. Reunimo-nos na mesma sala de ensaios em Rolo onde tudo
começou em 1992. Após um período inicial de adaptação, durante o qual também
nos divertimos a tocar covers dos Bolt Thrower e dos Napalm
Death, começámos a compor novas canções. Quando nos reunimos novamente, nem
sequer sabíamos qual seria a direção exata do projeto. A contribuição
fundamental do Massimo conduziu inevitavelmente o projeto para o som de Anthems.
O processo de composição, no entanto, é sempre coletivo; nenhuma canção
«pronta a tocar» chega ao estúdio. Isto, sem dúvida, atrasa o processo, mas é o
trabalho coletivo que sempre produz os melhores resultados. Quanto a mim,
escrevi algumas letras novas, enquanto resgatei outras de trabalhos anteriores,
e o Davide também escreveu duas.
A inclusão de uma
versão remasterizada de Anthem Of Ancient Splendour é uma escolha
interessante. O que vos motivou a revisitar esta faixa em particular e como
acham que ela se encaixa no contexto do novo álbum?
MASSIMO BARONI: A canção finalmente teve o que merecia: quando Anthems Of
Ancient Splendour foi lançada em 1999, descobrimos após o lançamento que a
faixa-título tinha sido prejudicada por um erro de masterização: a partir do
meio, dois canais estavam fora de fase, uma espécie de eco involuntário. A
editora nunca nos tinha enviado cópias promocionais, por isso não nos
apercebemos a tempo. Essa canção nunca soou como deveria. Após 27 anos,
queríamos finalmente dar-lhe o tratamento que merecia. E depois há uma razão
estilística: ...But The Thorns Remain é, idealmente, a sequela de Anthems,
por isso fazia sentido fechar o círculo incluindo essa canção remasterizada,
como uma ponte entre os dois álbuns. A decisão de a incluir no novo álbum
coincidiu, portanto, com a decisão de voltar ao nome Dominance.
Com um álbum de
regresso tão forte, os fãs vão naturalmente perguntar-se se há planos para
levar estas canções para o palco. Podemos esperar concertos ao vivo ou até uma
digressão para promover o novo lançamento?
ALESSANDRO SIMEONI: Sim, sem dúvida. A 21 de março de 2026, no mesmo dia
em que o álbum foi lançado, tocámos no ATP Live Club em Migliarina di Carpi,
com os Karmian e os Behind Starvation. A receção foi fantástica:
a sala estava lotada, com muitas pessoas que não víamos há anos. Foi muito
emocionante, especialmente a reação positiva do público. A nossa intenção é,
obviamente, continuar a tocar ao vivo. O problema é que as oportunidades se
tornaram muito mais escassas ao longo dos anos: acima de tudo, há menos locais
dispostos a organizar concertos e é difícil ser incluído nos cartazes sem o
apoio de agências de promoção. Vamos dar o nosso melhor. Anunciaremos mais
eventos ao vivo em breve.
Por fim, obrigado mais
uma vez pelo vosso tempo. Há alguma mensagem que gostassem de deixar aos vossos
fãs de longa data e àqueles que estão a descobrir os Dominance através de …But The Thorns Remain?
DOMINANCE: Aos que nos acompanham há anos: obrigado por não nos terem
esquecido. Sabemos que demorou décadas, que o caminho foi tortuoso, mas estamos
de volta com algo em que acreditamos verdadeiramente. Aos que nos estão a
descobrir agora: convidamos-vos a adquirir Anthems Of Ancient Splendour
— é daí que vêm os Dominance, e é daí que vem também ...But The
Thorns Remain. O death metal underground prospera com paixão, não
com números. Se conseguirmos transmitir apenas uma fração do que colocámos
neste álbum, já será uma vitória para nós.



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