Nem
sempre é preciso passar anos à procura de uma identidade. Os Half Naked Souls
encontraram-na logo nas primeiras músicas que Isabel Dentinho e Nuno Romero
construíram em conjunto, dando origem ao primeiro registo homónimo. Este álbum
de estreia revela uma banda que prefere criar o seu próprio universo em vez de
seguir fórmulas já conhecidas. Fomos descobrir como nasceu este projeto, o que
está por detrás das suas canções e que caminhos pretendem explorar daqui para a
frente.
Olá! Antes de mais,
obrigado pela disponibilidade para esta entrevista. Para começar, como nasceu a
ideia de formar os Half Naked Souls e em que momento perceberam que este
projeto tinha identidade suficiente para seguir um caminho próprio?
ISABEL DENTINHO (ID): Nós é que agradecemos. Eu e o Nuno já nos conhecíamos
há algum tempo e numa altura em que o Nuno estava a juntar gente, convidou-me
também para esse projecto, todo ele já concluído e bem encaminhado. Nessa
altura dei a conhecer algumas letras minhas ao Nuno, que ele achou incríveis.
Dias depois enviou-me uma música já composta, para uma das letras. Por
curiosidade, foi o primeiro single do álbum, Where Rivers Are Born.
NUNO ROMERO (NR): Depois de compor a primeira música, fiquei com uma
mão cheia de letras que a Isabel me enviou. As letras eram incríveis, o que
rapidamente me levou a compor músicas para elas. Entretanto, conforme me iam
chegando mais letras as músicas foram aparecendo. Ao fim de pouco tempo tínhamos
dez músicas. Fomos para o estúdio e gravámos todas as vozes. Foi um processo
bastante rápido e enriquecedor.
ID: A partir daí, tínhamos vontade de mostrar as músicas às pessoas e de as
tocarmos ao vivo, convidámos músicos amigos para se juntarem a nós e levarmos o
projecto para a estrada. Estava criada a ideia de levarmos Half Naked Souls
para a frente.
Tendo vários elementos com
experiência em bandas como Stone of Patience, Critical Hazard, Legacy of Payne,
Lumear ou Heaven Metal, que contributos dessas vivências foram importantes para
moldar a sonoridade dos Half Naked Souls?
NR: Todas as músicas estavam já feitas quando convidámos a malta.
Convidámos primeiro o Ivo, que é nosso parceiro numa banda, depois apareceu o
Pedro e por último o Rômulo. Não houve diretamente uma influência das outras
bandas ou dos outros membros em Half Naked Souls, apesar de eu ter uma
forte participação na composição em quase todas as quais participo; fui sempre
explorando outros “terrenos”. Também as letras da Isabel eram totalmente
diferentes de todas as outras bandas, bem como o conceito. Depois da primeira
música, assumimos que as composições teriam que ser teatrais para acompanharem
as letras, ricas em diálogos e em cenários.
ID: As letras que escrevi eram também de um imaginário diferente de todas
as bandas em que tocamos. Requeria uma forma diferente de interpretar. Logo não
tivemos em conta a fórmula de composição de qualquer das bandas anteriores.
O nome Half Naked Souls
desperta curiosidade. Qual é o seu significado e de que forma reflete a
filosofia da banda?
ID: Num mundo em que o feio e a insensibilidade se impõem, as letras de Half
Naked Souls enaltecem uma sensibilidade que se torna cada vez mais
necessária. O nome reflete o que as letras transmitem: o combate à
insensibilidade, cada vez mais existente, através de sensações muito humanas e
reais, em analogias criativas e cenários de fantasia. No fundo, a filosofia da banda é transmitir a
beleza da vulnerabilidade da alma.
Como decorreu o
processo de escrita deste álbum? Existia uma visão prévia do resultado final ou
os temas foram evoluindo de forma orgânica?
ID: Imensamente orgânico. Apesar de os temas falarem de coisas que poderão
estar ligadas, tudo foi feito sem pensar muito numa linha condutora ou num
resultado final específico, mas na magia do processo.
NR: Olha, a Isabel é uma máquina… (risos)… as letras apareciam de todo o
lado… (risos) e apesar de dar uma vista de olhos pelas letras e tentar compor
de forma teatral, a Isabel dava diretrizes muito objectivas no que queria para
algumas partes. Depois, a magia deu-se quando fomos para o estúdio e as vozes
começaram a aparecer, no meio daquele “caos”, tornando tudo muito claro e,
permitam-me a expressão, elegante.
As composições do álbum
apresentam uma sonoridade muito densa, assente em afinações graves e riffs compactos.
Essa abordagem foi uma decisão consciente desde o início ou surgiu naturalmente
durante a composição?
ID: Também muito naturalmente. Estamos habituados a tocar neste tipo de
afinação e sentimo-nos muito confortáveis nela. Assim que o Nuno me apresentou
os primeiros temas, decidimos logo seguir esse caminho.
NR: Nós adoramos uma guitarra grave… (risos) e teria que ser “pesada” e
densa em algumas músicas. O álbum tem muitos ambientes. Partes agressivas,
melodias orelhudas e partes clean para dar toda a atmosfera teatral que queríamos
para o disco. Juntar partes agressivas com harmonias foi sempre a nossa
intenção e era o que queríamos para o álbum, e ficámos muito contentes com o
resultado.
A voz de Isabel
Dentinho cria um contraste interessante com o peso instrumental. De que forma
trabalharam esse equilíbrio entre melodia, emoção e agressividade?
ID: Todas as melodias de voz foram interpretadas de maneira a transmitir o
que se pretendia narrar. Tive o cuidado de trabalhar ao pormenor todas essas
partes, para coincidissem com as várias histórias: propositalmente graves, suaves, sombrias, ou
agudas e mais incisivas.
NR: A Isabel muitas vezes trata a linha vocal como um instrumento com o
qual interpreta melodias e harmonias. Seguindo esta metodologia, encaixou na
perfeição a sua voz suave nas partes agressivas. Tenho alguns episódios em estúdio em que a
Isabel chegava e gravava uma melodia e eu ficava a olhar a pensar “como é que
ela trouxe esta melodia para aqui?” Era muito engraçado... surpreendeu-me
algumas vezes... a capacidade vocal da Isabel é incrível.
ID: Também as partes vocais e distintas do Nuno, são um complemento
imensamente necessário e importante nos diálogos, ajudando a transmitir toda a
força das letras que escrevi.
Quais foram as
principais influências musicais e artísticas durante a composição deste
trabalho?
NR: Não me baseei em nenhuma referência musical para compor estas músicas.
Foi ler a letra, pegar na guitarra ou no piano… (risos)… pegar no piano não dá
muito jeito… (risos)… sentar-me ao piano e criar os ambientes certos. Claro que
todos nós ouvimos música durante toda a vida, e vai sempre ficando alguma
coisa. Provavelmente haverá na minha música coisas que se podem parecer com
algumas bandas, mas acho que isso aparece inconscientemente nas composições. Em
Half Naked Souls e desculpem... (risos)... é tudo muito Half Naked
Souls...
ID: Ouvimos muitas vezes dizerem que não encontram nada parecido. Já
compararam Nightwish, ou Delain, etc... No entanto, não tenho
pessoalmente essa opinião. Contudo,
agradeço e fico lisonjeada.
Sendo este um álbum de
estreia, quais foram os maiores desafios encontrados durante a gravação e
produção do disco?
NR: Olha, foi tudo muito pacífico e fluido. O nosso único desafio foi a
distância. Estamos longe geograficamente e todo o processo de composição foi
feito à distância. Mas graças à tecnologia nada disso foi impeditivo. Todo o processo
de gravação, mistura, masterização, distribuição e divulgação foi feito por
nós. Muito trabalho, mas muito compensador.
ID: Trabalhar com o Nuno é muito fácil. Desde que ele goste da ideia, o
complemento instrumental sai e conjuga-se muito facilmente. Poderia dizer que
somos uma boa equipa. Isso facilita tudo.
Agora que o álbum
chegou ao público, qual é a vossa expectativa para os Half Naked Souls? Este
trabalho representa um ponto de partida ou já antecipa a direcção que pretendem
seguir no futuro?
NR: A nossa expectativa em primeiro lugar é que toda a gente ouça o álbum. Modéstia
à parte e na minha opinião, tem muito bons temas para descobrir. Claro que
agora que está cá fora, e como somos gente que gosta de estar sempre a fazer música,
já pensamos no próximo...
ID: E as letras para um próximo também estão quase todas feitas, ou não
dissesse o Nuno que eu sou uma máquina!... (risos)
NR: Se vamos seguir na direção deste álbum? Não sabemos, apenas sabemos que
o mundo de Half Naked Souls não se esgota só neste álbum... haverá mais
locais neste mundo para descobrir e desfrutar... seguimos sempre à descoberta.
Como está a ser
preparada a ida para o palco para promover este álbum?
NR: Tivemos a nossa estreia no passado dia 16 de maio no Hollywood Spot
e outros concertos, com datas já agendadas, que se seguirão. Entretanto, é
ensaiar a sério. Sabemos que quem vai a concertos mais underground gosta
de descobrir coisas novas e diferentes e nós estamos empenhados em dar essa
experiência. Queremos que quem nos vá ver tenha uma experiência agradável e
recompensadora.
ID: Primeiramente, gostaríamos que as pessoas ouvissem o álbum com atenção.
Estamos conscientes de não ser um álbum de consumo rápido, mas sim um mundo com
muitos recantos a descobrir. Depois, sim, gostaremos imenso de poder partilhar
esse mundo com quem nos vier ver ao vivo.
Para terminar, obrigado
mais uma vez pelo vosso tempo. Querem deixar uma última mensagem aos leitores
do Via Nocturna 2000?
NR: Ora essa, temos todo o gosto em estar à conversa
contigo... a Via Nocturna tem um papel importantíssimo em divulgar e
apoiar todas as bandas que querem aparecer... por isso um agradecimento muito
especial a vocês... Para a malta que está a ler e que houve metal e que
também faz parte desta “tribo”, uma família a que tanto nos orgulha pertencer,
aproveitem, desfrutem e apoiem as bandas… temos uma cena incrível com bandas
cheias de talento… divirtam-se!!! Encontramo-nos por aí... num concerto de Half
Naked Souls...
ID: Gostaríamos de deixar o nosso agradecimento tanto à Via
Nocturna 2000 quanto a quem já conhece o álbum ou virá a fazê-lo no futuro.
Vamos ter muito gosto em partilhar o mundo de Half Naked Souls convosco.




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