Entrevista: Kactoslitos

 

Ao longo das últimas décadas, Lito Pedreira afirmou-se como baterista, compositor e produtor em projetos tão distintos como Amor Electro, Micro Audio Waves, Dazkarieh, Peace Revolution ou Piece of Cake. Com Kactoslitos, porém, o foco desloca-se para um território assumidamente pessoal, onde todas essas influências convergem numa identidade própria. Depois de uma série de singles e do EP Losers, Find The Gold surge como a obra mais ambiciosa do projeto até ao momento, juntando lado a lado composições originais e interpretações de temas que marcaram o percurso do seu autor. Um percurso preenchido por experiências marcantes que acabaram por encontrar o seu lugar em Kactoslitos.

 

Antes de mais, bem-vindo a Via Nocturna e parabéns pelo lançamento de Find The Gold. Que balanço fazes deste momento e do caminho que te trouxe até este novo capítulo do universo Kactoslitos?

Antes de mais, muito obrigado pelo convite. É um prazer estar no Via Nocturna. O lançamento de Find The Gold representa um momento muito especial para mim. Cada disco ou cada música é quase como fechar um ciclo e abrir outro, mas sinto que este disco resume, de forma muito honesta e direta, aquilo que tenho vindo a construir: uma identidade que cruza rock alternativo, eletrónica e diferentes influências musicais, sem medo de experimentar. O caminho até aqui foi feito de muita persistência, aprendizagem e vontade de criar algo genuíno. Ao longo dos últimos anos fui lançando músicas que refletem diferentes fases da minha vida e diferentes formas de olhar para o mundo. Find The Gold surge precisamente dessa procura — não tanto por um "tesouro" material, mas pela capacidade de encontrar valor nas experiências, nas pessoas e até nas dificuldades que enfrentamos. O balanço é muito positivo. Sinto que o projeto está cada vez mais sólido e coerente, e o feedback que tenho recebido mostra-me que as músicas conseguem criar ligação com quem as ouve. Isso acaba por ser o objetivo principal de Kactoslitos: provocar reflexão, despertar emoções e, de alguma forma, fazer companhia às pessoas através da música.

 

Depois dos singles lançados desde 2022 e do EP Losers, sentes que Find The Gold marca uma nova fase na identidade sonora e conceptual do projeto?

Sinto que Find The Gold representa um verdadeiro virar de página, tanto a nível pessoal como artístico. Era um disco que precisava ser feito e lançado para conseguir seguir em frente. De certa forma, marcou o fim de um ciclo e o início de outro. Foi um processo muito exigente, com vários desafios pelo caminho, tanto a nível criativo como emocional. Houve momentos em que as coisas não correram como esperava, mas nunca deixei de acreditar na visão que tinha para este álbum. Hoje olho para trás e sinto que todas essas dificuldades acabaram por fazer parte da identidade do disco. Em termos sonoros e conceptuais, acredito que Find The Gold consolida aquilo que tenho vindo a construir desde os primeiros singles e do EP Losers. Continua a existir a mistura de rock alternativo, eletrónica e outras influências, mas desta vez tudo surge de forma mais madura, mais coesa e mais consciente. É um álbum que representa melhor quem sou hoje, tanto como músico como pessoa.

 

O álbum combina composições originais com versões de temas bastante conhecidos. Como surgiu a ideia de juntar estas duas vertentes num mesmo trabalho?

A ideia surgiu de forma muito natural. As versões que incluí em Find The Gold são de músicas que considero intemporais, de artistas e bandas que me marcaram profundamente, como Nine Inch Nails e Radiohead. São temas que me acompanham há muitos anos e que, enquanto os ouvia, pensava muitas vezes: "Um dia gostava de os cantar e reinterpretar à minha maneira." Quando comecei a explorar ideias para o disco, acabei por me cruzar naturalmente com esses temas, e as versões começaram a surgir quase sem esforço. Pareceu-me que faziam parte do percurso deste álbum e que se encaixavam na sua identidade. Na música What A Wonderful World, tentei preservar o encanto e o significado original da canção. É uma reinterpretação de um clássico que faz parte da história da minha família há muitos anos. Existe uma ligação emocional muito profunda a este tema, porque acaba também por ser uma homenagem ao meu pai, que a cantava como ninguém.

 

Os Nine Inch Nails ocupam um lugar especial neste disco, estando representados por três interpretações diferentes. Que impacto teve a obra de Trent Reznor na tua formação enquanto músico e compositor?

Nine Inch Nails teve uma influência enorme na minha formação como músico e compositor. O Trent Reznor sempre me inspirou pela forma como consegue transformar emoções em música, misturando rock, eletrónica e sonoridades industriais de uma forma muito própria. Essa liberdade para experimentar e criar sem se prender a um único género influenciou-me bastante. Ter três temas dos Nine Inch Nails em Find The Gold é uma forma de homenagear um artista que marcou o meu percurso, reinterpretando as suas músicas com a identidade sonora do projeto.

 

Sendo um artista com um percurso fortemente ligado à bateria, como foi assumir novamente um papel tão central enquanto vocalista, compositor e produtor neste trabalho?

Não foi fácil e o desafio foi enorme. Durante muitos anos estive sobretudo ligado à bateria, por isso assumir um papel tão central como vocalista, compositor e produtor obrigou-me a sair completamente da minha zona de conforto. Foi um processo muito mais vulnerável, onde todas as inseguranças acabaram por aparecer. Tive de me voltar a conhecer, reencontrar novas formas de escrever, cantar e comunicar através da música.

 

Ao longo do disco encontramos um conjunto alargado de colaboradores, desde músicos convidados até diferentes vozes. Como foi gerir tantas participações?

Foi um processo muito natural. Sempre que sentia que uma música ainda precisava de qualquer coisa, desafiava amigos e músicos a trazerem ideias e a experimentarmos novas abordagens. Sem grandes preparações ou expectativas, acabavam muitas vezes por trazer exatamente aquilo que faltava. Cada participação acrescentou uma identidade e uma energia próprias, tornando-se uma peça importante para completar o puzzle de Find The Gold.

 

Tendo acumulado experiências em projetos tão diversos como Amor Electro, Micro Audio Waves, Dazkarieh, Peace Revolution ou Piece of Cake, sentes que os Kactoslitos funcionam como a síntese de todas essas vivências?

De certa forma, sim. Todas essas experiências foram importantes para o meu percurso e acabam por estar, de alguma maneira, refletidas em Kactoslitos. Trabalhar em projetos tão diferentes ensinou-me a olhar para a música de várias perspetivas, tanto a nível de composição como de abordagem em estúdio e ao vivo. Cada um desses contextos trouxe aprendizagens diferentes e ajudou-me a perceber melhor aquilo que quero fazer e também aquilo que não quero repetir. Em Kactoslitos acaba por ser um espaço onde todas essas vivências podem coexistir de forma mais livre e pessoal, sem estarem limitadas a um formato ou estética específica.

 

Ao longo da tua carreira tens desempenhado papéis de baterista, compositor, produtor e mentor de projetos. Atualmente, qual destes desafios te continua a motivar mais?

Todos esses papéis continuam a motivar-me, e vibram em mim especialmente quando chego ao final e tenho um tema concluído. É nesse momento que tudo faz sentido. No fundo, baterista, compositor, produtor ou mentor fazem todos parte do mesmo processo criativo. A maior dificuldade está em gerir o tempo e o espaço de cada função, porque a linha entre elas é muito ténue e, por vezes, tudo acontece ao mesmo tempo.

 

Em palco, Kactoslitos apresentam-se em formato de trio. Existem planos para levar Find The Gold para palco nos próximos meses e de que forma estas canções serão adaptadas ao contexto ao vivo?

Sim. Em palco, o projeto apresentam-se em formato de trio, e as músicas ganham uma abordagem mais enérgica e intensa. Mantemos a essência do disco, mas procuramos dar-lhes uma nova vida ao vivo, com uma maior interação e impacto junto do público. No próximo dia 17 de julho vamos apresentar Find The Gold no Liquidâmbar, em Coimbra. Convido todos a acompanharem as nossas redes sociais, porque em breve iremos anunciar mais datas de concertos.

 

Para terminar, obrigado pelo teu tempo. Há alguma mensagem que gostasses de deixar aos leitores do Via Nocturna e a todos aqueles que vão agora descobrir Find The Gold?

Antes de mais, obrigado eu pela oportunidade de apresentar Find The Gold aos leitores do Via Nocturna. Gostava de deixar uma mensagem simples: espero que o público se sinta inspirado e motivado ao ouvir este disco. Existe muito caos ao longo do caminho, mas também muita esperança. Essa esperança surge quase como uma luz ou um caminho. Muitas vezes precisamos de passar pelo caos para perceber que, afinal, estamos no sítio certo e ganhar novo fôlego para sermos verdadeiramente nós próprios.

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