Review: Cairn (PARALLEL MINDS)

 

Cairn (PARALLEL MINDS)

Independente

Lançamento: 10/março/2026

 

Quatro anos depois de Echoes From Afar, os franceses Parallel Minds regressam com Cairn, o quarto álbum de uma carreira iniciada em 2013 e construída sem pressas. A banda nunca demonstrou interesse em alimentar o ritmo frenético de lançamentos que domina a indústria. Pelo contrário, encara cada disco como uma obra de arte, minuciosamente concebida, onde composição, conceito, produção e identidade visual formam um todo coerente. Cairn confirma essa filosofia e leva-a ainda mais longe. O cairn, montículo de pedras deixado pelos viajantes como memória e orientação, serve de metáfora para uma viagem pela condição humana, abordando episódios históricos marcados pela dor coletiva, pelo desenraizamento e pela sobrevivência. Cada tema acrescenta uma nova perspetiva a esse percurso: das espiritualidades africanas dos orixás à tragédia industrial de Bhopal, na Índia; da deportação forçada dos povos nativos norte-americanos no processo que ficou conhecido como Trail Of Tears às guerras feudais japonesas culminadas em Sekigahara; do conflito da Irlanda do Norte às comunidades deslocadas da América do Sul, passando ainda pela polarização que alimenta o conflito no Médio Oriente e por uma visão da sociedade contemporânea onde o medo se tornou uma pandemia global. Cada um destes episódios encontra um equivalente musical cuidadosamente construído. As atmosferas tribais, os coros polifónicos, os apontamentos de inspiração oriental e a alternância entre momentos de maior agressividade e de contemplação tornam-se parte integrante da narrativa, traduzindo em som o contexto cultural e emocional de cada capítulo. O rigor do trabalho chega a ser tal que há trechos da própria letra cantados nas línguas nativas. Magnifico! Para além do conceito, importa destacar que o prog metal praticado pelos Parallel Minds pouco tem a ver com o virtuosismo exibicionista que tantas vezes carateriza o género. Aqui, a complexidade nasce da arquitetura das canções, da riqueza dos arranjos e da forma como cada motivo reaparece transformado, criando uma narrativa musical em permanente evolução. Orishas é talvez o exemplo mais evidente: começa num ambiente ritualístico, sustentado por vozes tribais e polifónicas, evolui para um prog moderno que chega a tocar o death metal e fecha um círculo perfeito quando o solo recupera a melodia apresentada pelos coros iniciais. Apesar de importante, o aspeto mais marcante de Cairn não é propriamente a introdução de influências étnicas, tribais e folk, já presentes nos trabalhos anteriores, mas sim a forma como estas assumem agora um papel central na identidade do álbum. Se bandas como Sepultura, Angra, Myrath ou Orphaned Land encontraram uma voz própria através da incorporação de elementos culturais e tradicionais, os Parallel Minds aprofundam esse caminho com uma convicção renovada. O recurso a instrumentos pouco habituais no metal, como a cítara, integra-se de forma natural na já referida teia de arranjos, onde os coros polifónicos, os cânticos tribais e as atmosferas ritualísticas ganham um protagonismo inédito. Apesar da diversidade de influências e abordagens, o álbum mantém uma notável coerência interna, demonstrando que a banda consegue acrescentar novos elementos ao seu vocabulário musical, expandindo de forma orgânica uma linguagem que vem desenvolvendo há mais de uma década. Tudo isto faz de Cairn um poderoso manifesto da forma como o prog metal contemporâneo pode evoluir: menos preocupado em exibir virtuosismo e mais interessado em explorar a composição, a narrativa e a emoção como verdadeiros motores da criação artística. [90%]

 

Highlights

Orishas, Trail Of Tears, Sufero, On Both Sides, Troubles, Colonias

 

Tracklist

1.      Cairn

2.      Sufero

3.      Orishas

4.      Bhopal

5.      Trail Of Tears

6.      Sekigahara

7.      Troubles

8.      Colonias

9.      On Both Sides

10.  Fear Is The Epidemic

 

Line-up

Greg Giraudo – guitarras, backing vocals, vocais (9)

Steph Fradet – vocais

Eric Mannella – bateria, backing vocals

Fabien Peugeot – baixo

 

Convidados

Johann Cadot – backing vocals (1, 2)

Lulu – backing vocals (1, 2)

Sebastien Ravel – backing vocals (3, 5, 6, 7)

Rock – discurso (3)

Da Silveira – vocais (3)

Lakoélé Atalawoé – vocais (3)

Mathieu Gehin – cítara (4)

Mathieu Gehin – canto indiano (5)

Aileen Fradet – vocais (8)

Gabriel Fradet – coro infantil (8)

DevF – vocais (10)

 

Internet

Website   

Facebook   

Youtube   

Bandcamp   

Comentários

DISCO DA SEMANA VN2000 #26/2026: A Bela Paranoia (BELA NOIA) (Independente)

GRUPO DO MÊS VN2000 #06/2026: HOURSWILL (Ethereal Sound Works)

MÚSICA DA SEMANA VN2000 #27/2026: Orishas (PARALLEL MINDS) (Independente)