Hellfest 2026 - Dia 1: quarta-feira, 17 de junho
No que me diz respeito, a partida para esta edição de
2026 do Hellfest não se faz a partir de Paris, mas de algumas centenas
de quilómetros mais longe: Lyon! Afinal, por que não: no ano passado, o ponto
de partida da viagem foi Toulouse, onde um concerto que reunia In Flames
e Orbit Culture decorria no Bikini na véspera. Uma sala com uma
excelente reputação e um line-up composto por duas bandas tão sólidas -
ainda por cima ambas ausentes das terras de Clisson - bastou para me decidir a
levar toda a minha tralha para a Cidade Rosa, antes da grande peregrinação do metal.
Bis repetita
neste mês de junho, portanto, rumo à Cidade dos Gones com a minha mochila de
festivaleiro. Depois de uma passagem pelo Hellfest 2025 e depois por
Paris em julho do mesmo ano, a nova versão dos Linkin Park teve de facto
a boa ideia de escolher desta vez o Groupama Stadium. Este estádio, onde joga
habitualmente o Olympique Lyonnais, será o cenário da única data francesa desta
nova etapa europeia. A oportunidade de chegar aos que não tinham podido
deslocar-se doze meses antes, ou aos que queriam voltar a levar uma boa dose de
nostalgia, atualizada com firmeza e determinação por Mike Shinoda, agora
acompanhado por Emily Armstrong. Acaba por verificar-se que o concerto é
muito semelhante ao que se realizou no Stade de France, tanto musical como
visualmente: num palco em tudo semelhante, o espetáculo cumpre os mesmos
requisitos e propõe uma sequência sólida de êxitos antigos e de temas novos já
bem entranhados na cabeça dos espetadores. A receção está à altura do
acontecimento, com a nova cantora a esforçar-se por vestir cada vez melhor o
fato deixado pelo imenso Chester.
O problema com este género de grande evento é que, no
fim, é inevitável evacuar mais de 54000 pessoas. O concerto terminou às 23h30,
mas será preciso 1h para sair do estádio e depois chegar, de transportes
públicos, ao parque de estacionamento de ligação onde está o carro. Contar
ainda mais 1h para chegar à cama deixa apenas pouco mais de 4h de sono. O
despertador estridente para não perder o TGV das 7h50 rumo a Paris Gare de Lyon
é de uma violência rara, mas é uma preparação perfeita para iniciar a viagem rumo
aos Infernos!
Na falta de comboio direto, é necessário trocar de
estação dentro de Paris, com passagem por Montparnasse para continuar. Se até
aí o destino dos viajantes era desconhecido e impossível de adivinhar, à
chegada aos cais deixa de haver qualquer dúvida. Este ano, uma vez mais, os
metaleiros marcaram encontro em massa logo na quarta-feira, com tendas e todo o
material indispensável para colonizar Clisson. As t-shirts são um
verdadeiro festival por si só: Castle Rat, Scorpions, Slipknot,
Bring Me the Horizon, ou ainda Metallica e Gojira; todos
os géneros e, sobretudo, todas as idades estão representados. As nacionalidades
também. Entre exclamações espanholas ou inglesas ouvidas aqui e ali, alguns
ostentam também orgulhosamente as bandeiras dos respetivos países. E
rapidamente se percebe que isso não está ligado a um longínquo Mundial a
decorrer do outro lado do Atlântico.
Já instalado, são 13h24 quando as carruagens se põem em
movimento. Para matar o tempo e ignorar a excitação que vai aumentando, as 2h30
seguintes são aproveitadas para fazer os últimos ajustes nos running orders
de cada dia. Porque, além dos 6 palcos habituais, a organização do Hellfest
deu este ano bastante destaque a 4 outros espaços. A Hellstage, esse
palco aberto no coração da Hellcity, continuará bem presente. A grande
tenda coberta do Metal Corner também recupera o lugar que lhe conhecemos
há várias edições, entre a porta da Hellcity e o campismo. A Purple
House e a sua jaula de MMA gradeada, descoberta em 2025 no lugar do
antigo espaço dedicado ao Hellfest Cult, também foram renovadas. É uma
satisfação sincera: o local tinha sido amplamente elogiado no ano passado. Stoned
Jesus pôde, nomeadamente, ali tocar o seu set de substituição, para
enorme prazer dos presentes que tinham conseguido enfiar-se sob a pequena tenda
sobreaquecida. A quarta e última novidade fica na zona da cervejaria, onde está
instalado um palco acústico. Se antes era costume listar no guia do festival os
poucos artistas ali programados pontualmente, o olhar atento notará que este
ano a escolha é muito mais importante, mais ampla e ganhou uma bela
consistência. É tanta que os palcos entram, pela primeira vez em 5 anos, no Clashfinder
do Hellfest que utilizo para programar os meus dias e navegar de palco
em palco. A ver no local, contudo, porque vir dos palcos históricos até à Hellcity
(e vice-versa) pode representar uma bela caminhada quando se vem lá do fundo da
Valley ou da Mainstage 2, e obriga a voltar a passar pela Catedral
e, portanto, pelos controlos e pela revista. Vai ser preciso calçar sapatos
muito bons para testar.
Por enquanto, é outro problema técnico que vem apimentar
a viagem. Depois de 2 primeiros comboios sem sobressaltos, a chegada a Nantes
por volta das 16h ganha subitamente ares de amarga derrota. Um comboio avariou
na linha entre Nantes e Clisson; a circulação fica, portanto, paralisada e os
festivaleiros amontoam-se nos cais ao sol. Enquanto se espera pela retoma do
serviço, os mais sortudos conseguem instalar-se nos comboios parados com ar
condicionado. Os Deuses do Metal, porém, são clementes. Como se quisessem que
os seus fiéis adoradores se lhes juntassem o mais depressa possível, dá-se o
milagre da SNCF: as coisas voltam ao normal por volta das 16h30 e a viagem pode
terminar. O atraso acumulado ter-me-á, contudo, feito perder definitivamente
qualquer possibilidade de passar pelo Off do Hellfest, organizado
no parque do célebre Leclerc, e de ver um pedacinho do set dos Monolyth...
esperando que seja apenas um adiamento.
À chegada, a estação de Clisson vestiu o traje do Hellfest
e exibe, desafiadora, os chifres diabólicos que já lhe conhecemos. Ao caminhar
até ao castelo, a cidade e as lojas tingiram-se de verde, à imagem da direção
artística deste ano. Desde esta manhã, a mochila está cada vez mais pesada; por
isso, paragem em casa de quem me acolhe para deixar tudo isto e abrir a
primeira bem fresca que já estava à minha espera.
O tempo está falsamente encoberto e o calor já se faz
sentir; as instruções repetidas em caso de canícula há já vários dias fazem
todo o sentido. Proteção e hidratação serão as palavras de ordem desta edição,
que se anuncia pelo menos tão quente como a do ano passado e lembra a temida
edição do primeiro fim de semana duplo de 2022. Por agora, já passa largamente
da hora de ir buscar a pulseira ao recinto do festival.
Depois da rotunda da guitarra, é impossível não reparar
na primeira mudança deste ano. Uma imensa estátua de Ozzy Osbourne
ergue-se à entrada e parece querer acolher os festivaleiros nas suas duas mãos
maciças. Impressiona pelo tamanho e faz parte das festividades em homenagem ao
Príncipe das Trevas, a quem o Hellfest prestará tributo já no dia
seguinte.
Passados os controlos e carregado o chip cashless,
reencontro na Hellcity os primeiros rostos conhecidos. Os parisienses
com quem me cruzo em concertos ao longo do ano, mas também aqueles que só vejo
uma vez por ano durante esta bolha fora do espaço e do tempo. A qualidade da
programação conta, claro, mas quando é partilhada todos os anos com
companheiros de batalha, é a garantia de passar ali os melhores momentos.
A Hellstage já está a tocar, sob o olhar
escrutinador da Guardiã das Trevas, que a observa serenamente, e a satisfação
de voltar a pisar esta terra santa do metal arranca-me largos sorrisos.
Antes de seguir para o espaço do Metal Corner, começo por uma pequena
volta ao Extrême Market. Aberto até tarde na noite logo a partir de
quarta-feira, oferece aos mais previdentes a possibilidade de despachar a parte
das compras, para ficarem descansados durante o resto do festival. Enfim,
quase, mas isso veremos amanhã; fiquem atentos.
O Extrême Market reúne todas as bancas habituais
das grandes marcas que têm nome firmado na comunidade metal.
Encontram-se ali tanto discos, patches, roupa, artesanato e joias como
cartazes... todo o arsenal para completar o visual ou cultivar a atitude de fã,
ao mesmo tempo que se cava o défice da conta bancária, claro está. Sob estas
duas tendas reina uma temperatura próxima da de um antro demoníaco. Nada de ar,
ou então apenas o ar já quente agitado por algumas ventoinhas aqui e ali, que
alguns tiveram a precaução de trazer para as suas bancas. Convém saber bastante
depressa o que se quer, sob pena de nos liquefazermos numa poça instantânea de
suor. Nos seus planos, o Hellfest tem o projeto de transformar o espaço,
substituindo as tendas por uma estrutura permanente, utilizável de forma
duradoura ao longo de todo o ano. Com o calor atual, deseja-se que o projeto se
concretize o mais rapidamente possível.
Entre os festivaleiros já chegados e instalados desde a
manhã e o fluxo contínuo dos que desembarcam e finalmente chegam ao seu porto
de abrigo, o Metal Corner já está bem animado. Como na Hellcity,
os presentes estão felizes por se reverem e sentam-se em grupos para brindar ou
comer, planeando já os dias que aí vêm. O primeiro encontro incontornável da
noite está marcado na Purple House. Os tipos de Violence, que eu
tinha descoberto no Empreinte, estarão na jaula às 22h10 para um set
que prometem completamente louco. Contam também com a presença do máximo de
gente possível para desencadear um caos absoluto e filmar excertos com os
telemóveis. A atuação e esses vídeos do público serão posteriormente integrados
num videoclipe que se quer memorável. A mensagem, divulgada no Instagram,
passou manifestamente muito bem, porque o acesso à tenda tem de ser filtrado
por falta de espaço suficiente à volta da jaula para acolher todos os
motivados! O set é dantesco e a loucura palpável, um soltar de amarras
total como arranque numa atmosfera já ao rubro. O tom está dado: ninguém veio
para fingir!
O frenesim também não abranda à saída, porque Flymeon
assumiu o comando para virar o Metal Corner do avesso. A sua prestação hard
techno é furiosa, mordaz; ele esmaga os clássicos, acompanhado na sua
empreitada de demolição por Sofia, a cantora dos No Terror In The
Bang, que tinha tocado à tarde na Hellstage.
A mistura é mesmo eficaz e, não fosse a fadiga acumulada
e a noite anterior demasiado curta, a noite podia ter continuado. Fazer o Hellfest
é também aprender a não queimar as asas demasiado depressa, com demasiada
força, demasiado cedo; por isso, regresso ao quartel-general para recarregar
baterias e poder enfrentar a quinta-feira com a energia necessária. Boa noite,
Clisson; a Catedral vela ao longe; as coisas sérias não tardam a começar...
Reportagem
a cargo de Matthieu Chatenay
















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