Entrevista: Tones Of Rock

 

Com Reality Hits, os Tones Of Rock mostram uma faceta mais pessoal e introspetiva, sem perderem a irreverência e o sentido de humor que sempre fizeram parte da sua identidade. Entre reflexões sérias e respostas carregadas de sarcasmo, a conversa com o coletivo a propósito do lançamento deste novo EP acabou por refletir na perfeição o espírito da banda: descontraído, espontâneo e incapaz de resistir a uma boa piada.

 

Antes de mais, obrigado pela vossa disponibilidade. Como se encontram neste momento e o que tem ocupado os Tones Of Rock desde o lançamento de Banzaw Mansion até Reality Hits?

DANNY SHRED (DS): Melhores que nunca! Temos feito um pouco de tudo, desde criação de conteúdos, gravação e composição de novos temas, reaprender as nossas próprias músicas em cada raro evento em que tocamos ao vivo. Um dia iremos aprender definitivamente!

FRANCIS VENUS (FV): O que nos ocupa? Acima de tudo, empregos, mulheres, filhos, casas, cadelas, futebol, voleibol, padel... 

 

Reality Hits, o vosso novo EP, marca uma abordagem mais crua e pessoal. O que motivou esta viragem e até que ponto reflete experiências reais vividas pela banda?

DS: Diria que foi algo essencialmente orgânico, nada foi muito pensado. Hell Ravine (tema do filme Barranco do Inferno) deu o mote para um cariz mais autobiográfico e introspetivo, e o resto foi um pouco atrás. Se tudo correr bem, nos próximos temas já voltamos a falar de macacos psicóticos e outras bizarrias.

DYLAN KRASH (DK): Não me parece que haja uma razão forte por trás. É uma evolução natural, mas como estamos a amadurecer como um bom vinho, o melhor ainda está para vir!

 

Por exemplo, o EP termina com um tema acústico, A War Inside. Esta aposta em dinâmicas mais despidas é algo que pretendem desenvolver mais daqui para a frente?

FV: Gostamos de dinâmicas mais despidas, adoramos-las despidas. Mas, neste caso, foi mesmo porque são necessárias 4 músicas para ser um EP. Então, precisámos de uma quarta música e não queríamos voltar ao estúdio porque, logisticamente, não estava planeado.

RICK MADISON (RM): Eu confesso que gosto de uma boa balada, mas é um tipo de música que não temos muitas oportunidades para explorar ao vivo. Ironicamente, o mais normal para nós é partilhar o palco com bandas de metal mais extremo e, nesse contexto, tocar uma balada… nah, não me parece boa ideia. As músicas mais pesadas da nossa setlist já são as baladas no meio do cartaz. Mas os estudos indicam que muitos metaleiros grandes e barbudos, criados no circle pit e fluentes em gutural, não resistem a uma boa power ballad. A War Inside foi mesmo a última música a entrar no EP. Interpretem como quiserem... mas as minhas melhores ideias surgem na cama. Uma madrugada, já passava das 5h, acordei com o refrão na cabeça. Saltei da cama e, ainda meio inconsciente, fechei a melodia e os primeiros versos. No próprio dia, a letra e a estrutura da música ficaram fechadas. Foi mesmo um momento de inspiração, até porque sinto mais dificuldades em compor músicas neste registo.

 

Hell Ravine acabou por ganhar destaque também fora do contexto habitual da banda, nomeadamente ligado ao cinema. Que impacto teve essa experiência na vossa forma de compor ou pensar a música?

FV: Foi uma experiência interessante. Neste caso, eu estive envolvido tanto no filme como na composição da música, portanto, foi libertador ter um tema em que a composição e criação do mesmo não foram tão abertas ao resto da banda. Provavelmente, no futuro, teremos mais composições individualizadas.

DK: O desafio de compor a música com um tema, uma história e um background bem definidos talvez tenha ajudado a quem ouve a ligar-se com mais facilidade à energia e ao ambiente que se quer passar. É uma das minhas músicas favoritas de ouvir e de tocar. Sem dúvida no top 3 de todo o portfólio.

 

Em 2021 falavam de um cenário glam/hard rock ainda muito de nicho e underground. Passados alguns anos, sentem que algo mudou ou continua a ser uma luta constante para manter este estilo relevante?

RM: Diria que não mudou tanto assim. A pandemia deu à luz mais umas quantas bandas do lado mais negro do metal e menos do lado mais colorido. Mas atenção: o surgimento de novas bandas, independentemente do género, é fundamental para manter o underground vivo, e nós apoiamos isso a 100%. Mesmo que seja reggaeton metal. Cinco anos depois, o glam & hard rock continua a ser um nicho em Portugal. Mas há um lado positivo a destacar: as bandas nossas amigas que já cá estavam sobreviveram a uma pandemia, a uma guerra na Ucrânia e acredito que também irão sobreviver a uma guerra nuclear, portanto, diria que estamos no bom caminho. Ao mesmo tempo, surgiram novos membros para esta família. Bandas como os Höt Föxx ou os Meräki mostram que ainda há vida neste lado mais “colorido” do metal. Agora, só falta mesmo encontrarmo-nos mais vezes, porque Portugal é pequeno e, ao mesmo tempo, grande o suficiente para bandas como as nossas.

FV: A grande luta hoje em dia, além do Médio Oriente, da Ucrânia, da Venezuela, continua a ser chegarmos a uma audiência que se divirta e compreenda a nossa música. Para mim, esse meio não é o underground.

 

A vossa música sempre teve uma forte componente visual e performativa. Como equilibram hoje essa faceta mais extravagante com esta abordagem mais pessoal e introspetiva de Reality Hits?

RM: Felizmente, e contra todas as probabilidades, a nossa componente visual continua impecável. Pelo menos da minha parte. Sinto que estou nos meus melhores anos de beleza e sensualidade. Mas, falando mais a sério, nunca vimos estas duas dimensões como incompatíveis. A nossa imagem é parte da nossa identidade e isso não desaparece só porque decidimos ser mais honestos e diretos naquilo que escrevemos. Em Reality Hits, a mensagem é, sem dúvida, mais pessoal… mas somos nós próprios, como nunca antes. Falamos de experiências reais e de sentimentos de perda, angústia e lealdade com a mesma naturalidade com que também cantamos sobre escravos sexuais da Cleópatra, ejaculação, ornitorrincos ou robots sexuais à conquista do universo.

FV: O grande sumo de Reality Hits é a Hell Ravine e a Game is On. Naquilo que me diz respeito, posso continuar a dançar em palco.

 

Tendo em conta a vossa trajetória desde 2009, o que consideram ser o maior desafio em manter a identidade da banda ao longo dos anos sem cair na repetição?

FV: O maior desafio é o Ramz (Rick Madison). Estou a brincar. Para já, é fácil criar coisas novas.

DK: Tentamos sempre manter presente uma boa parte da identidade da banda, sem cair na repetição e tentar incorporar sempre um ou mais elementos diferentes. Ajudava-nos muito termos mais tempo juntos e individualmente, esse é o maior desafio. Para além do Ramz. Estou a brincar!

 

Há planos para levar Reality Hits para a estrada? Podemos esperar datas ao vivo ou até uma tour mais estruturada nos próximos tempos?

FV: Não temos vidas para uma tour mais estruturada. Ia ser demasiado caro para os fãs suportarem. Até porque eu ia exigir massagista em todos os concertos.

DK: Novamente, o tempo e vidas pessoais têm sido a maior barreira para conseguirmos fazer esses planos. Mas, surgindo a oportunidade certa, bem remunerada, podemos contratar uma banda de covers dos Tones of Rock para fazerem a tour por nós. Diz-se por aí que tocar covers “bate mais” que tocar originais. Talvez seja este o segredo para o nosso sucesso.

 

Depois deste EP, estão já a trabalhar em novo material ou a pensar num próximo longa-duração?

RM:  As nossas mentes criativas são demasiado férteis… especialmente quando toca à parvoíce. Portanto, sim, há coisas a acontecer. Agora, a grande questão é: as pessoas querem esta versão mais séria e introspetiva dos Tones of Rock… ou preferem que voltemos ao caos habitual? Espero sinceramente que estejam todos a favor da devassidão, caso contrário, é um corte de tesão artístico. É que o melhor (e o mais absurdo) ainda está para vir...

FV: A tendência do mercado é mais música, mais imediatismo, mais conteúdo. Estamos a trabalhar em material novo, mas não planeamos investir num álbum. Queremos mais singles e mais EPs para a malta arrebitar.

 

Para terminar, que mensagem gostariam de deixar aos vossos seguidores e a quem ainda não mergulhou no universo dos Tones Of Rock?

RM: Em terra de cegos, mais vale um pássaro na mão. Ouçam Reality Hits para mais factos!

DS: Aproveitem para ouvir um pouco de música autêntica. Em breve, não saberemos o que é autêntico e o que é AI!

DK: Se Portugal ganhar o Mundial, nós lançamos outro EP em 2027!

FV: Comparativamente ao contexto geopolítico mundial, o nosso Reality Hits bate leve. Aceitem levar com ele.

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