Hellfest 2026 - Dia 2: quinta-feira, 18 de junho
A noite, quente, mas suportável com as janelas escancaradas, soube bem.
Sim, nestas condições, dormir em casa de habitantes locais é um luxo bem-vindo.
Embora se fique inevitavelmente afastado do ambiente tão particular do
campismo, ganha-se claramente em qualidade de sono e é também uma boa
oportunidade para poder deambular pelas ruas de Clisson e aproveitar a cidade.
O nível das baterias subiu significativamente e, graças a um bom café
acompanhado de um pão de chocolate comprado na padaria a caminho do festival,
está dado o arranque para esta quinta-feira.
Os concertos só começam às 16h, durante a tarde, e o acesso à zona
principal dos palcos permanece, por isso, logicamente fechado a cadeado por
enquanto. Oficialmente, as portas da Catedral devem entreabrir-se às 14h. Isso,
no entanto, não impede os festivaleiros de passearem pela Hellcity ou pelo
Metal Corner enquanto esperam. Um pouco como na véspera à noite, sente-se no
local aquele frenesim palpável, aquela excitação que vai crescendo devagar à
medida que os minutos passam. À imagem desta Brigada de Intervenção Tática um
pouco especial, que vem fazer concorrência à dos Salvadores no Mar.
Para ocupar a cabeça, alguns levantaram-se cedo para estarem entre os
primeiros a conseguir uma vaga e fazer uma tatuagem. O stand, grande
atração da City, é uma verdadeira fábrica de tinta em cadeia. Reúne um grande
número de bons tatuadores habituados, especialistas nas condições atípicas de
uma prestação destas em contexto de festival e nos cuidados a aplicar. Seja
para assinalar o momento e recordar para toda a vida a primeira viagem a estas
terras do metal, seja para aumentar uma coleção já bem avançada de
desenhos na pele, é proposto a todos um vasto leque de flashes. Os mais simples
declinam o famoso logótipo em forma de machado em todas as combinações e
variações possíveis; outros, mais elaborados, inspiram-se no tema de terror
desta edição de 2026. Este ano passo a minha vez, mas ver a fila de espera a
crescer reaviva em mim as boas memórias do duplo fim de semana: a marca com o H
continua gravada na minha barriga da perna esquerda desde então.
Ao acaso dos encontros, dou de caras com um grupo de campistas, todos
envergando a mesma t-shirt. Pelo vestuário muito gráfico, manifestam a
sua forte oposição à hipotética deslocação do parque de campismo. O assunto
agita as redes sociais desde a publicação, no fim de março, de um artigo no
diário Ouest France, que dava conta de rumores persistentes sobre uma
reorganização profunda do recinto já no próximo ano. Entre as novas disposições
previstas, o jornalista relata que o campismo atual, localizado nas imediações
do Metal Corner, seria transferido para vários quilómetros do seu local atual.
Para muitos, isso causaria grandes complicações no encaminhamento das pessoas,
tanto à ida como ao regresso, além de uma perda considerável daquilo que
constitui a alma do festival. Foi, aliás, lançada uma petição para reunir as
vozes dos opositores, e não é raro encontrar aqui e ali um autocolante colado
de forma selvagem que remete para essa página de assinatura online. Por
agora, nada é certo nesta fase; será preciso aguardar os anúncios da Direção. É
hábito encerrar o festival com uma salva de notícias divulgadas ao domingo, que
permitem ver mais claramente as orientações tomadas para os próximos anos.
Quando eu dizia no meu relato de ontem que a quarta-feira tinha sido
dedicada às compras, isso, claro, ainda é possível nesta quinta-feira de manhã
sob as tendas do Extrême Market. Só que faltam as t-shirts e os goodies
oficiais com a chancela Hellfest 2026. Destacados algumas semanas antes na
aplicação do festival e na internet, todos estes objetos só são vendidos
no interior da zona principal, no Sanctuary. Este templo imenso veio substituir
os múltiplos stands que antes vendiam estes artigos tão procurados. São
ainda mais cobiçados por não serem reeditados nem revendidos depois do festival
em nenhum site, como por vezes aconteceu anteriormente. Se a criação
desta loja gigantesca suscitara inicialmente um vivo interesse, ela sofre de um
defeito maior e bem conhecido: longe de tornar o recinto mais fluido, o
Sanctuary provoca, na realidade, filas intermináveis e sem fim, serpenteando
desde os degraus até se perderem de vista pelos relvados em frente ao Altar e à
Temple. Para os menos rápidos a posicionar-se, não é raro ter de esperar mais
de 4h pela sua vez antes de conseguir o que se quer, esperando ainda assim que
reste stock e/ou o tamanho certo. Tempo passado a marcar passo, em
detrimento, tendo em conta a duração da espera, dos concertos que entretanto
começam. Outro problema, e nada pequeno nas condições deste fim de semana, é a
ausência do mais pequeno recanto de sombra ou de árvore que permita abrigar-se
durante esta travessia do deserto. Também não nos alongaremos sobre a ausência
de click and collect, com que muitos sonham desde que puderam
experimentar e apreciar a implementação de um dispositivo desse tipo noutros
festivais europeus de calibre comparável.
No fim de contas, há, portanto, dois tipos de público que escolhem
conscientemente aglomerar-se de manhã em frente às grades da Catedral. Uns
querem absolutamente garantir um lugar de eleição na barreira do seu palco
fetiche. Os outros precipitar-se-ão com igual rapidez para o Sanctuary, a fim
de se livrarem dessa tarefa ingrata no menor prazo possível. O objetivo: sair
desse atoleiro antes do arranque do primeiro concerto. Pessoalmente, resigno-me
a escolher esta segunda opção, pois as 4h30 perdidas em 2025 levaram-me a
tentar fazer melhor este ano.
Contudo, não será necessário esperar pelas 14h. A Catedral abre-se de par
em par com 1h de avanço sobre o planeamento. Seguindo a multidão, a olho, o meu
lugar na fila não é assim tão mau. Ainda não sei, mas terei “apenas” 2h30 de
espera até chegar ao balcão e ser atendido. Embora se faça com boa disposição,
entre companheiros de fila e de desgraça que partilham o mesmo destino com
humor, a fila parece interminável e a cozedura sob UV não é suave. São 15h45
quando a missão termina com a entrega do meu saco de compras bem cheio.
Impossibilitado de fazer a ida e volta para deixar as minhas compras em casa ou no campismo, sigo então diretamente para a Mainstage 1 com toda a minha tralha, para ali reencontrar os americanos We Came As Romans.
A escolha foi complicada porque me disseram maravilhas dos Truckfighters,
que tocam ao mesmo tempo na Valley. Escolher é renunciar, tinha-me avisado um
amigo que, esse sim, estará bem presente para os suecos. Fazendo das tripas
coração, prometo a mim mesmo não falhar a sua próxima passagem por Paris.
Saborear o seu stoner numa sala acolhedora, em vez de num palco aberto,
terá provavelmente um sabor particular.
Já por várias vezes me cruzei com o bando de Dave Stephens, e em
cada ocasião o seu metalcore dá-me um enorme gozo. Adoro a voz deste frontman
carismático, que destila um feel-good ultracontagiante. Fico sobretudo
deslumbrado com a energia bruta que Andrew Glass liberta no baixo. É
sistemático: em cada concerto ele faz-me o mesmo número. Adorável fora do
palco, este tipo fica simplesmente possuído em palco; não há outras palavras.
Verdadeira pilha elétrica, esvoaça, agita-se em todos os sentidos como uma fera
e maltrata o instrumento em todas as posições, sujeitando-o a acrobacias
impossíveis. O próximo que me disser que um baixista não serve para nada, mesmo
a brincar, mando-o fazer um estágio com o Andy. É um verdadeiro regalo para os
olhos e para os ouvidos. Por não os ter visto em 2014, no seu primeiríssimo
Hellfest, só pude assistir aos três concertos sucessivos no Trabendo, em Paris,
onde atuaram, numa pequena sala com 900 pessoas no máximo. Acontece que, à luz
do dia e no maior palco do festival, o seu set é igualmente excelente e
de uma bela maturidade. Para uma abertura, é simplesmente perfeito, e o
ambiente no pit logo a partir do segundo tema comprova-o: a receita
funciona e pegou muito bem.
Na Mainstage 1 decorre a mudança de palco enquanto a Mainstage 2 desperta
por sua vez.
Mikkey Dee e os seus
amigos vieram fazer ressoar a alma de Motörhead. Decido ficar no meu
lugar porque estou ao mesmo tempo bem posicionado para acompanhar a prestação
graças aos grandes ecrãs que ladeiam os palcos, e numa posição ideal para
descobrir The Plot In You, que tocarão logo a seguir.
Ao longo dos temas, sente-se todo o respeito e a amizade que ligavam os
três rapazes entre si e, sobretudo, o quanto a ausência dos desaparecidos
deixou um grande vazio. O tempo pode ter tornado os cabelos de Mikkey mais
grisalhos, mas a sua garra continua a ser a mais bela prova de homenagem que
pode prestar aos seus saudosos companheiros de estrada, Lemmy e Phill. Ainda
assim, lamenta-se que aqueles à minha volta, sobre cujo berço outras fadas se
terão debruçado, e manifestamente mais atraídos por Oli Sykes, que
tocará à noite, nem sequer tenham reconhecido o baterista dos Scorpions
atrás da bateria... Ó raiva! Ó desespero! Ó velhice inimiga! Terei eu vivido
tanto apenas para esta infâmia?
Regressa a atividade no palco da Mainstage 2. Os preparativos estão
concluídos e o campo fica livre para The Plot In You. Por
incompatibilidade de agenda, não pude ir ao Bataclan a 10 de novembro de 2025,
a última passagem dos americanos por França antes deste Hellfest. Partilharam
aí o cartaz com Currents, outro grupo que pesa bastante no universo do metalcore
tão apreciado atualmente. Os amigos que estiveram presentes tinham saboreado
bem a coisa, em todos os sentidos do termo, e chegou a hora de verificar isso
por mim mesmo. O público torna-se cada vez mais numeroso, mas não nos
enganemos: está sobretudo ali para se posicionar para Bring Me The Horizon.
Ainda assim, responde de novo muito favoravelmente às injunções de um Landon
Tewers calorosamente aclamado. Ele está bem decidido a explorar o grande
palco que lhe foi posto à disposição. Nada impressionado com a dimensão,
desenrola um set brutal e clínico, que dói a sério. O pit leva
pancada forte, apesar do calor, e toda a coreografia de uma fossa em fusão é
revista. Se não é certo que o cantor tenha conseguido os 10 milhões de slammers
pedidos, pelo menos conseguiu ver gigantes quando vários começaram a pôr
amigos/amigas aos ombros. Os momentos calmos são reduzidos ao mínimo e Feel
Nothing vem já encerrar a prestação. O grupo decidira claramente não perder
tempo nem usar pinças. Se queria encher os olhos ao público neste primeiro
Hellfest, o resultado foi amplamente alcançado, com honras e felicitações do
júri!
Volto a ficar na Mainstage 1, pois aproximam-se aqueles que eu não perderia por nada neste mundo nesta quinta-feira: Breaking Benjamin. No imediato, porém, terei de suportar uma (nova) dose de The Pretty Reckless. Suportar ou sofrer, ainda hesito, para dizer a verdade, porque o meu primeiro encontro com Taylor Momsen não tinha sido uma grande alegria. Na primeira parte de AC/DC, durante a recente digressão Power Up, não me agarrou de todo. A voz dela não me toca, acho as suas numerosas interações com o público sempre demasiado forçadas e maneiristas; enfim, não sou de todo levado por aquilo que propõe, de que só retenho um solo de guitarra demasiado longo. Felizmente, nos ecrãs, o seu público parece muito mais a fundo do que eu (e isso, afinal, é o essencial). Ela termina o set destacando a saída do seu próximo álbum. Há pouca probabilidade de ele encontrar lugar na minha coleção de discos.
Aproveito o curto interlúdio para negociar o lugar na barreira com a fã de Bring
Me The Horizon à minha frente. Ela aceita e, prometido-jurado,
recuperá-lo-á assim que o concerto de Breaking Benjamin terminar. Está a
preparar-se ali um momento raro, que digo eu, histórico? Embora ande muito
frequentemente em digressão pelos seus Estados Unidos de origem, Ben Burnley
não punha os pés no Velho Continente desde... 2017! E, na altura, a França não
recebeu as honras da sua visita. Nove longos anos sem nos vermos, uma
eternidade. A razão é, no entanto, conhecida há muito e a capa do álbum
conceptual de nome tão adequado, Phobia, ilustra-a perfeitamente. Ben
tem - entre outras - fobia de avião, o que o impede de vir tocar deste lado do
oceano... a menos que apanhe o barco. É mais demorado, claro, mas funciona. O
anúncio de uma digressão em salas, passando FINALMENTE por França este verão, e
a participação do grupo em vários festivais foram assim vividos como um
renascimento. Ben tem plena consciência disso. Rapidamente agradece aos que
continuaram a apoiá-los durante a sua ausência e dá as boas-vindas às caras
novas. A saída dos singles Awaken e Something Wicked teve
claramente um papel, recolocando o grupo sob os holofotes. A voz está lá,
assente, e apesar de um arranque que me dá uppercut atrás de uppercut
(I Will Not Bow, Until The End, Blow Me Away, So Cold),
sinto Ben contido. A menos que seja aquela ponta de timidez de quem não quer
impor-se. À medida que o concerto avança, ele ganha confiança e passa a ocupar
a frente do palco, ganhando toda a sua espessura. O público acolhe-o de braços
abertos e acompanha em força: fãs antigos e novos cantam por todo o lado. Um
arrepio de prazer percorre a fossa quando confirma que o próximo álbum está
fechado e sairá em breve. 7.º? 8.º? Ben já nem tem muita certeza, mas o certo é
que ainda não acabámos de ouvir falar de Breaking Benjamin, nem de os
rever por estas latitudes. O set conclui-se com um Diary Of Jane
que reúne toda a gente, como uma evidência. O Bataclan de 7 de julho ainda está
a algumas semanas, mas que vontade de lá estar!
Depois de devolver o seu lugar bem merecido à minha simpática vizinha de barreira, deixo finalmente a Mainstage 1 com um sorriso imenso. É hora de um primeiro reabastecimento lupulado, bem necessário para recuperar de todas estas emoções. Deixo Deep Purple tomar conta da Mainstage 2 atrás de mim, Lagwagon encarrega-se de desmontar a Warzone, enquanto na Temple é Borknagar que brinda um Fetus dos Ultra Vomit que veio ouvi-los. É precisamente para esse último palco que os meus pés me conduzem, pois logo a seguir será a vez de The Halo Effect subir ao Altar.
Seja com Dark Tranquillity, Grand Cadaver ou Cemetery
Skyline, é simples: nunca há Mikael Stanne a mais na vida de uma
pessoa. Quanto mais nos cruzamos com o rapaz, mais a premissa se confirma,
invariavelmente. Tudo o que toca transforma-se em pérola e The Halo Effect
não escapa a esta regra. Cada noite na sua companhia se transformou numa
experiência musical total, com o cantor a irradiar tudo à sua passagem com o
seu sorriso devastador e essa alegria ultracontagiante. Logo à entrada com March
Of The Unheard, Mikael irradia e incendeia o Altar. A sala exulta e, a este
ritmo, o teto da tenda ainda salta antes mesmo de Detonate ser tocada!
Com aquele ar divertido e aquela impressão de não querer acreditar no que se
passa diante dos seus próprios olhos, o cantor sabe que beneficia de uma bela
quota de amor em França e joga com isso. Leva o grupo para um set onde o
caos organizado reina soberano. É bestial, de uma beleza assustadora, de uma
eficácia temível. A armadilha preparada para este Hellfest 2026 fechou-se sem
darmos por isso. E pensar que eles voltarão para nos dar uma nova chapada em
fevereiro de 2027... apostamos quanto que vamos cair outra vez, e ainda por
cima com todo o prazer?
À saída, Papa Roach está quase a terminar na Mainstage 1, enquanto All Time Low começa a abanar muito forte a Warzone. Os breves instantes passados diante deles dão muita vontade de explorar o assunto mais a fundo. É sedutor ao ouvido e o pit parece mesmo estar a divertir-se. Deixo, no entanto, a luta nas minhas costas para me dirigir para a Valley. São 23h; aproveito para petiscar qualquer coisa a fim de aguentar até ao fim da noite; ainda restam belas horas de música ao vivo para viver. À minha frente, Kadavar está a instalar-se em palco e os três alemães tratam dos testes de som. O nível é tão forte que até esses momentos desencadeiam o entusiasmo manifesto dos meus vizinhos de relvado. Entre dois silêncios, ouve-se Alice Cooper a tocar Smells Like Teen Spirit dos Nirvana ao longe, na Mainstage 2.
Às 23h30, momento irreal: o céu ilumina-se de repente com um
fogo-de-artifício monstruoso! Inserido no planeamento do dia (e um pouco
esquecido, há que admiti-lo), trata-se da homenagem organizada pelo Hellfest a Ozzy
Osbourne. A surpresa é por isso ainda mais bela. Assume a forma de um filme
retrospetivo difundido nos ecrãs das duas Mainstages, conjugado com aquilo que
penso sinceramente ser a mais intensa utilização de pólvora que alguma vez me
foi dado ver. Durante 15 minutos, o tempo fica suspenso, antes de a apoteose
final iluminar o recinto do festival como se fosse pleno dia. Impressionante!
Impossível que o Prince Of Darkness não tenha visto isto desde a sua
última morada.
Pelo seu lado, Kadavar escolheu uma cenografia bem menos
espalhafatosa, mas também diabolicamente eficaz. Algumas luzes, muito fumo,
para um set todo em sombras chinesas. Daí resulta uma atmosfera
delicadamente envolvente, que quase faria esquecer que a Valley já não é uma
tenda, mas um palco aberto desde a sua deslocação. A minha história com os
berlinenses remonta, aliás, à dupla edição de 2022. Chovia a cântaros no fim
desse segundo fim de semana; por isso, em vez de ir encharcar-me diante de uns Guns
N'Roses dececionantes na Mainstage, tinha escolhido abrigar-me na Valley.
Não só estava seco, como tinha passado ali um dos meus melhores concertos de
sempre. Com um grupo que ainda só conhecia de nome poucos minutos antes. A
oportunidade de os rever e de passar de novo uma hora com eles não se recusa. 4
anos depois, é forçoso constatar que continua a funcionar igualmente bem
comigo. Fico completamente absorvido; de um Doomsday Machine espantoso a
um Die Baby Die de grande classe, o transe é total. Ao ponto de não
perceber logo que já estamos no bis. Restam então duas canções para tocar:
durarão 24 minutos ao todo... que gozo!
A descida e o regresso à realidade são duros, mas ainda há um concerto que quero ver antes de terminar este primeiro dia. E não, ao contrário do que os meus amigos suspeitavam, não vou satisfazer o meu apetite por Bring Me The Horizon. Aliás, ouve-se Oli lançar as primeiras palavras de Can You Feel My Heart? quando atravesso o relvado a passo de corrida para chegar à Temple.
Tenho encontro marcado com outros alemães, mais coloridos e nitidamente mais maluquinhos: Feuerschwanz.
De videoclipes tresloucados a singles carregados de convidados,
acabei por vê-los em carne, osso e armaduras garridas no Trabendo, no fim de
2024, antes de repetir a dose em março deste ano no Elysée Montmartre. Essas
duas datas parisienses convenceram-me de pelo menos uma coisa: sob um lore
sem complicações e piadas mais ou menos finas, esta banda de alegres doidos é
capaz de transformar qualquer sala em Knightclub, com opção de martelo
de Odin de espelhos incluída. Frescos, estupidamente bons, mas nunca vulgares,
fazem lembrar o melhor de Ultra Vomit e de Nanowar Of Steel,
reunidos sob a bandeira de um reino onde a loucura alegre há muito destronou a
razão. Aliás, poderia ser de outra forma para um grupo cujo nome se traduz
literalmente por Fire Dick ou Pila de Fogo, e que é capaz de encaixar na setlist
versões supervitaminadas de Dragostea Din Tei e Gangnam Style? É,
mais uma vez, um sucesso total; o núcleo duro de fãs cresce a cada novo
concerto e assegura uma atmosfera indescritível. É 1h25 quando a tenda vira
definitivamente discoteca. Não haverá qualquer tempo morto até ao encerramento
às 2h da manhã.
O dia termina nesta nota colorida. E enquanto, ao longe, Alestorm e
os seus piratas encheram os seus patos insufláveis na Mainstage 1, vou
regressando devagar. Ouço que estão bem decididos a beber a minha cerveja!? Nem
pensar, seus marinheiros de água doce, esta noite não: a minha espera-me no
frigorífico, bem fresca!
Reportagem a cargo de Matthieu
Chatenay















































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