Partindo
das raízes do doom tradicional, os
Lord Of Confusion constroem uma identidade própria e, depois de Evil
Mystery, a banda regressa com The Weight Of Life. Resultado de um
longo processo de composição e de uma evidente evolução artística, este é um
trabalho mais ambicioso, abstrato e emocionalmente denso. Em conversa com a Via
Nocturna 2000, Danilo Sousa falou sobre a criação do disco, a maturação da
banda, o processo de composição, a colaboração com Chris Fielding e os desafios
de transportar este universo sombrio e hipnótico para o palco. Confiram!
Olá! Antes de mais,
obrigado pela tua disponibilidade para falar com a Via Nocturna 2000. Como estás
a viver este momento de lançamento de The Weight Of Life e a receção que o
disco tem vindo a conquistar até agora?
Olá, obrigado pelo interesse no nosso trabalho e
apoio. Certamente está a ser um ponto alto para a banda e para nós de uma forma
individual. Estamos muito orgulhosos do que temos vindo a alcançar ao longo do
tempo e sentimos que estamos a ir pelo “caminho certo”.
Para quem possa estar
agora a descobrir os Lord Of Confusion, como apresentariam a identidade da
banda e aquilo que procuram transmitir através deste universo tão pesado,
obscuro e psicadélico?
Quem não conhece a banda só tem uma coisa a fazer:
ouvir e tirar as suas conclusões. Podem contar com um som ligado ao doom
tradicional, mas também não podem assumir que vão ouvir algo muito
convencional. Existem outros elementos em torno da banda com os quais a nossa
música convive.
Precisamente, o vosso
som sempre revelou uma forte ligação ao doom tradicional,
mas também a elementos psicadélicos, góticos e até mais extremos. Sentem que The
Weight Of Life representa a definição mais clara da personalidade musical da
banda até ao momento?
Sim, de momento é talvez o nosso trabalho mais
assertivo, mas também o mais complexo. No futuro, quem dirá se este álbum
será o blueprint para os próximos trabalhos, ou se não foi apenas um
desvio nesta viagem.
Depois de Evil Mystery, como
foi o processo que levou ao nascimento deste novo álbum? Houve desde logo a
intenção de criar algo mais ambicioso e maduro?
Não houve propriamente um processo ou ambição. Há
coisas que têm vida própria e nós naturalmente caímos nestas músicas, ou seja,
houve muito trabalho, houve muita atenção ao pormenor, houve ideias que nunca
chegaram ao cut final. Havia uma sensação de querer ultrapassar o Evil
Mystery, é verdade, mas não foi algo que foi levado a peito. Levámos tudo
com calma e tempo até estarmos satisfeitos. A banda já vai ganhando uns aninhos
e continuamos a ser a mesma formação; o tempo, por natureza, fez de nós pessoas
mais exigentes e talvez nos tenha dado um ouvido melhor, mas é tudo relativo.
Em algumas entrevistas
e apresentações do disco, referiram que muitas mudanças aconteceram dentro da
banda e nas vossas vidas pessoais durante a criação deste trabalho. De que
forma essas transformações acabaram refletidas no peso emocional e sonoro do álbum?
Tudo é pessoal e nada é pessoal. A música acaba sempre
por ser um espelho para o nosso interior. Acho que há sentimentos mais
positivos e outros menos nas nossas músicas. Não iremos estar a explicar essa
parte; cabe ao ouvinte tirar as suas conclusões e encontrar a sua versão da
história. Não temos interesse em dizer a alguém o que sentir e revelar segredos
tira a magia às coisas.
As primeiras ideias
para o álbum começaram ainda em 2023, mas o processo de composição prolongou-se
até ao final de 2024. Foi um disco que cresceu naturalmente ao longo do tempo
ou houve momentos em que sentiram necessidade de reconstruir determinadas músicas?
Como referi anteriormente, levamos o tempo que
sentimos necessário. Por exemplo, o Nelson deu várias ideias de coisas que
queria fazer na bateria e eu também tive de encontrar os riffs certos,
arranjar maneira de a banda seguir em frente sem deixar de soar a LOC. À
medida que as músicas pediam mais às dinâmicas das duas vozes, o teclado deixou
de estar presente o tempo inteiro. Quando nos apercebemos de que isso seria
positivo, reestruturámos um pouco as músicas também.
Como funciona
normalmente a composição dentro da banda? Os temas nascem primeiro dos riffs, das
atmosferas criadas pelos teclados, das linhas vocais ou tudo surge de forma
bastante coletiva?
Normalmente começamos com os riffs. Geralmente
tenho vários riffs que formam o esboço de uma música e trabalhamos a
partir daí. Alinhamos a guitarra com a bateria, maioritariamente, o baixo até é
bastante independente da guitarra porque, em vez de copiar os riffs, o
Fonseca costuma compor por cima deles. Os teclados são feitos à parte e as
vozes também. As letras/temas variam bastante, umas vezes são feitas a pensar
na música em questão, outras são algo que é escrito e depois adaptamos à
música. Melodias e dinâmicas de vozes também variam imenso, por vezes, quando
trago os riffs tenho uma ideia do que quero para a voz, outras não, e é
mais por improviso ou tentativa e erro. Por fim, as músicas de momento são
maioritariamente fechadas em conjunto.
Um dos aspetos mais
marcantes do álbum é precisamente o contraste entre o peso esmagador dos riffs e a componente
mais hipnótica e teatral das vozes. Trabalham conscientemente essa dualidade
quando constroem os temas?
Sim, é algo consciente e é um dos elementos que nos
tem destacado em relação ao resto. Ao mesmo tempo, é algo que é bastante
presente no doom tradicional, se calhar nós apenas tivemos uma forma um
pouco mais própria de o fazer.
Referiram também que
este é o vosso disco mais “abstrato”, tanto a nível lírico como musical. O que
vos levou a seguir esse caminho mais aberto à interpretação pessoal do ouvinte?
A resposta mais honesta que podemos dar é que foi o
desenrolar natural das coisas; tínhamos o título do álbum e riffs; o
resto é história. É como ver um filme ou olhar para um quadro. Muitas vezes, um
grupo de pessoas vê um filme e interpreta as coisas de maneiras diferentes; tem
personagens preferidas diferentes. Há pessoas que nem chegam a perceber o
filme. É tudo subjetivo.
As gravações voltaram a
acontecer no Garage 16 Studio, mas desta vez com um trabalho mais aprofundado
na produção e mistura. Que diferenças sentiram em relação ao álbum anterior
durante esse processo?
Sentimos que foi o step up que o álbum merecia.
Mais uma vez, foram decisões tomadas na hora e no momento por parte do nosso
produtor, o António, e por nós também. As músicas novas pediam um tratamento
diferente a nível de mix e master e foi uma batalha bastante
longa até encontrarmos a mix adequada. A nível de gravação não foi muito
diferente, fizemos live take sem metrónomo, ficou a bateria e o resto
foi gravado por cima. No álbum anterior houve algumas coisas que ficaram do live
take. A nível de técnicas e material de gravação, isso já é uma entrevista
a fazer ao António, mas sim, essa parte já foi diferente. O material usado pela
banda também mudou pouco; neste caso, o baixo que ouvem é um amp de
baixo e um de guitarra. A guitarra desta vez apenas usei o meu amp; no Evil
Mystery tinha usado o meu amplificador em conjunto com outro disponível no
estúdio. A nível sonoro achamos que este álbum ficou mais nítido, tem mais
impacto, há muito espaço em geral também. Não está claustrofóbico; há espaço
para ouvir todos os instrumentos e vozes. Dá para respirar.
A masterização esteve a
cargo de Chris Fielding, conhecido pelo trabalho com bandas como Conan ou
Electric Wizard. Como surgiu essa colaboração e que impacto sentem que teve no
resultado final do disco?
Foi simples: basicamente, contactámos o Chris;
dissemos que gostaríamos de trabalhar com ele; ele ouviu o álbum anterior como
referência; pareceu-lhe tudo bem e seguimos com ele. Foi a cereja no topo do
bolo; o mix já estava com um som muito bom e o Chris deu o golpe final.
Gostámos muito de trabalhar com ele. A comunicação foi muito simples, clara e
ele foi bastante profissional e prestável. Certamente adicionou algo e não foi
apenas um nome nos créditos.
Há também uma forte
componente visual associada à banda, tanto na estética como na própria presença
em palco. Até que ponto o lado visual e performativo faz parte da experiência
completa dos Lord Of Confusion?
Música ao vivo é sempre a forma mais autêntica de
experienciar uma banda... de facto a componente visual tem sido algo que tem
vindo a ganhar uma vida própria na nossa banda ao longo dos anos, a experiência
em palco, sair do país, partilhar o palco com artistas que adoramos traz um
à-vontade e motivação para que haja melhoria contínua, e sim, é algo que cada
vez mais o público associa a Lord Of Confusion. Em relação aos flyers,
às capas dos nossos trabalhos, fotos, cores que usamos... é tudo discutido e
pensado. Tirando o primeiro EP, a parte gráfica sempre foi feita dentro da
banda e com pessoas do nosso círculo com quem gostamos de trabalhar.
Este lançamento
trouxe-vos também novas oportunidades ao vivo, incluindo datas internacionais.
Que importância tem para vocês levar este álbum para o palco e existe já a
intenção de prolongar esta nova fase com mais concertos ou mesmo uma tour mais
extensa?
Nós tentamos sempre expandir o nosso trabalho para
fora, já o fizemos no passado e agora fomos um bocadinho mais longe
geograficamente e até superou as expetativas. Para nós, tocar fora é
importante, mas tem que ser algo sempre bem pensado para poder conjugar com a
vida pessoal dos membros e também tentamos não “simplesmente ir tocar”.
Gostamos de fazer as coisas com algum propósito, apesar de sermos um pouco
abstratos com a maneira como fazemos a música, acabamos por gostar de ter
controlo quando chega a parte de planear as coisas. Mas, respondendo à
pergunta, sim, é bastante importante para nós dar palco ao álbum novo, até
porque ele nos tem trazido muitas coisas boas e nos tem levado a sítios onde
nunca fomos. Sim, continuamos a marcar concertos até ao fim do ano; alguns
ainda não foram anunciados. Em relação a estender os concertos fora do país, só
o tempo dirá.
Para terminar, obrigado novamente pelo teu tempo. Queres deixar uma última mensagem aos leitores da Via Nocturna 2000 e a todos aqueles que se têm deixado consumir pelo peso de The Weight Of Life?
Obrigado por despenderem um pouco do vosso tempo para ler esta entrevista. Se ainda não ouviram o nosso álbum, façam-no. Um enorme obrigado a quem nos acompanha desde o início. Isso é algo que nos motiva bastante! Apareçam nos próximos shows e ouçam doom.




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